Pular para o conteúdo principal

PERSCRUTANDO A PEDOFILIA

 

 

Por Américo N. Domingos Filho

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a pedofilia é um transtorno psicológico onde o indivíduo (masculino ou feminino) possui atração sexual por crianças e adolescentes pré-púberes (até os 13 anos de idade). Indiscutivelmente, o tema da presente matéria é reconhecidamente muito polêmico e intensamente desagradável. Em não devendo ser ignorado, precisa ser abordado e discutido pela sociedade em geral e, igualmente, pelos adeptos do Espiritismo, os quais podem trazer muitos subsídios para a compreensão do assunto.

Importante que o portador da pedofilia seja acompanhado pela medicina psiquiátrica de forma permanente, desde que, em não existindo a cura, há necessidade de o quadro patológico se manter controlado, sem que aconteça a pervertida exteriorização com prejuízo para outrem, podendo sua conduta se amoldar em alguma tipicidade penal.

No Estatuto da Criança e do Adolescente, artigo 5º, está disposto que “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”. No Código Penal, a previsão está no Título VI, Dos Crimes Contra a Dignidade Sexual, artigo 217-A: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”, como, igualmente, os artigos 218 e 218-A.

Importante destacar que mais de 35 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes foram recebidas pelo Disque 100 do Mmfdh (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), nos últimos dois anos. O serviço registrou 18,1 mil relatos desse tipo de crime contra o segmento no ano de 2018, sendo 13,4 mil casos de abuso sexual, 2,6 mil de exploração sexual e 2 mil de pornografia infantil. Em 2019, o número foi menor, mas ainda bastante expressivo: mais de 17 mil denúncias recebidas foram referentes à violência sexual. Números como esses exemplificam a importância dos canais de denúncia no combate às violações contra os infantes.

Implementados pelo Mmfdh (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), o Disque 100, o aplicativo Direitos Humanos Brasil e o site da ONDH (Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos), gratuitamente, registram as queixas e funcionam 24h por dia, inclusive em feriados e nos finais de semana. Os serviços também podem ser acionados pelo WhatsApp e Telegram.

A exteriorização da pedofilia, acarretando marcantes prejuízos em crianças e adolescentes, faz com que a sociedade se organize cada vez mais contra o mal e crie outra oportuna ferramenta, lúdica e bastante interativa, necessária para romper integralmente o muro do silêncio das pequenas vítimas. Trata-se do aplicativo Direitos Humanos Kids, que será um espaço para que meninos e meninas possam fazer denúncias de violações aos seus direitos, principalmente abusos que acontecem, principalmente, em meio à crise da Covid-19, quando os seres sofrem sozinhos, não contando com um espaço importante de realização de acusação, como as escolas. Portanto, mais um canal surgindo, para acionamento dos órgãos competentes, colaborando para que os delituosos sejam pegos em flagrante.

O pedófilo pode ser criminalizado?

O indivíduo portador de alguma anormalidade no seu comportamento, em caso de produzir atos ilícitos, merece a aplicação de uma sanção judicial, por ser um indivíduo hostil à sociedade, não se justificando poupá-lo de maneira alguma. Alguns desavisados defensores da pedofilia alegam que os transgressores são inocentes, porquanto são as crianças que buscam os contatos criminosos. Incrível como vitimam os bandidos e criminalizam os infantes que realmente sofreram a infeliz agressão de ordem sexual. Muitas vezes tacham de pedofóbicos exatamente os que desejam a justa punição dos transgressores.

Importante frisar que algumas pessoas consideram que o doente não pode ser criminalizado, desde que suas atitudes delituosas não são geradas por sua vontade, mas, sim, devido às condições inatas à sua natureza, portador de uma possível anomalia físico-psíquica. Se assim fosse, certamente, o pedófilo não poderia gozar da liberdade, ser livre, desde que seria moralmente irresponsável, não podendo se adaptar à sociedade e, consequentemente, ser fonte geradora contínua de crimes sexuais contra os menores.

Na Declaração dos Princípios Básicos de Justiça para as Vítimas de Delitos e Abusos de Poder da ONU (Organização das Nações Unidas), fica claro que são denominados de vítimas precisamente os indivíduos que sofreram danos, sejam eles físicos, mentais, emocionais ou financeiros, de maneira individual ou coletiva, por ação ou omissão que infrinjam a legislação penal. Não há argumentos plausíveis que possam tachar de inócuos, não prejudiciais, os pedófilos.

As vítimas que são crianças sofrem intenso impacto físico, psicológico e moral decorrentes do horrendo crime sexual e uma questão se torna crucial: como expor o acontecido aos seus pais ou parentes, já que vivencia intensa vergonha, sentindo-se também humilhada e constrangida, sendo que, algumas vezes, o pederasta faz parte dos círculos familiares.

Além de ter passado por tanto sofrimento, terá que se expor a uma condição conhecida como vitimização secundária, quando terá que abordar momentos sucedidos do crime, inclusive para pessoas que possam ser insensíveis ou mal preparadas para essa situação. Outras circunstâncias muito desagradáveis são a realização de exame médico-forense e o reencontro com o delinquente em juízo.

Certamente devem haver muitos casos que não chegam ao conhecimento do Estado, sendo o ocorrido não denunciado, desde que muitas causas estão em jogo, como a falta de convencimento a respeito do trabalho judiciário, o medo infringido pelo agressor sempre ameaçando a vítima indefesa, tudo isso impondo à criança mais sofrimento, principalmente quando o crime é efetuado no âmbito do lar, sendo intimamente rejeitada e sem a força capaz de superar sua intensa dor moral.

Qual o papel da sociedade em todos os casos de violência sexual em menores? Deveria sempre haver amparo, principalmente psicológico. Contudo, como a Terra é, segundo o Espiritismo, um orbe de provas e expiações, onde o mal prepondera, as crianças envolvidas em abuso sexual podem sofrer muitas humilhações, sendo apontadas na via pública com muita rivalidade, não só pelos olhares depreciativos, como tendo que aturar as brincadeiras maldosas e serem questionadas de forma indiscreta, o que faz intensificar o sentimento de insegurança.

O que ensina o Espiritismo?

O Espiritismo, a respeito do tema em tela, pode nos conceder proveitosos ensinamentos. Um deles proclama que o mal nunca é programado. Sendo assim, ninguém renasce com o planejamento de ser um abusador sexual de menores. Nunca poderá ser apontado a Deus, essencialmente o Amor, a acusação de ser conivente com os malfeitos.

O mau uso do livre-arbítrio é o responsável pelas atitudes malsãs que o ser revela na sua atual trajetória evolutiva, acrescido de tendências doentias, ainda incrustadas em seu psiquismo. Conforme explana a Doutrina Espírita: “o bem é tudo o que é conforme a lei de Deus, e o mal tudo o que dela se afaste. Assim, fazer o bem é conformar-se à lei de Deus; fazer o mal é infringi-la” (1). Realmente, em não existindo planejamento para a prática do mal, não há a possibilidade de um ser reencarnar como vítima ou artífice da pedofilia.

Outra asserção importante é a da repercussão dos malfeitos na intimidade espiritual do algoz, sabendo que todas as infrações da Lei Divina são catalogadas na consciência do culpado (2), podendo ser resgatadas na presente vivência encarnatória ou posteriormente.

É claro que, no desvio sexual em tela, podemos enquadrar os agressores no rol dos espíritos impuros, essencialmente “inclinados ao mal, que convertem em objeto de suas preocupações” (...) “Quando encarnados, animam criaturas inclinadas a todos os vícios gerados pelas paixões vis e degradantes: a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez e a avareza sórdida. Fazem o mal por prazer e o mais das vezes sem motivo, e por ódio ao bem; quase sempre escolhem suas vítimas entre as pessoas honestas. São flagelos para a humanidade, seja qual for sua posição social: o verniz da civilização não os isenta do opróbrio e da ignomínia.” (3)

São seres totalmente desequilibrados, devendo a sociedade mantê-los sempre em observação, com atenção psiquiátrica constante, porquanto têm muita inclinação para a prática do mal. Quando desencarnados, ainda não regenerados, fazem parte dos núcleos de espíritos não esclarecidos que estão sempre envolvidos em práticas sombrias, principalmente assediando os encarnados para a prática de tudo que não presta.

Oremos pelos que passam pela expiação e pelos que são artífices do escândalo! Certamente, não há mal que perdure para sempre e, em um certo momento, como viajantes do cosmos, vivenciarão um glorioso despertar nos rincões da Eternidade.

 

Bibliografia

KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, questão 630;

KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, questão 621;

KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, item 102.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UMA AMOSTRAGEM DA TESE ESPÍRITA: DOIS CASOS QUE SUGEREM REENCARNAÇÃO (PARTE I)

   Por Jerri Almeida   Introdução A pesquisa científica sobre reencarnação oferece contribuições valiosas para ampliar horizontes de conhecimento sobre o sentido da vida. Não se trata, obviamente, de trilharmos somente o caminho da fé ou da crença, pois estamos diante de uma questão mais complexa, que envolve de forma totalizante o saber humano. Infelizmente, na atualidade, nem sempre as pesquisas nessa área ocorrem com o ritmo e os critérios que as possam alavancar em termos de reconhecimento científico, mesmo porque o mundo acadêmico, em boa parte, ainda se ressente dos preconceitos com tal tipo de temática.

BRASIL, O PARAÍSO FISCAL DO SAGRADO

         Por Jorge Luiz   A "Offshore" da Fé: Anatomia do Privilégio Fiscal             A Câmara dos Deputados aprovou recentemente, em 28 de maio de 2026, a proposta que amplia drasticamente a imunidade tributária para entidades e templos religiosos de qualquer culto. O texto, que agora segue para o Senado, estende a vedação de cobrança de impostos para a aquisição de quaisquer bens ou serviços necessários à implantação, manutenção e funcionamento dessas instituições. Trata-se de uma manobra que pode abrir um rombo de até R$ 50 bilhões na arrecadação da União, dos estados e dos municípios.             Pelas regras do novo sistema tributário nacional, qualquer benefício fiscal concedido a um setor precisa ser compensado pelo restante da sociedade. Na prática, isso significa que enquanto as corporações da fé pagarão menos tributos, seus própr...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

PODE UM PASTOR QUE NEGA A REENCARNAÇÃO PALESTRAR NUMA CASA ESPÍRITA?

    Por Jorge Hessen Convidar um líder religioso (pastor) que nega a reencarnação e a mediunidade para palestrar numa casa espírita é, no mínimo, uma alucinação.  O problema começa quando se perde a clareza dos objetivos doutrinários. O Espiritismo ensina o respeito irrestrito à liberdade de consciência. Allan Kardec jamais defendeu o sectarismo. Aliás, dialogou com cientistas, materialistas, religiosos e céticos. O diálogo é saudável e necessário. Todavia, existe uma diferença fundamental entre dialogar com quem pensa diferente e  conceder tribuna doutrinária a quem combate os princípios fundamentais da Doutrina Espírita. Se um  palestrante evangélico  afirma categoricamente que a comunicação entre encarnados e desencarnados é impossível; que a mediunidade é fraude ou ação demoníaca; que a reencarnação não existe, então estamos diante de alguém que rejeita os pilares básicos do Espiritismo.

ESPIRITISMO SEM ESPÍRITO E CARIDADE SEM ALMA

  Por Wilson Garcia Quando a prática se afasta da essência e a forma sobrevive ao conteúdo Há algo de silenciosamente inquietante no movimento espírita contemporâneo. Não se trata de uma ruptura declarada, nem de um abandono explícito de princípios. Ao contrário: tudo parece funcionar — reuniões, palestras, obras assistenciais, rotinas institucionais. E, no entanto, cresce a sensação de que algo essencial foi sendo deslocado, suavemente, até quase desaparecer. Duas manifestações desse fenômeno merecem atenção urgente: o chamado “Espiritismo sem espírito” e a prática de uma caridade que, ao privilegiar o material, esvazia sua dimensão mais profunda — a espiritual.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

OS PIORES INIMIGOS – 3ª PARTE: A DUREZA

  Por Marcelo Teixeira                A viagem de Jesus e Pedro entre as cidades de Cafarnaum e Magdala prossegue. Nela, Pedro, tão temeroso em se defrontar com inimigos externos, vai se deparando com os internos e mostrando os conflitos íntimos pelos quais passam todas as pessoas, principalmente as que percebem ser preciso reavaliar condutas, pensamentos e conceitos. Neste terceiro artigo da série (baseada no capítulo 31 do livro Luz Acima ), quem se apresenta para ser colocada no centro da discussão é a dureza.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

CONVICÇÃO OU COAÇÃO?

    Por Doris Gandres           Neste momento em que vivemos, presenciando cotidianamente um bombardeio de informações massacrantes, informações de todo tipo, de origens as mais variadas, inclusive de pessoas e grupos considerados pelo que chamam “massa” como “inquestionáveis”, arquitetadas para doutrinar mentes de tal maneira a seu modo, pensando (?) e agindo conforme seus interesses pessoais de poder e domínio, me pergunto onde se enterrou a liberdade de pensamento, de questionamento, de análise, como a própria criatura se permitiu tal abuso e se entregou?             Terá existido na humanidade, em algum momento, uma convicção espontânea, sincera, nascida em seu íntimo, sem nenhuma influência externa, apenas fruto de observação atenta e crítica? Talvez à época mais rudimentar do ser humano, ainda rude e bruto, somente preocupado em sobreviver nas precárias condições de seu tempo – o que...

A CONTRIBUIÇÃO DE JOSÉ HERCULANO PIRES (1914-1979)

  09.03 - ANIVERSÁRIO DA DESENCARNAÇÃO DE JOSÉ HERCULANO PIRES - NOSSA HOMENAGEM  Por Dora Incontri (*) Ainda poucos no movimento espírita conseguem aquilatar a contribuição única que Herculano dera ao desenvolvimento do espiritismo. A primeira dessas contribuições está na própria compreensão da idéia espírita. Tratando-se de uma revolução conceitual, uma quebra de paradigma, um passo inédito na história do conhecimento – a sua dimensão e o impacto renovador de suas propostas ainda não foram entendidos pelos seus adeptos mesmos, que o tocam apenas superficialmente, carregados dos vícios religiosos do passado, incapazes de singrarem nos mares abertos, descortinados por Kardec.