Pular para o conteúdo principal

A VISÃO INTER-RELIGIOSA COMO ELEMENTO NATURAL AO ESPÍRITA KARDECISTA



Nos evangelhos é fácil verificar o quanto Jesus foi contra a idolatria à sua pessoa. Ele direcionava ao Pai toda sua a atenção e pedia àqueles à sua volta que também o fizessem. Afinal só Deus poderia ser chamado de bom, ele no máximo de mestre.

Mestre no grego, e posteriormente no latim, está relacionado aquele que tem notório saber em alguma coisa e que o transmite para outros. Alguns definem a ação do mestre como puro exercício dialético, pois todo discípulo poderia sobrepujar o mestre, como Jesus também afirmou aos apóstolos.

Jesus, ao se autodefinir como mestre, marca como queria ser reconhecido claramente, esvaziando o intento de qualquer um querer-lhe imputar uma importância divina.

Porém, hoje, século XXI, a figura de Jesus está transformada para além do mestre. Jesus é adorado em paridade com a figura de Deus (o que de certa forma é até justificável pela subjetividade que Deus impõe aos nossos sentidos e inteligência). A construção histórica de Jesus levou a essa configuração, porém vale a pena refletir sobre ela, principalmente os espíritas kardecistas que colocam Jesus em posição de superioridade em relação a qualquer outro espírito que esteja ligado ao planeta Terra.

Por qual motivo essa reflexão deve ser feita sobre a figura de Jesus estar acima de qualquer outra e superior ao perfil que ele mesmo definiu para si?

Frente aos desafios de se viver em um mundo mais justo e igual é importante que os cristãos tenham consciência que eles não representam mais do 35% da população mundial. Ou seja, outros quase 2/3 do mundo procuram sua religiosidade em fontes primárias longe do cristianismo.

Dentre os espíritas kardecistas é mais pujante a necessidade dessa reflexão, pois supostamente a viagem do espírito em seu arco evolutivo ocorre em diversos países, diferentes culturas, ocupação de corpos de diferentes gêneros e por aí vai. Ou seja, a visão inter-religiosa, intercultural, inter-racial deveria ser o guia de entendimento do mundo atual pelo espírita, independentemente de como coloque seu sentimento e ligação com Deus a partir da ética de qualquer figura religiosa.

Pontuar Jesus dessa forma, mais próximo do significado de mestre, não busca diminuí-lo ou colocar o cristianismo em julgamento. Mas se os cristãos mantiverem a visão de superioridade de Jesus perante os demais líderes religiosos, como se solucionará a questão da evolução planetária, por exemplo? Será necessário a conversão de 2/3 da população mundial para o cristianismo?

Não é lógico que isso aconteça. Nem mesmo sensato, pois haveria um toque de fundamentalismo religioso que, conforme a história nos conta, não leva a lugar algum senão a um vale de tristezas e abusos.

Mesmo se inferirmos que no Livro dos Espíritos Jesus é citado como o modelo mais perfeito a ser seguido é preciso colocar a obra em seu contexto histórico. A história que conhecemos a fundo (brasileiros e europeus) é a Ocidental, sendo o Ocidente praticamente sinônimo de Europa, daí o termo eurocentrismo. Kardec estava imerso nesse ambiente, o Livro dos Espíritos teria como primeiros leitores os franceses e depois os demais povos da Europa. Não fazia sentido apresentar outras culturas e personalidades desconhecidas. Até porque a figura de Jesus apartada dos desmandos das Igrejas, bastava para que a mensagem fosse divulgada como deveria. (No Evangelho Segundo o Espiritismo não há sequer uma mensagem de um espírito oriental)

A grande verdade é que os principais ensinos de Jesus são universais, calam na humanidade de todos aqueles que buscam o necessário bem viver para si e para o próximo, o que para o espírita significa evoluir pelo conhecimento e prática do amor. Nesse sentido universal, também foi dito, que sempre houve na humanidade a presença de grandes mestres, em todos os lugares, o que nos leva a crer que a ética defendida por Jesus também foi passada às demais culturas por outros mestres, adaptadas às suas características. Além disso, se no caso do cristianismo tivemos os problemas criados pelas Igrejas, também em outros lugares aconteceu o mesmo.

Assim, e nisso o espiritismo kardecista é emancipador, o kardecista, mesmo tendo com sua base sólida e como fonte primária os ensinos de Jesus, poderá dialogar com qualquer outra matriz religiosa e filosófica sem entraves, pois a busca nesses diálogos seria procurar os pontos comuns que elevam o ser em direção a Deus, e por consequência, à evolução espiritual, e sem a necessidade de instituições para intermediar esses processos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

CANDOMBLÉ, ESPIRITISMO E A LIBERDADE DE SER: O QUE A FALA DE MAJUR NOS ENSINA

  Por Wilson Garcia   A entrevista que a cantora Majur deu ao programa  Desculpa Alguma Coisa , com Tati Bernardi, vai muito além de um papo sobre música ou carreira. O que ela compartilhou ali é uma oportunidade rara para a gente refletir sobre coisas profundas: liberdade de consciência, identidade espiritual, pertencimento e intolerância religiosa.               Quando Majur conta como se aproximou do Candomblé, não está falando só de uma escolha religiosa. Ela fala de um processo de emancipação pessoal. Ao dizer que deixar o ambiente evangélico não significou abandonar Deus, mas sim se libertar de uma prisão, ela expõe algo que muita gente vive: a busca por uma espiritualidade que faça sentido com quem a gente realmente é.

CROMOTERAPIA NA CASA ESPÍRITA: UM SISTEMA SEM AMPARO NA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

    Sala de cromoterapia no Colônia Fraternal Bom Jesus - Centro Espírita no Ipiranga (SP)   Por Jorge Hessen                Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra  Plenitude . Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.             Em  Plenitude , Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

O ESPIRITISMO DE VIDRO: O MEDO DO CONFLITO E A FALSA MANSIDÃO

       Por Jorge Luiz                    A Redoma de Vidro e o Estereótipo Anestesiado             Existe uma coreografia muito bem ensaiada nos salões do espiritismo hegemônico contemporâneo. Ela é composta por tons de voz milimetricamente sussurrados, sorrisos condescendentes que flutuam acima das misérias do mundo e uma gramática da passividade que confunde o torpor com a iluminação. Criou-se uma caricatura de santidade, um verdadeiro "espectro" encenado onde o indivíduo adota uma persona ritualística: distribui abraços, beijos e tapinhas nas costas dentro dos limites do centro espírita, mas desliga o afeto institucionalizado assim que cruza a porta de saída. Esse "bom espírita" tornou-se aquele sujeito plasticamente pacificado, incapaz de se alterar diante da injustiça, que assiste ao desmonte dos direitos sociais mais básicos da janela de seu apartam...

ILUMINANDO A CAVERNA (*)

Por Roberto Caldas (*) Platão (Atenas – 428 a 347 AC) numa de suas mais lidas obras, A República, transcreve um diálogo socrático que passou para a história como A alegoria da Caverna. Nesse diálogo o filósofo Sócrates (469 a 399 AC) conversa com Glauco a respeito da forma como se pode ver o mundo a partir das posições adotadas em determinadas circunstâncias. Ele fantasia uma caverna onde homens presos pelos pés e pela cabeça se encontram de costas para a abertura da mesma e só podem ver o mundo através das sombras projetadas em uma parede à frente criadas por uma fogueira que se encontra às suas costas. Daí eles nada vêem ou sabem além do que aquelas sombras projetam e a compreensão do mundo não passa senão das percepções que têm daquelas imagens. Então, uma daquelas pessoas é solta e levada para conhecer além das sombras projetadas, conhece o fogo que tinha às costas, vê as pessoas que passavam e tinham as suas imagens projetadas, alcança a abertura da caverna e e...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

LOBISOMEM: MITO OU REALIDADE?

    Por Americo N. Domingos Filho   Na tradição oral, em âmbito mundial, há o relato fantástico de um ser que se converte em lobo, em noites de lua cheia, e, sedento de sangue, sai em busca de suas vítimas para sugá-las. Ao amanhecer, assume de novo as características de uma pessoa comum. Essa lenda revela um ser amaldiçoado, que se torna parte homem e parte lobo, produzindo muito temor, principalmente nas crianças e, igualmente, em muitos adultos, especialmente os moradores de áreas rurais.

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?

  Por Francisco Castro (*) Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo! Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim! Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espírita...