Pular para o conteúdo principal

CONSERVADORISMO ENTRE ESPÍRITAS PROGRESSISTAS: O DESAFIO

 


Internet é caminho que nos liga pelo mundo das ondas e suas armadilhas estão à beira das passagens, nem sempre tão ocultas, porém de muitas maneiras subestimadas. A mais perigosa de todas para o meu olhar de ponderação é a criação e manutenção de dependências relacionais neste espaço de exercícios de poder pelo controle e determinação de quem é ou não digno de existir.

A criação de guetos e bolhas ultrapassa a ideia original de conservador e progressista, direita e esquerda, e consegue gerar em todos os territórios citados políticas de massificação comportamental virtual.

Há tempo tenho levado a sério os cuidados com o que separa quem sou e aquilo que produzo como conteúdo intelectual, político, literário, do afã de mando coercitivo que impera em muitos grupos.

Outro elemento que não pode passar despercebido é o fato de por ser mulher, ter a obrigação de agradar a certos homens – coisa essa daquele tipo não verbalizado, mas imposto na prática.

Assim sendo, relato mais uma experiência do tipo “péssima” com um destes grupos espíritas progressistas dispersos pela rede, quando um administrador quis me obrigar a mudar o título de um texto porque não concordou com ele.

O título: Onde Olavo e Kardec se esbarram.

A pressa em ser do “bem”, da “justiça social” e da “democracia”, assanhou de tal modo estas individualidades que começaram a brigar com o texto pelo título, mostrando insipiente (mas perdoável) desenvoltura literária, associada ao afã de “desconstruir” quem ousou desagradar, principalmente se tratando de uma mulher. No final das contas, tudo não passaria de mal entendido por falta de leitura e boa interpretação de texto, se eu como autora não desafiasse o postulado do logos espírita progressista dialogando com os tais.

Depois de relevar muitas acusações ao texto, fui obrigada a ler uma frase xeque-mate do administrador: mudar o título! Pois segundo sua interpretação do meu diálogo eu havia posto com a intenção de criar desconforto no grupo.

Respira devagar e pensa: de acordo com ele eu escrevi um texto para um único grupo sair da zona de conforto.

Como espírita progressista me sinto na obrigação de relatar esta indecência e reafirmar que não basta se dizer progressista para de fato mostrar que é.

Maus leitores tentando convencer uma mulher que escreve de que ela não sabe escrever, agredindo com autoritarismo de efeito um texto que não soube interpretar, e ainda exigindo que mude o título porque Olavo e Kardec não podem ficar lado a lado na mesma linha de uma escrita.

Olavo, Kardec, Jesus, Deus e até Lúcifer podem ficar lado a lado em qualquer trabalho de cunho literário que se sustente, e esse hábito antigo de fazer o sinal da cruz diante daquilo que não gostamos como gesto de desprezo, por certo só nos leva a confrontar nossas relações com o espiritismo religiosista que empurramos sob falácias filosóficas e políticas.

O caminho largo do aprendizado não foi fechado, mas as minhas relações não acatam a parte da intromissão naquilo que escrevo, por essa razão e somente por ela, saí do grupo.

Mas fica aqui o alerta para os grupos que se autodenominam espíritas progressistas mantendo na essência forte apelo à condução de seguidores encabrestados: a essência do progresso é o livre pensamento! O crescimento coletivo passa pelo crivo esperançoso das vitórias individuais sobre os vícios de mando, seja à direita ou esquerda, no conservadorismo ou no progressismo.

Comentários

  1. Creio que o conservadorismo vem de um processo intrrno de revisão de valores ainda incompleto. É algo não só no Espiritismo, mas em todo âmbito da esquerda.

    ResponderExcluir
  2. Olá, Filipe!
    Com certeza. Todos nós que nos afirmamos progressistas guardamos em nossa personalidade, uns mais outros menos, expressões conservadoras. Jorge Luiz.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

'SELFIES" ALIENANTES

Por Jorge Hessen (*) As tecnologias pessoais, sobretudo os smartphones, revolucionaram o formato com que as pessoas se expressam no dia-a-dia na atualidade, e a selfie faz parte dessa transformação. Experimenta-se a neurose do selfie (derivada do termo inglês self (eu) junto ao sufixo “ie” – um tipo de fotografia), para indicar uma espécie de autorretrato, tradicionalmente exposto na rede social que tem contagiado a muitos, principalmente no Instagram e Facebook. O indivíduo aponta o smartphone para o próprio rosto e busca o melhor ângulo para tirar uma fotografia esmerada. Pode ser na praia, na festa, no parque, no restaurante ou em situação de alto risco de vida. A obsessão é tamanha que neste último caso chega a causar acidentes fatais. Quando falamos em selfies aqui, os números não são nem de longe inexpressivos, ou seja, nada menos que 880 bilhões de fotos foram feitos apenas em 2014. Uma parcela relevante de auto-exposição na forma de autorretratos. Tais imag...

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

O ABORTO E A GRATIDÃO POR TER NASCIDO

Minha mãe e eu, 54 anos atrás Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida. Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

O ESPIRITISMO ENTRE A FILOSOFIA E A RELIGIÃO: AS DIFERENÇAS DE SENSIBILIDADE ENTRE KARDEC, HERCULANO PIRES E CHICO XAVIER

       Por Wilson Garcia      A comparação entre Allan Kardec e Chico Xavier talvez seja uma das mais delicadas do movimento espírita brasileiro. Ela toca não apenas em personalidades históricas, mas em dois modos profundamente distintos de compreender o próprio Espiritismo. E, de fato, há diferenças muito evidentes entre ambos — de formação intelectual, de sensibilidade religiosa, de linguagem, de método e até de projeto cultural.   A hipótese de que Chico seria a reencarnação de Kardec ganhou força mais pelo imaginário afetivo do movimento espírita do que por evidências concretas de continuidade intelectual. Quando observamos os dois racionalmente, o contraste salta aos olhos.

O PERÍODO DOS "GRANDES MÉDIUNS" JÁ PASSOU!

    Por Jerri Almeida   Allan Kardec foi sempre muito cuidadoso na preservação dos médiuns com os quais manteve contato, e que colaboraram em suas investigações. Poucas são as citações ou referências aos nomes desses médiuns no conjunto de sua obra. Parece evidente, que Kardec se preocupava muito mais com o conteúdo das informações e das ideias apresentadas do que, propriamente, com os médiuns e Espíritos que as comunicavam.

PRECE DO EDUCADOR

Por Dora Incontri (*) Senhor, Que eu possa me debruçar sobre cada criança, e sobre cada jovem, com a reverência que deve animar minha alma diante de toda criatura Tua! Que eu respeite em cada ser humano de que me aproximar, o sagrado direito de ele próprio construir seu ser e escolher seu pensar! Que eu não deseje me apoderar do espírito de ninguém, imprimindo-lhe meus caprichos e meus desejos pessoais, nem exigindo qualquer recompensa por aquilo que devo lhe dar de alma para alma!