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SOBRE O AMOR PEDAGÓGICO

 

Ilustração de Anasor no livro "Pestalozzi e a escola num castelo", de Dora Incontri

Nossas bases teóricas e filosóficas consideram a criança como construtora de si mesma. Diante dela, devemos evitar a tentação da manipulação e praticar o amor pedagógico. A rigor, não precisaríamos adjetivar o amor, porque quando entendido, sentido e praticado em sua verdadeira essência, dispensa qualificações. Lembremos aqui a definição que o filósofo e psicanalista Erich Fromm empresta ao amor em A Arte de Amar (2002), incluindo em sua abrangência, as dimensões do cuidado, da responsabilidade, do respeito e do conhecimento.

Se o amor se constituir do conhecimento do outro em sua essência e singularidade, do respeito à sua individualidade, do cuidado com suas necessidades físicas, psíquicas, espirituais e da responsabilidade que se compromete com o seu crescimento e sua felicidade – então ficam dispensados quaisquer adjetivos para o amor. Mas como se trata de palavra desgastada e que, em nossa sociedade, aparece frequentemente erotizada e empobrecida, invoquemos o adjetivo pedagógico para precisarmos a sua função na educação.

Foi Pestalozzi o educador que mais enfatizou, definiu e praticou o amor pedagógico, em seus mais de 40 volumes de obras escritas e em suas diversas experiências pedagógicas no virar do século XVIII para o XIX.

Pestalozzi fala em amor vidente, para definir aquilo que seria para ele “força elementar da moralidade”. Não se trata aqui de sentimentalismo piegas, nem de romantização do afeto, no estilo de livros de autoajuda pedagógica de que o mercado editorial contemporâneo anda repleto. A ideia de que Pestalozzi foi representante do romantismo pedagógico é equivocada – ele foi sim um representante tardio dos ideais iluministas. (Ver INCONTRI, 1996).

 

Trata-se do estabelecimento entre educador e educando de um vínculo afetivo sólido e lúcido, entretecido de respeito e diálogo. Porque esse amor vidente, que enxerga o outro como ele é – em sua singularidade, em sua essência divina, em suas potencialidades, em seus possíveis desajustes – é um amor que se entrega devotadamente ao desenvolvimento do educando, nunca desistindo, nunca desanimando, nunca considerando que uma criança, um adolescente ou um jovem possam ser considerados “casos perdidos”.

 

O amor vidente ou pedagógico é aquele que, em primeiro lugar, vê o educando dentro do conceito de crianças como um ser de promessas, um ser divino, um coração e uma mente absorventes dos bons estímulos. Em segundo lugar, quem ama pedagogicamente sente repugnância pela manipulação e pela homogeneização, porque se encanta com a singularidade de cada um, que resulta na diversidade do coletivo.

 

E, por fim, o exercício do amor pedagógico só pode ser aliado a uma prática de liberdade. Apenas na autonomia que se faz o ato pedagógico, no seu sentido pleno.

Em sua experiência de Stans, Pestalozzi morou e trabalhou com quase 80 crianças abandonadas ou órfãs, traumatizadas por uma guerra, destituídas de qualquer estímulo, e o fez apenas com a ajuda de uma governante. Foi nesse período que ele teorizou, depois de ter vivenciado plenamente, sua teoria do amor na educação. Ele foi cuidador, professor, amigo, companheiro e pai dessas crianças em Stans. Depois, ele levaria os frutos dessa experiência, de apenas cinco meses e que redundou em melhora significativa das crianças, as diretrizes que aplicou no Instituto de Yverdon, que durou 20 anos e se tornou a escola mais famosa da Europa de sua época (1805-1825).

 

A prática de Yverdon era totalmente inédita naquele século e ainda hoje continua rara em todo o mundo. Uma escola sem notas, sem castigos, sem exclusões, com aulas-passeio, atividades diversas, ensino mútuo, plural e inter-religioso. Uma escola toda baseada no diálogo e na autonomia. Uma espécie de Summerhill antes do tempo, mas com o acréscimo de que Pestalozzi levava em conta todas as dimensões do educando, inclusive e espiritual, que foi negligenciada no século XX.

 

Por tudo isso se vê que esse amor proposto por Pestalozzi tem caráter libertador, impulsionando para uma educação transformadora, precursora de um diálogo à Paulo Freire. Um amor que está ancorado fortemente no conceito de criança, desenvolvido desde Platão, e que se desdobra numa prática cotidiana em que o educando se torna sujeito de sua própria educação, porque amado, pleno de direitos – ser de potencialidades, que se abrem para um futuro coletivo muito mais promissor.

 

Nota: Essas ideias estão principalmente nos livros de minha autoria Pestalozzi, Educação e Ética (1996), Pedagogia Espírita – um projeto brasileiro e suas raízes (2014), A Educação segundo o Espiritismo (2012).

 

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