Pular para o conteúdo principal

NUNCA DESISTIR...




Por Dora Incontri (*)

Faixa inspiradora da manifestação de ontem (26) na Avenida Paulista

Num mundo, onde tudo se tornou descartável, incluindo o ser humano, onde os valores se tornaram tão flexíveis, que quase se liquefazem, onde sonhos e utopias se esvaziaram, sou ainda alguém que acredita em amores eternos, em amizades inquebrantáveis, em valores como fidelidade e lealdade, em causas existenciais pelas quais há que se viver e, se preciso for, morrer…

Jamais desistir de um propósito elevado, de uma meta que faz sentido, de um sonho de justiça, de um projeto existencial. Jamais desistir de alguém que se ama, seja um filho, um amigo, um irmão, um marido ou uma esposa. Investir no próximo até o sacrifício, entregar-se ao outro com amor incondicional. Trabalhar por um ideal, sem medir a luta; servir a uma causa, com abnegação.


Tal persistência, que nunca desiste, que sempre acredita; que nunca foge, que sempre permanece – tece o caminho que nos faz atingir o coração do outro, faz o roteiro que nos faz deixar algo significativo no mundo.

As pessoas hoje, com o incentivo vigente de um individualismo feroz, não consideram que devam se sacrificar nem por nada, nem por ninguém. Não se trata, é claro, de procurar ou aceitar relações patológicas ou de descuidar-se de si. Mas, não há amor de fato, se não doamos coisas preciosas de nós: cuidado, paciência, abnegação, devotamento… Não há como realizar um projeto de vida significativo, dedicado ao bem, seja ela que qual for, se não nos empenharmos por ele com toda a nossa esperança, toda a nossa dedicação, toda a nossa vontade.

O individualismo contemporâneo, ao invés, estimula o egoísmo, o prazer sensorial, a busca de recompensas materiais, o uso e o abuso do outro (e portanto também de si mesmo). Por isso, tudo se terceiriza: o cuidado com as crianças, o cuidado com os idosos, o cuidado com os doentes. Quem há de sacrificar horas de sono, dias de trabalho “produtivo” (leia-se remunerado), para cuidar de alguém? Por isso, relações são frágeis. Quem há de se dispor ao perdão, à compreensão, à empatia?

O nihilismo contemporâneo também tudo relativiza, tudo esvazia. Assim, não vale perseguir altos ideais, porque a vida não tem sentido, além daquele de preenchê-la de consumo, correria e sensações. Assim, ideais generosos podem até brotar aqui e ali, mas poucas vezes criam raízes, poucas vezes crescem e dão frutos suculentos. Afinal, eles logo são comprados por uma empresa, pela segurança de um trabalho sem sentido, por uma moradia de luxo, por um carro do ano… Não é que não deveríamos ter uma casa, um carro, um trabalho… o problema é pisotear convicções, desistir de projetos existenciais, abandonar ideais, para apenas ter…

E as relações então? Zygmunt Bauman fala de relações líquidas. Pode-se desistir de qualquer ser humano com a maior facilidade do mundo. Expulsa-se o aluno da escola, manda-se o pai ou a mãe para o asilo, fecha-se a porta para o filho ou para o irmão problema, rompe-se friamente com o amigo antigo, despede-se rapidamente, com um e-mail, o funcionário com anos de casa. O outro não tem valor intrínseco. Não há vínculos confiáveis para sempre!

Essa ausência de sentido, essa instabilidade dos afetos, essa ausência de âncoras sólidas, tanto no amor do outro, quanto em valores que não se vendem – isso é que causa a angústia do século, a depressão vigente, que alimenta as indústrias farmacêuticas.

Quem vive um ideal com força, persistência e fé e quem tem raízes afetivas fortes, construídas aliás desde a infância, tem menores possibilidades de se deprimir, de adoecer psiquicamente, de mergulhar nessa solidão existencial em que tantos se perdem hoje.

Sim, eu acredito que não devemos desistir nem de entes queridos, nem de ideais nobres, nem da confiança na humanidade, nem da busca do amor universal!

Acredito que quando nos entregamos sem reservas, o amor cobre a multidão de pecados; quando nos devotamos até o sacrifício a um projeto do bem, as sementes que deixarmos brotarão algum dia.

Acredito que se vivermos nesse diapasão de perseverança no bem, de experiência profunda de afeto, podemos sim sofrer, nos entristecermos, nos depararmos com mil obstáculos – sobretudo os das resistências dos que ainda não descobriram esse caminho – mas encontraremos um recanto de paz dentro de nós.

Não é um caminho fácil, porque ele é tão diferente do caminho da maioria! Tantos conselhos ouviremos para desistirmos, para não sermos idiotas, para retribuirmos desentendimentos, deserções e agressões com gelo, vingança ou indiferença. Tantas pessoas nos dirão que nossos ideais são utópicos, que nossas esperanças são tolas, que nossos sonhos são irrealizáveis! Haverá momentos de desânimo, porque quase acreditaremos que somos loucos ou desajustados. Haverá dias de tristeza, porque quase teremos certeza de que a pessoa que mais amamos nunca vai nos compreender ou que a mudança que esperamos no mundo nunca vai se concretizar…

A questão é que esse nunca desistir só pode persistir, com a visão da eternidade. Com a perspectiva de um futuro que nunca acaba, no qual também habitaremos, com nossa alma imortal.

Algumas tímidas flores, veremos despontar à beira do caminho de nossa persistência. Algumas retribuições, colheremos de pessoas queridas. Alguns despertares, veremos à nossa volta com a semeadura de nosso amor. Mas apenas a eternidade, o futuro imenso, os séculos vindouros na Terra, poderão se preencher plenamente de nosso amor, de nossos ideais.


Nunca desistir é saber-se imortal. Nunca desistir é saber o outro imortal. Nunca desistir é estar conectado com a dimensão do sem tempo, onde só o amor habita.


(*) jornalista, educadora e escritora. Suas áreas de atuação são Educação, Filosofia, Espiritualidade, Artes, Espiritismo.

Comentários

  1. A compreensão acima revela-se originada de uma inteligência primorosa, mas também de uma fé sólida, de uma alma ajustada ao bem. Que continuemos a receber essas preciosidades. Se adotássemos pelo menos uma parte deste pensamento, nenhuma crise nos ameaçaria por muito tempo.

    ResponderExcluir
  2. BRUNO FILHO- BAIRRO CARLITO FORT-CE TO OUVINDO O PROGRAMA,

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O ESPIRITISMO ANTE AS IDEOLOGIAS DE ESQUERDA E DE DIREITA

  Por Elias Moraes O movimento espírita não teve como se furtar ao acirramento das disputas ideológicas no campo político partidário, observadas nas duas últimas décadas; ao contrário, foi fortemente atingido por essas disputas. A princípio, mediante manifestações ostensivas de muitas das suas principais lideranças em defesa das pautas do campo ideológico da Direita, ainda que sob a forma de uma fingida neutralidade. A essas manifestações seguiu-se uma forte reação dos que discordavam dessa postura, e que foram estigmatizados sob o rótulo de "espíritas de Esquerda". Ante o clima de confronto que se estabeleceu, o argumento mais utilizado pelos que adotavam a negação como estratégia de silenciamento das discussões era que o Espiritismo não era nem de Esquerda e nem de Direita, mas "de cima", ou "do alto", como se a doutrina espírita não tivesse posições muito bem definidas a respeito de cada um dos temas colocados em pauta pelos atores de ambos os campos ...

O AMOR É PARA SEMPRE...

Por Dora Incontri (*) (Escrevi esses pensamentos, muito sentidos, há alguns anos. Pretendia publicá-los num livro, mas antes que ficarem guardados, na memória do computador, melhor partilhar com outros que, como eu, estejam amadurecendo essa que é a maior herança divina em nós: a capacidade de amar.) Parque Nacional da Tijuca - Rio de Janeiro O amor é o oposto da indiferença. O amor nunca tanto faz, com o que o ser amado faz. Por isso se empenha sempre por um fazer de luz. O amor pode curar, salvar, elevar, educar, regenerar. Mas tudo a longo prazo, pois para se mostrar, atuar e agir, precisa muito ter paciência, perseverar, persistir, muitas, infinitas vezes perdoar… Tudo devagar. O amor desgovernado, tumultuado pelas paixões, queima os corações, provoca afastamentos, descontentamentos, dilacerações… Por isso, o amor precisa se asserenar, se suavizar, alimentando-se de eternidade!

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

UM PALHAÇO NA MEDIÚNICA

Existe um ponto que reúne o melhor de mim nesta curta jornada pelas estradas pedagógicas da vivência espírita: a mesa mediúnica! Lembro como agora da primeira participação, e como aquilo mudou minha percepção de mundo, com um sentimento de vastidão insondada para tão distante de todos os conceitos construídos pelos setores formais aos quais me ligava.

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

ASSOMBRAÇÃO

                 "Noiva de Furquim", Mariana (MG) - Ilustração                Contou-me um confrade que certa feita regressava ao lar, por volta de meia-noite, após uma festa.             Estava sozinho em seu automóvel. Numa curva, perdeu a direção do veículo, que se precipitou numa ribanceira. Desceu sacolejando e tombou dez metros abaixo.             A custo saiu do carro, rodas para cima. Repleto de escoriações, começou a subir, retornando à estrada. Já no alto olhou para o automóvel. Ficou estarrecido. Estava destruído. Impossível sair com vida dali.             Espírita estudioso, apavorou-se. Certamente morrera! Pensou em descer para confirmar o trágico acontecimento com a visão de seu corpo sem vida, entre as ferr...