Pular para o conteúdo principal

FÉ E CRISTIANISMO

 


                Agostinho, bispo de Hipona, santo da Igreja, não só foi ao seu tempo concorrido líder cristão na África como foi um dos grandes filósofos da história do cristianismo. Pode-se dizer que é o primeiro marco fundamental da filosofia cristã, o alicerce do pensamento medieval. Agostinho, além de sua fantástica vida pessoal – aluno displicente, homem da vida mundana, de mãe considerada santa pela Igreja, convertido apaixonado ao cristianismo numa idade já bastante adulta – foi também homem de muita poesia. Sua literatura, hoje bastante esquecida, é um exemplo de poesia da fé. Mesmo que os homens de hoje tão pouco tenham do espírito medieval, não há como não se comover com seus escritos. Nos seus Solilóquios, numa parte da obra chamada A oração a Deus, dizia Agostinho:

          A partir de agora,

         só amo a ti,

         só teu quero ser;

         só a ti procuro,

         só a ti estou disposto a servir,

         pois só tu governas como justiça e

         sob tua direção quero me colocar.

         Manda eu te peço,

         Ordena tudo o que quiseres,

         Mas sara e abre os meus ouvidos,

         para que eu ouça as tuas palavras.

                 Agostinho foi daqueles que a tudo abandonaram para seguir ao Cristo. Abandonou inclusive a mulher, e viveu pela sua fé. É talvez o típico herói cristão medieval. Largou a vida dos homens para viver a vida de Deus. Devotou-se a sua Igreja. Depositou sua vida em Cristo. Quantos de nós, hoje, poderão isto fazer?

             Esse sentimento individual de fé, que fez com que o professor latino de retórico Agostinho se convertesse no grande líder e santo da Igreja, talvez ainda hoje possa nos assombrar, nós homens de um mundo de pouca fé. No entanto, nosso tempo não pode apenas analisar o homem Agostinho nem tampouco certos homens mártires do cristianismo, o Santo Francisco de Assis, e certos outros grandes homens daqueles tempos. Há homens grandiosos, há homens comuns. Mas, se a classificação dos homens for esta, estaremos nos dias de hoje ainda comparando o incomparável; não é com certos homens que nossa preocupação e nosso esforço devem se direcionar. É como a estrutura de mundo que, como Agostinho, depositavam sua vida em Cristo, que devemos nos entreter. Que espécie de mundo era aquele, que mundo será este em que vivemos, em que é tão difícil ter fé, em que certamente, a não ser com muita licença poética, diríamos também como Agostino “só a ti estou disposto a servir”?

            Alguns de nós apontaremos, ainda recorrendo a grandes e pequenos homens, que não se fazem hoje homens como o velho Agostinho. É de se perguntar, no entanto, qual a razão pela qual o mundo medieval produziu tantos mártires e nosso tempo com isto não se preocupa. Por que nosso tempo não é de fé, por que o era antigo? Por que foi preciso fé naquele mundo, por que hoje já não o é mais?

            A lâmina que decepou a cabeça deste grande monstro que era a fé medieval esteve nas mãos de homens como Voltaire, Rousseau, Kant, livres pensadores que se incumbiram de mostrar o absurdo de nossas crenças irracionais. Estes deram o golpe de guilhotina no monstro em praça pública. Mas ainda só isso não explica porque este grande ser, a fé, foi levado à praça pública como réu decapitado por esta elite esclarecida que se reputou racional e dona da filosofia. Voltaire não faria seu serviço sozinho. O monstro já estava morto quando ele passou pelo seu pescoço a guilhotina da razão moderna.

         Na verdade, são mundos distintos, o medieval e o moderno, e suas situações peculiares engendram posturas diferentes em face a vida. Agostinho os houve aos montes naquele tempo porque o tempo foi propicio a isso. Nós, modernos e contemporâneos, nos propiciamos a outras coisas.

            Não parece que seja de muito lastimar a falta da fé medieval. Na verdade, mesmo quando somos críticos ferozes do racionalismo moderno, ainda o fazemos tendo por base a razão. Mesmo quando não queremos os caminhos racionalistas dos filósofos burgueses modernos, não queremos mais a obscura fé de Agostinho. Talvez por isso não deva haver choro quando não encontramos Agostinhos nos dias de hoje. Não se trata de voltar ao passado nele fincar pé. Pelo contrário, trata-se de superar a antiga obscuridade que levava a fé sem alternativas e também se trata de superar a moderna frieza de nossa razão meramente tecnicista, lucrativa materialmente, que nos conduz à hipocrisia e ao cinismo anestesiante de nossos sentimentos mais altos e justos. Por isso, entre Agostinho e nós, não cabe escolha: cabe a contradição destes dois mundos para a superação destes dois pólos tão parciais da dialética do homem.

 

Fonte: Cristianismo Libertador, Alysson L. Mascaro, editor Comenius.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

ASSOMBRAÇÃO

                 "Noiva de Furquim", Mariana (MG) - Ilustração                Contou-me um confrade que certa feita regressava ao lar, por volta de meia-noite, após uma festa.             Estava sozinho em seu automóvel. Numa curva, perdeu a direção do veículo, que se precipitou numa ribanceira. Desceu sacolejando e tombou dez metros abaixo.             A custo saiu do carro, rodas para cima. Repleto de escoriações, começou a subir, retornando à estrada. Já no alto olhou para o automóvel. Ficou estarrecido. Estava destruído. Impossível sair com vida dali.             Espírita estudioso, apavorou-se. Certamente morrera! Pensou em descer para confirmar o trágico acontecimento com a visão de seu corpo sem vida, entre as ferr...

RÉQUIEM

 Por Paulo Eduardo (*) O ofício dos mortos em música sublime. Réquiem significando repouso. Pausa na vida física a fim de enfrentar novos rumos. Retorno à pátria espiritual sendo relembrado neste segundo dia de novembro. Dia de Finados a alegria paradoxalmente triste de uma festa realmente com melodia em surdina. O palco desse momento de velada despedida ou de comunicação interna é o cemitério. Jazigo é sepultura e os espíritos são livres da vestimenta física quando partem em busca dos planos etéreos da vida plena. Ninguém fica residente em catacumba. Uma verdade inconteste. Convém destacar o crescimento da cremação de corpos e nem por isso leva-se ao esquecimento dos nossos cujos despojos tornaram-se pó. Nos réquiens pelo Dia de Finados vamos orquestrar a saudade no seu patamar de harmonia e certeza da perpetuação da vida. A Doutrina Espírita repercute na sua forma belíssima de reverenciar quem parte através do evento morte. Somos imortais na natureza divina...

SE O UNIVERSO É TÃO GRANDE, POR QUE IMAGINAMOS UM MUNDO ESPIRITUAL TÃO HUMANO?

    Por Wilson Garcia     Se a ciência expandiu nosso conhecimento sobre o cosmos de forma impressionante, talvez seja hora de perguntar: será que nossa visão sobre o mundo espiritual não ficou pequena demais — terrestre demais, humana demais? Uma leitora fez uma pergunta que me deixou pensando. Ela havia lido meu texto anterior,  Um bilhão de galáxias e uma única pergunta: e o espírito? , e trouxe uma questão que merece ser levada a sério. Ela disse, em resumo: — Tudo bem, falamos de bilhões de galáxias, de um universo gigantesco… mas e o outro lado? O que tudo isso tem a ver com a realidade espiritual? Será que o tamanho do universo material diz algo sobre o universo espiritual? A pergunta é boa. A resposta, porém, pede cuidado.