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ESPIRITISMO - DIREITO À FÉ RACIOCINADA

 

Por Doris Gandres

Atingido o estágio em que nos tornamos os “seres inteligentes da criação”, conscientes de nós mesmos e capacitados ao uso do livre-arbítrio, ainda que de modo precário, vislumbramos em nosso íntimo um sentimento intrigante, que nos seduz e nos auxilia a enfrentar o medo da longa caminhada que mal adivinhamos, mas que intuímos por difícil e repleta de sobressaltos, necessitando então de suporte e amparo.

Decorrido algum tempo, esse sentimento cresce e, ainda ignorante, o homem agarra-se a mil fórmulas diferentes, símbolos, rituais, magos, profetas, mestres, entregando-se cegamente a conceitos, preconceitos e promessas salvacionistas que lhe evitariam a dor, lhe acalmariam o medo do desconhecido, concedendo-lhe ainda “o perdão das ofensas e a absolvição dos pecados” e a garantia da “felicidade eterna”.

E foi assim que seitas, religiões, filosofias, doutrinas as mais diversas e as mais esdrúxulas angariaram milhões de adeptos silenciosos e submissos, mantidos sob o tacão do medo desta e da outra vida, acreditando que apenas aqueles poucos “iniciados e iluminados” gozavam do privilégio de ter acesso à lei de Deus, que, como lhes asseguravam, eles eram os porta-vozes de Deus e, portanto, senhores da “terra e do céu” e do destino das almas aos seus cuidados...

Mas o tempo, esse amigo incansável, continuava a fluir e, etapa a etapa, descoberta a descoberta, conquista a conquista, fomos percebendo que o conhecimento não é tesouro de alguns poucos; que o binômio esclarecimento e compreensão das leis que regem toda a criação nos demonstra que elas foram feitas para todos e a benefício de todos; que a ambição e a ânsia de poder de alguns encerrou esse binômio nas torres de castelos e mosteiros, em pesados livros, em idiomas arcaicos e letras (mal)decifráveis apenas uns poucos – mas que na verdade elas estão gravadas na consciência de cada um...

Contudo, a ignorância tem seu limite, sujeita que se encontra à lei do progresso, justamente uma das sábias e misericordiosas leis naturais que se aplica a todos e a tudo, possibilitando o desenvolvimento a criaturas e criação, permitindo o avanço do homem em todas as áreas do conhecimento.

É então que esse sentimento, que passamos a chamar fé, deturpado e explorado por tantos milênios, começa gradativamente a ser compreendido e vivenciado de forma mais objetiva. Desde que tenhamos a coragem de assumir essa “nova fé”, deixando de nos arrastar de joelhos diante de togas e mantos, dispensando as bengalas ilusórias dos rituais e cerimoniais e enfrentando de pé, humilde, sincera e destemidamente, a realidade da verdadeira mensagem do Cristo.

Allan Kardec, assessorado por uma plêiade de Espíritos elevados, ao elaborar o Evangelho Segundo o Espiritismo, logo à primeira página, sob o título, faz duas colocações memoráveis que merecem a nossa mais séria atenção: 1ª) Conteúdo: explicação das máximas do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida; 2ª) Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade.

Com relação ao conteúdo, na Introdução, no primeiro parágrafo, Kardec deixa bem claro o objetivo dessa obra: trata-se do desenvolvimento do que ele chama “a quinta parte”, isto é, o ensino moral. E ele explica porque destacou essa parte:

“Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É o terreno em que todos os cultos podem encontrar-se, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, por mais diferentes que sejam as suas crenças. Porque nunca foi objeto de disputas religiosas, sempre e por toda parte provocadas pelos dogmas. Se o discutissem, as seitas teriam, aliás, encontrado nele a sua própria condenação, porque a maioria delas se apegou mais à parte mística do que à parte moral, que exige a reforma de cada um. Para os homens em particular, é uma regra de conduta, que abrange todas as circunstâncias da vida privada e pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas na mais rigorosa justiça. É, por fim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade a conquistar, uma ponta do véu erguida sobre a vida futura. É essa parte que constitui o objetivo exclusivo desta obra.”

Com relação à segunda colocação, aquela referente à fé, nenhuma religião, seita, filosofia ou doutrina, bem como nenhum dos mais ilustres e renomados religiosos e/ou pensadores de toda sorte, conseguiu apresentar esse sentimento de maneira tão esclarecida e verdadeiramente útil ao homem, absolutamente coerente com os ensinamentos do Cristo, com as leis de Deus, que põe em nossas mãos e sujeita ao nosso livre-arbítrio à construção da nossa libertação, da nossa dignidade e, consequentemente, da nossa felicidade, mediante a assunção da nossa responsabilidade perante a aquisição do conhecimento pleno.

Fé raciocinada – essa é uma grande conquista que nos oferece a nossa Doutrina Espírita!

Comentários

  1. É sempre uma delícia estudar com a Doris. Ela, através de seu senso crítico, nos estimula a exercitar as nossas mentes. Com uma linguagem clara, nos passa sua interpretação, deixando a nós a possibilidade de ampliação dos nossos conhecimentos.

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