FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.
Por Jorge Luiz
Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade
Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook).
As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produção pela burguesia – proprietários dos meios de produção –, e o proletariado, os que só têm a sua força de trabalho, produtores da riqueza e que são remunerados por um salário.
No Brasil, tivemos episódios significativos que demarcaram a lutas de classes, como as revoltas indígenas, destaque para a Confederação dos Tamoios, as antiescravistas, como a dos Malês, na Bahia, a de Palmares, em Alagoas, a da Guerrilha do Araguaia e as grandes greves operárias do ABC, em São Paulo e a do Centro Industrial de Aratu, na Bahia.
As lutas de classes têm matizes diversos a partir dos propósitos que as fazem emergir. Atualmente, a conflagração a fez explodir a partir das profundas contradições das classes envolvidas, diante das profundas desigualdades sociais, presentes a partir de um Parlamento declaradamente contrário às necessidades da população. Hoje, ela não se restringe ao chão das fábricas ou às lavouras. A partir do enfraquecimento dos sindicatos e suas uniões, ela se desenrola nas redes sociais, nas ruas, nas discussões sobre políticas públicas, na precarização do trabalho, na crise ambiental, e na distribuição desigual da riqueza e do acesso a serviços básicos. A polarização de hoje, muitas vezes, expressa em termos de “nós contra eles”, pode ser vista, em sua essência, como uma das faces contemporâneas dessa luta.
Algo que se mostra preocupante é a manipulação de correntes religiosas, concentradas em populações periféricas para o uso de lideranças religiosas que se associam em compadrio com os detentores das riquezas, antagonicamente, em prejuízos desses atores considerados analfabetos políticos, na definição paulofreiriana.
Nesse cenário que se apresenta, principalmente com a utilização da fé como ferramenta de manipulação, as religiões foram sequestradas pela lógica neoliberal, estando presente a Teologia da Prosperidade, nascida nos Estados Unidos e importada para o Brasil, por volta da década de 1970, para o enfrentamento da Teologia da Libertação.
A Cruz e a Foice: Religião como Aparelho Ideológico de Estado e Instrumento de Dominação
A Parábola da Figueira Estéril, encontrada em todos os sinóticos, é simbolizada pela destruição do templo. Nela, Jesus demonstra uma série de condenações ao templo, aos sumos sacerdotes e aos escribas, finalizando com o anúncio da destruição do templo. Naturalmente que Jesus não fala da destruição com as mãos, como realmente ocorreu, mas sim ideologicamente.
É recorrente na tradição religiosa se reivindicar essa passagem como meramente religiosa, a partir da relação de Jesus e o “judaísmo”, que, na realidade, é uma tentativa de subestimar, despolitizar ou contemporizar, como veemente se faz, o afrontamento de Jesus em Jerusalém. Assim, Jesus ficaria visto como um reformador religioso. A questão é que o Templo, juntamente com seu sumo sacerdócio, constituíam o coração político-econômico e também religioso da sociedade judaica em geral e era uma instituição essencial na ordem imperial (Horsley, 2004).
A metáfora de Jesus é determinante para o entendimento de que, como “figueira estéril”, são todas as religiões que não propiciam aos fiéis percepção e entendimento da sua inserção como membro de uma classe social a partir dos seus interesses e objetivos comuns, além da identificação com outros membros dessa classe, levando à ação coletiva para defender seus interesses e promover mudanças sociais. Ineficiente, nesses aspectos, “a figueira estéril” de Jesus não tem nada de diferente da designação de ópio do povo, por Karl Marx, neurose coletiva, por Sigmund Freud, e tantas outras denominações.
Louis Althusser, em seu famoso ensaio “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE)”, revolucionou a compreensão marxista sobre a reprodução das relações de produção e o papel da ideologia. Para ele, os AIEs funcionam primariamente pela ideologia. A religião, nesse sentido, inculca nos indivíduos crenças, valores, rituais e moralidades que os fazem aceitar a ordem social existente como “natural”, “divina” ou “justa”. Ela molda a consciência e o comportamento dos sujeitos, fazendo-os agir "livremente" de acordo com os princípios da classe dominante, mesmo que isso vá contra seus próprios interesses materiais. No entanto, ele também reconhece que os AIEs são locais de luta de classes, o que abre a possibilidade de contestação e transformação ideológica dentro deles.
A Cruz e a Foice: Religião como Força de Resistência e Catalisador de Mudanças Sociais
As religiões não desempenham sempre funções conservadoras com respeito às relações sociais conflitivas de dominação. As religiões não necessariamente constituem um obstáculo à autonomia das classes subalternas nem as suas alianças contra a dominação, assim considera Otto Maduro, a partir de suas robustas investigações que foram condensadas e publicadas em sua obra Religião e Luta de Classes (Maduro, 1981). A bem da verdade, essa quadra foi muito especial na dinâmica da luta de classes na América Latina, sobre os sopros revolucionários do Concílio Vaticano II e da Revolução Cubana. Os movimentos sociais e as Comunidades Eclesiais de Base (CEB), encetaram iniciativas revolucionárias, cujas práxis foram testemunhadas por escritos de personalidades latino-americanas e teólogos que culminaram com a Teologia da Libertação. Vê-se, pois, que são alguns anacronismos da religião que se realizam por pessoas ou grupos circunstanciais.
O mais controvertido disso tudo é que os Estados Unidos da América, na pessoa do seu Presidente Ronald Reagan, e o próprio Vaticano, através do Papa João Paulo II, sufocaram esses anseios do reino de Deus na América Latina.
Maduro concluiu que a autonomia de uma classe subalterna pode ser analisada em três níveis diferentes e complementares, níveis que podem se desenvolver de modo defasado (e podem, até, não se desenvolver de modo algum ou estagnar e/ou regredir no desenvolvimento – por isso considerei anacrônica. Seguem os três níveis:
a. o grau de consciência de classe;
b. o grau de organização de classe;
c. grau de mobilização de classe.
Essa realidade se encaixa, assim entende esse resenhista, naquilo que Émile Durkheim considera: a religião como um fenômeno social. Ele via a religião como um sistema de crenças e práticas que unem os indivíduos em uma comunidade moral, fortalecendo a coesão social. Só que, aqui, não reativa, mas ativa socialmente para a transformação da sociedade.
O Evangelho: Uma Boa Nova de Libertação
Alguns pesquisadores sobre Jesus histórico admitem que Jesus figurava, no que foi passado a partir dos estudos de Eric Hobsbawm como banditismo social, verificado nas sociedades camponesas como forma de rebelião pré-política, aos quais esse mediano resenhista se associa. O banditismo social só aparece antes de os pobres terem alcançado consciência política ou adquirido métodos mais eficazes de agitação social, e a terminologia – bandido – ter assumido o caráter pejorativo gestado pela sociedade capitalista.
Uma característica motivadora para os bandidos sociais é a existência da fome; o ritmo da fome determinava a estrutura básica do banditismo social (Hobsbawn, 2015), lembrem-se do “pão nosso de cada dia”. A luta de classes se confunde com o banditismo, a chantagem, o incêndio premeditado de florestas, a mutilação do gado, o sequestro de mulheres e crianças e os ataques contra repartições municipais (Hobsbawn, 2015 apud, Gramsci).
Essa constatação facilita a compreensão da dimensão política de Jesus quando ele opta em definir como seu agente de redenção a Ekklesia e não Templo, que ele determinou como “figueira estéril”, ou mesmo uma Sinagoga.
a. Ekklesia – A palavra Ekklesia, ainda no primeiro século da nossa era, não tinha o sentido que tem hoje, de assembleia religiosa, que deve ser frequentada uma vez na semana para louvor. O termo grego Ekklesia, era uma palavra de conteúdo político. Nas cidades de cultura grega, significava a “assembleia das cidades”. Era uma espécie de conselho de municipalidade. Na tradução Septuaginta (em grego) do Antigo Testamento passou a ser traduzida como assembleia religiosa (Silvoso, 2019).
A Ekklesia não era uma instituição estática, como está definida em Atos, 2:46; 5:42, o propósito era a transformação das pessoas e da sociedade, e não atuar como uma estação de baldeação para almas salvas com destino ao céu (idem).
Em um famoso estudo da sociologia das comunidades de Paulo, Wayne Meeks faz observar como as pequenas igrejas se constituíam formação de células e redes que viriam a ser consideradas suspeitas ou até mesmo subversivas no mundo do seu tempo (idem).
O Império Romano, a seu turno, aceitava bem todas as religiões, mas proibia associações de trabalhadores e de gente pobre (idem).
b. Novo Testamento – As considerações pautadas aqui sobre as religiões são determinantes para compreender-se a desfiguração da Boa Nova de Jesus, em várias direções.
A terminologia do termo Evangelho também se desfigurou, ante a sua conotação de doutrina ou algo religioso na atualidade. Por exemplo, na Bíblia grega, a palavra Evangelho aparece em alguns textos de Isaías (p. ex., Is, 52,1). Ali, significa a notícia da libertação da Babilônia. Ali, Evangelho é Boa Notícia de Libertação, Libertação social e política (idem).
No Novo Testamento, Paulo é o primeiro a usar o termo “Evangelho”, antes mesmo dos textos que hoje conhecemos por evangelhos não tenham sido escritos. Ao usá-lo, Paulo o chama de acontecimento novo. É sim o reinado divino, como tempo de justiça e libertação para todos, através de Jesus.
Um fato muito significativo que vem do exegeta alemão, Gerd Theissen, que explica que “o Evangelho de Jesus Cristo está em oposição aos Evangelhos (evanggelia) da ascensão ao poder romano” (idem).
Ao contrário dos Evangelhos imperiais, a boa nova do reinado divino no mundo trazida por Jesus de Nazaré dizia respeito ao mundo todo e ia além da religião. Essa foi a novidade da pessoa, das ações e das palavras de Jesus que fez um movimento social e chamou discípulos para serem discípulos do reino, mas para viver e testemunhar essa vinda de reino teve de enfrentar a oposição do mundo político-romano e do poder religioso e mesmo de correntes de seu próprio movimento (idem).
A Parábola do Rico e Lázaro: Um Grito de Classe no Evangelho
Não se discute o caráter proletário que predominava nas comunidades campesinas em que Jesus conclamou o reino de Deus. Indiscutível, também, que havia um selvagem ódio de classe contra o rico (prefiro esse conceito que exprime melhor a relação opressor/oprimido). São várias passagens em que Jesus interdita os ricos o acesso ao reino de Deus.
Passagem emblemática é narrada pelo evangelista Lucas (Lc, XVI, 19), na conhecida Parábola o Rico e Lázaro, onde o rico enfrenta os sofrimentos do Hades e Lázaro, o pobre, é consolado no seio de Abraão. Interessante notar que, em vida, o que se entende é que havia um conflito social degradante, não muito diferente da legião de miseráveis dos tempos atuais. Lázaro, o mendigo que jaz à sua porta, era cheio de chagas e desejava as migalhas que caíam da mesa. Essa imagem é um microcosmo do ódio de classes da época e da crítica de Jesus às elites.
No pós-morte, há uma inversão radical de destinos, como bem ensina a Doutrina Espírita. Isso subverte às expectativas sociais e religiosas da época, que frequentemente associavam riqueza à bênção divina e pobreza ao castigo. Jesus, com essa parábola, desafia diretamente essa teologia de retribuição material. Diz Abraão, Lembra-te de que recebeste teus bens em vida e Lázaro, também, os males; mas agora este é consolado aqui, e tu, atormentado.
Fato determinante nessa passagem é que a condenação do rico não se dá por ele ter bens, mas por sua omissão e por não usar sua riqueza para aliviar o sofrimento de quem estava à sua porta. Implicitamente, a parábola sugere que a riqueza do rico só é possível pela exploração e pela negligência aos pobres. Isso dialoga diretamente com a ideia de “banditismo social” de Jesus, que era uma resposta à opressão e à fome.
A parábola termina com a recusa de enviar Lázaro ou alguém dos mortos para advertir os irmãos do rico, pois “se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite”. Isso enfatiza que a justiça social e a compaixão devem ser praticadas na vida presente, com base nos ensinamentos já disponíveis (a Lei e os Profetas), e não esperar por milagres ou avisos sobrenaturais para agir. Isso reforça a urgência da mensagem de Jesus sobre a transformação aqui e agora.
Essa imagem é um microcosmo do ódio de classes da época e da crítica de Jesus às elites.
Referências:
HOBSBAWN, Eric. Bandidos. São Paulo: Paz & Terra, 2015.
HORSLEY, Richard. Jesus e o império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004.
MADURO, Otto. Religião e luta de classes. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.
SILVOSO, Ed. Ekklesia – a revolução começa na igreja. São Paulo: Quatro Ventos, 2019.

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirEste artigo propõe uma instigante interseção entre a sociologia da religião e o pensamento marxista, analisando como os textos evangélicos podem ser lidos através da lente da luta de classes.
Pontos Centrais da Análise:
Contexto Histórico: Situa a mensagem de Jesus dentro das tensões sociais e econômicas da Judeia sob o domínio romano, identificando-o como um catalisador de resistência para os despossuídos.
Consciência de Classe: Investiga como a fé cristã primitiva atuou na formação de uma identidade coletiva entre os oprimidos, oferecendo uma contra-narrativa à hegemonia dos opressores (elites locais e o Império).
Relação Dialética: Examina a tensão entre a promessa espiritual e a realidade material, sugerindo que o Evangelho não seria apenas um "consolo", mas um instrumento de denúncia das injustiças estruturais.
Breve Comentário Crítico
O texto é essencial para quem busca compreender a religião não apenas como um fenômeno metafísico, mas como uma força social dinâmica. Ao desconstruir a ideia de uma fé passiva, o autor resgata o potencial revolucionário das narrativas bíblicas, alinhando-se a perspectivas como a Teologia da Libertação. É uma leitura densa que desafia o leitor a enxergar o sagrado como um campo de disputa por dignidade e justiça social.