Por Jorge Hessen
O elitismo intelectual, o corporativismo e a ostentação acadêmica ameaçam a simplicidade e a universalidade da Terceira Revelação.
Quando contemplamos milhares de espíritas humildes, muitos deles desprovidos de formação acadêmica e recursos materiais, mas dotados de extraordinária dedicação ao Evangelho, reconhecemos os verdadeiros sustentáculos do Movimento Espírita. São trabalhadores anônimos que, longe dos holofotes, mantêm vivas as atividades de assistência, acolhimento, estudo e divulgação doutrinária. Por isso, causa-nos preocupação a crescente valorização de determinadas elites intelectuais em nossas instituições.
Chico Xavier já advertia, em 1977, sobre os riscos da elitização do Espiritismo. Defendia que a Doutrina deveria permanecer próxima do povo, especialmente dos companheiros social e intelectualmente mais humildes, evitando a formação de ambientes restritos a pessoas laureadas por títulos acadêmicos (ARANTES, 1979).
Passadas quase cinco décadas, sua advertência permanece atual. Não somos contrários à ciência, à pesquisa, à formação universitária ou à contribuição de profissionais qualificados. Pelo contrário, o conhecimento científico, quando exercido com humildade e compromisso ético, pode enriquecer significativamente a compreensão dos postulados espíritas. O problema começa quando a titulação se transforma em instrumento de distinção, autoridade ou superioridade dentro do movimento.
Preocupa-nos, nesse contexto, a multiplicação de associações espíritas organizadas por categorias profissionais — jornalistas, médicos, psicólogos, pedagogos, magistrados, escritores e outras. Embora a cooperação profissional possa produzir contribuições legítimas, não podemos ignorar o risco de corporativismo, fragmentação e formação de círculos de prestígio. Afinal, onde estão as associações espíritas de pedreiros, carpinteiros, lavadeiras, garis, serventes e trabalhadores anônimos que também sustentam nossas instituições?
Outro aspecto inquietante é a realização de congressos, seminários e simpósios que, não raro, apresentam custos elevados de inscrição, hospedagem e deslocamento. A programação doutrinária acaba, por vezes, subordinada à grandiosidade dos eventos, à notoriedade dos convidados e à exposição de seus currículos. Em tempos de redes sociais, essa tendência pode adquirir outra dimensão: a transformação do divulgador em personalidade pública, com a doutrina servindo de plataforma para a autopromoção.
Não se trata de condenar eventos especializados ou a participação de intelectuais, mas de questionar a exclusão indireta daqueles que não dispõem de recursos financeiros ou credenciais acadêmicas. O Espiritismo não pode se tornar um produto cultural destinado a consumidores privilegiados.
Kardec estabeleceu, em O Livro dos Espíritos, que a verdadeira superioridade moral não se confunde com a posição social ou a condição intelectual (KARDEC, 2013). A Doutrina propõe a transformação do ser humano, não a constituição de castas de intérpretes autorizados. O conhecimento, sem humildade e vivência moral, pode alimentar o orgulho em vez de promover o progresso espiritual.
Jesus, aliás, não escolheu seus discípulos entre as elites acadêmicas de sua época. Aproximou-se de pescadores, trabalhadores e pessoas socialmente marginalizadas, demonstrando que a grandeza espiritual não depende de títulos, fortuna ou prestígio.
Precisamos, portanto, recuperar a simplicidade doutrinária, sem confundi-la com superficialidade intelectual. Estudar profundamente é indispensável; transformar o conhecimento em instrumento de vaidade é lamentável. A autoridade moral não nasce de diplomas, cargos ou aplausos, mas da coerência entre o que ensinamos e o que vivenciamos.
A unificação espírita também exige vigilância contra o espírito de cúpula, os privilégios institucionais e a concentração de influência. Nenhuma organização deve se considerar proprietária da Doutrina ou detentora exclusiva de sua interpretação. A liberdade de consciência, o livre exame e a fraternidade precisam prevalecer sobre personalismos e disputas por protagonismo.
O Espiritismo é para todos: com os intelectuais, mas não exclusivamente para eles; com os humildes, mas sem confiná-los à condição de assistidos. É uma doutrina universal, destinada a promover a emancipação moral da humanidade.
Não podemos admitir um Espiritismo de primeira classe para os doutores e outro de segunda classe para os trabalhadores humildes. Jesus e Kardec não instituíram castas. A Terceira Revelação não necessita de celebridades, passarelas acadêmicas ou privilégios corporativos. Necessita de servidores comprometidos com a verdade, a humildade e o amor ao próximo.
Referências Bibliográficas:
ARANTES, Hércio Marcos Cintra (org.). Encontro no tempo: entrevistas com Chico Xavier. São Paulo: IDE, 1979. Entrevista concedida a Jarbas Leone Varanda, publicada originalmente em O Triângulo Espírita, em 20 mar. 1977.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.
REVISTA O ESPÍRITA. Editorial. Ano 11, n. 57, jan./mar. 1990.

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO artigo apresenta uma crítica necessária ao distanciamento entre a prática espírita e a sua vocação universal, alertando para a vaidade intelectual e o corporativismo institucional. Ao resgatar os exemplos de Jesus, Kardec e Chico Xavier, o texto lembra acertadamente que a Terceira Revelação? prioriza a transformação moral em detrimento de títulos e eventos de fachada. Manter as portas abertas ao público simples sem criar hegemonias acadêmicas é essencial para preservar a essência fraternista da doutrina.