Pular para o conteúdo principal

ANÁLISE "FOFA" PARA GRUPOS E INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

 

Por Marcelo Henrique

 

O Conhecimento foi, é e será sempre uma arma de transformação.

 

Considerando o palco planetário como o local de aprendizado e experimentação, desde que o homem atingiu o estágio de consciência de si mesmo, superando a fase dos (meros) instintos da animalidade inferior, sua inteligência permitiu planejar e executar voos mais altos. Em um filme praticamente mudo, chamado “A Guerra do Fogo”, homens com uma comunicação bastante rudimentar, baseada em grunhidos e sons ininteligíveis para o padrão de linguagem das eras posteriores, é retratado o uso da inteligência, seja por dados indivíduos seja por agrupamentos coletivos, rompendo as barreiras de obstáculos físico-materiais e obtendo qualidade de vida, nos níveis permitidos por aquele cenário.

Assim, então, as Ciências vieram sendo concebidas e desenvolvidas, com base no binômio teoria-prática, com os fatos e acontecimentos do empirismo motivando o surgimento de teorias e, também, se permitindo teorizar, previamente, sobre atos ainda não realizados. Mas desejados.

Todas as Ciências, sem exceção, derivadas da departamentalização (especialização) do Conhecimento, têm contribuído, inegavelmente, para a melhoria das condições de vida de homens e sociedades. E o aprimoramento, sequencial, não possui limites, sendo, pois, infinito.

Um dos ramos da Ciência que mais nos diz, pessoalmente, respeito, é a Ciência da Administração. Nela encontramos teorias e experimentos que são ferramentas importantes para a gestão (pública ou privada) das organizações coletivas humanas. Variados instrumentos, então, podem ser adaptados conforme o cenário e os objetivos, permitindo uma variação incomensurável de opções e aplicações.

É sobre um destes instrumentos que iremos tratar neste ensaio e sua aplicabilidade às instituições e grupos espíritas.

Trata-se da análise de Planejamento Estratégico segundo a Matriz FOFA (ou, no inglês, SWOT): Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças, considerando dois ambientes organizacionais (o interno e o externo). Veja a imagem na abertura:

Vamos conhecer um pouco melhor esta análise.

Primeiro, é preciso identificar os ambientes, interno e externo, que podem ser assim caracterizados:

Interno – composto pela própria organização, seus dirigentes e colaboradores, isto é, aqueles que fazem parte da estrutura de pessoal (recursos humanos) da instituição, seja ela qual for.

Externo – composto por pessoas que não participam da gestão organizacional, mas mantém, com ela, alguma relação ou vínculo, em razão da proximidade de interesses.

Todo e qualquer grupo ou entidade espírita, portanto, possui os dois ambientes (cenários), o interno e o externo, devendo estar atenta para ambos. Não pode ela, desmerecer ou subdimensionar os elementos externos, baseada na ideia da sazonalidade ou da raridade de participação ou envolvimento, nem pode superdimensionar sua própria estrutura, de modo a não estar atenta para variáveis que podem lhe permitir a necessária oxigenação das ideias (por meio de sugestões de terceiros). Como estamos falando de planejamento e execução, o desempenho organizacional pode ter ganhos qualitativos a partir da interação entre os dois ambientes e para a (necessária) filtragem das contribuições vindas de atores que pertencem a um ou a outro.

Em termos de variáveis (FOFA), temos dois grupos positivos (Força, Oportunidades) e dois negativos (Fraquezas, Ameaças), que podem ser facilmente observados na imagem anterior. Observe, também, que Força/Fraquezas pertencem ao ambiente INTERNO e Oportunidades/Ameaças ao EXTERNO. Convém não misturar os elementos, para que a análise possa ser melhor realizada e os resultados desta possam contribuir para a dinâmica e o planejamento de futuras atividades institucionais ou grupais.

A composição entre pontos positivos e negativos, virtudes e defeitos, acertos e erros é, assim, importantíssima para o constante processo de aperfeiçoamento (individual e coletivo). Em termos práticos, se a instituição não valoriza os positivos, deixa de investir no reconhecimento da contribuição que cada participante pode ofertar a projetos e ações, desmotivando seja seus membros seja os colaboradores ou os interessados. E se deixa de avaliar os negativos, incorre na infeliz diagnose de “já ser” o que poderia ser, impedindo avanços e o crescimento (novamente, individual e coletivo).

Assim, de forma coordenada e planejada, convém sempre estar se perguntando e avaliando, individual e coletivamente: – Como vai o seu grupo ou a sua entidade espírita? Que resultados ela vem obtendo? Qual o grau de satisfação dos membros ou frequentadores?

Recomenda-se, então, sempre que possível, inclusive periodicamente, os gestores do grupo ou instituição listarem – em debates coletivos – quais os elementos “FOFA” que podem ser enumerados em relação ao mesmo. Quais são, então, as Forças, as Fraquezas, as Oportunidades e as Ameaças da entidade ou do grupo? Você saberia listar, individualmente, com base nas suas vivências, estes quatro elementos em relação ao ambiente de que você participa, seja como gestor, dirigente, colaborador ou frequentador?

Vamos usar, exemplificativamente, uma situação pela qual todos de nós passamos ou estamos passando: uma sala de aula. Você como aluno (que é a condição mais comum de todos nós) poderia listas as seguintes forças: estrutura física; equipamentos disponíveis; preparo do professor; material didático; etc. Como fraquezas: tempo curto das aulas; oscilação da internet; falhas da rede elétrica; desvio da sua atenção por colegas interessados em outros temas; etc. Como oportunidades: palestrantes convidados pelo professor; intercâmbio com outras turmas; programações de eventos escolares; contato com outros alunos nos intervalos, informações sobre eventos extracurriculares, filmes, peças de teatro, eventos esportivos e culturais, etc. E, como ameaças: interrupções na sequência das aulas exigindo sobrecarga de conteúdo ou reposições de horários; ruídos externos (um carro de som na frente do colégio); etc.

Os elementos acima são, é claro, meramente enumerativos. Não são satisfativos nem definitivos. É possível abrir um leque de muitas outras variáveis a serem consideradas. E, também, talvez, alguns dos citados não façam parte do ambiente educacional de que você participa. É importante estar atento a todas essas variações em relação à análise proposta, para não enrijecer desnecessariamente a ferramenta.

Convido, então, você, a realizar esta experiência. A aplicar o método FOFA no grupo ou instituição que você participa. Inicialmente, você pode fazer isso como um exercício pessoal e restrito. Ao perceber sua validade e oportunidade, tenho certeza que poderá propor à direção do grupo/instituição a realização coletiva desta análise, inclusive para permitir outras visões (diferentes da sua) sobre o ambiente e as ações organizacionais.

Agora, o elemento mais importante: o objetivo. Para que, então, realizar a análise FOFA?

Poderíamos, de pronto, responder: para melhorar o desempenho, para aperfeiçoar métodos, para alcançar mais interessados, para proporcionar mais bem-estar e prazer na convivência coletiva, para proporcionar maior conhecimento, para atender mais pessoas, para contribuir para a transformação social. Etc.

Portanto, ao concluir a análise, é necessário listar:

1) Quais ações (individuais/coletivas) podem ser melhoradas;

2) Que atividades ou comportamentos devem ser suprimidos;

3) Que aporte de recursos (humanos, financeiros, materiais-instrumentais) seria necessário para o aperfeiçoamento do grupo/instituição;

4) Que público se pretende atingir;

5) Que equipes de trabalho podem/precisam ser compostas ou melhoradas;

6) Como melhorar o ambiente organizacional do grupo/instituição; e,

7) Quando se fará, novamente, uma análise similar à realizada.

Fica, aqui, a sugestão da aplicabilidade do método FOFA aos grupos/instituições espíritas. Nós já aplicamos, com excelentes resultados. E a prova disto é o constante aperfeiçoamento coletivo, que contribui para a manutenção dos membros, a agregação de novos participantes e a qualificação dos resultados obtidos.

Mãos à obra, com o FOFA, então!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

MARCHA PARA JESUS: ENTRE A FIGUEIRA ESTÉRIL E A FÁBRICA DE LÁZAROS

    Imagem criada por IA, a partir do texto Por Jorge Luiz                  O Chão da Avenida e as Vozes do Povo               Ao estudar a psicologia das multidões, Gustave Le Bon (2022) assegura que, quando o edifício de uma civilização está podre, as massas apressam a sua destruição. É esse o seu papel: por um instante, a força cega do número transforma-se na única filosofia da história.             As entrevistas concedidas pelos fiéis na última Marcha para Jesus, realizada no dia 23 de maio, e veiculadas por um portal de notícias (1) , demonstram com exatidão essa práxis. As declarações, desconexas da realidade, estão desalinhadas à mensagem do paraninfo do evento, “em nome de Jesus”.

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

“BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA PORQUE SERÃO SACIADOS...” (Mt 4, 23-25)

  Doris Gandres Essa uma das bem aventuranças proferidas pelo Mestre Jesus em seu Sermão da Montanha, há quase 2 mil anos e da qual bem pouco se fala... Não foi mencionada nem comentada no Evangelho Segundo o Espiritismo por Allan Kardec e os Espíritos que com ele trabalharam, quando tantas outras lhes mereceram a atenção... E de algum tempo me pergunto por que... Julgaram talvez, Kardec e a equipe espiritual, que ainda não tínhamos capacidade de entender o significado dessa afirmativa de Jesus? Que talvez, famintos e sedentos por justiça como estávamos – e ainda continuamos a estar – para nos saciarmos recorreríamos a métodos separatistas e violentos? Afinal, mesmo assim, mesmo relegando essa bem aventurança a segundo plano, praticamente ao ostracismo, povos e nações de todos os tempos, mesmo após o vinda do Cristo e mesmo ainda após o surgimento da doutrina espírita, recorreram ao domínio pela força de todo tipo com a justificativa de estabelecer e implantar justiça.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA MATERIALISTA¹

Por Roberto Caldas (*)               A ciência humana, considerada um dos grandes avanços da espécie desde o seu aparecimento sobre o planeta, tem sido uma das inequívocas provas do caminho evolutivo pelo qual trilha a humanidade. Descortinando os ditames da Natureza o pesquisador abre perspectivas para o crescimento coletivo e acena para novos patamares de conquistas nos campos da qualidade de vida e da socialização dos grupamentos mundo afora.             Dotada de exigência afinada à compreensão analítica profunda e baseada em resultados objetivos resultantes de estudos e experiências que necessitam ser sérias para então aceitas, a ciência humana estabelece uma ponte entre o imaginário que alimenta a observação e o concreto que estabelece a mudança de paradigma sempre que vencida uma etapa de testes e formulação de teses. Foram as experiências que c...

O QUE É O ESPÍRITO SANTO?

    Quem se defronta com os textos bíblicos sem os subsídios proporcionados pela Doutrina Espírita, fica confuso, em muitas situações, como, por exemplo, no entendimento da identidade do chamado “Espírito Santo”. Em verdade, o Mestre Jesus, sabendo que suas instruções seriam falseadas, esquecidas e mal compreendidas, prometeu enviar, e assim o fez, o Consolador, a excelsa Doutrina Espírita que faz lembrar os seus sublimes ensinamentos. Ao mesmo tempo, revelou que todos os esclarecimentos seriam ofertados (“vos ensinará todas as coisas”), deixando evidente à posteridade que não pode dizer tudo devido ao intenso atraso evolutivo das criaturas daquela época (João XIV: 15-26).

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

A DOR É NOSSA AMIGA E AGE COMO CINZEL DIVINO PARA NOSSA EVOLUÇÃO

       Por Jorge Hessen   A humanidade foge da dor desde os tempos mais antigos. Busca-se o prazer, o conforto, a estabilidade e a ausência de dor como se isso representasse a verdadeira felicidade. Entretanto, a experiência humana demonstra exatamente o contrário:  são as grandes dores que frequentemente transformam as criaturas, despertam consciências e renovam destinos .             À luz da Doutrina Espírita,  a dor não é punição arbitrária de Deus.  Ela possui finalidade educativa. Allan Kardec ensina que Deus, sendo soberanamente justo e bom, não cria dores inúteis. Toda aflição possui causa, objetivo e valor moral. Em muitos casos, a dor é o instrumento através do qual o espírito corrige excessos, aprende limites e reconstrói a própria caminhada.