Pular para o conteúdo principal

O ESPÍRITA E A SEGURANÇA PÚBLICA - PARTE I "BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO"

 NOVO ARTICULISTA: Filipe Luiz Albani, professor de Português e Inglês e mestre em Linguística. Trabalhador da Casa Espírita Deolindo Amorim (Teresópolis-RJ) e coordenador de diversidade e povo preto do Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social (CEJUS). Seja bem-vindo!


“... a morte apenas o livra da presença material do seu inimigo, pois que este o pode perseguir com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra; que, assim, a vingança, que tome, falha ao seu objetivo, visto que, ao contrário, tem por efeito produzir maior irritação, capaz de passar de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo demonstrar, por meio da experiência e da lei que rege as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, que a expressão: extinguir o ódio com o sangue é radicalmente falsa, que a verdade é que o sangue alimenta o ódio, mesmo no além-túmulo.” (ESE, Cap. 12, item 5)

             No dia 19/10/2020, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública disponibilizou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, trazendo dados do segundo semestre de 2019 e do primeiro semestre de 2020. O resultado coloca em xeque duas afirmações correntes no movimento espírita: (1) O Brasil é a pátria do evangelho; (2) estamos a caminho de um planeta de regenerados.

            Essa reflexão faz-se necessária ante esse embate entre o movimento espírita tradicional, que arrebata muitos grupos com um discurso religioso, porém apoiador de um candidato com discurso absolutamente mais ligado à primeira epígrafe, em contraposição com os coletivos de esquerda, que procuram colocar a questão social em pauta.

            Os dados mostram como a violência tem crescido no Brasil, e tem atingido especialmente negros e LGBTQI+, não somente os chamados “fora da lei”, mas também agentes da lei.

            Seria muita pretensão esgotar esse assunto em apenas um artigo; contudo, a ideia é colocar em pauta um tema sobre o qual não há uma abordagem adequada em nenhum grupo, independentemente da linha política ou religiosa que se siga.

 

DADOS PRINCIPAIS

            Dentre os dados principais (Disponível em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2020/10/anuario-14-2020-v1-interativo.pdf), podemos ressaltar:

2019

          Redução de 17,7% de mortes violentas intencionais, porém com aumento 13,3% provocadas pelas polícias (sendo 79,1% negros, 74,9% jovens até 29 anos e 99,2% homens).

          Das vítimas letais, 74,4% negros, 51,6% jovens até 29 anos, 91,2% homens, 72,5% sob arma de fogo);

          Policiais assassinados: 65,1% negros, 55,2% entre 30 e 49 anos, 99% homens.

          Crescimento de 5,2% de registros de lesão corporal dolosa em decorrência de violência doméstica, totalizando 1 agressão física a cada 2 minutos;

          A cada 8 minutos, 1 estupro aconteceu no Brasil, sendo 57,9% menores de 13 anos e 85,7% do sexo feminino;

          Aumento de 13% dos feminicídios, sendo 66,6% das vítimas negras, 56,2% entre 20 e 39 anos e 89,9% mortas por companheiros ou ex-companheiros;

          10,3% das crianças e adolescentes foram assassinadas, sendo 91% meninos e 75% negros;

          Aumento de 7,7% de violência contra pessoas LGBTQI+, sendo que os dados vieram de apenas 11 estados;

          66,7% dos presidiários são negros.

 

Primeiro Semestre de 2020:

          Aumento de 7,1% de mortes violentas intencionais (1 pessoa assassinada a cada 10 minutos);

          Aumento de 19,6% de policiais assassinados;

          Aumento de 6% de assassinatos de vítimas de intervenções policiais;

          Aumento de 3,8% de acionamentos da Polícia Militar em casos de violência doméstica contra mulheres;

          Aumento de 1,9% de feminicídios;

          Aumento de apreensão de 56,7% de cocaína;

          Aumento de apreensão de 128,3% de maconha;

          Redução de crimes contra o patrimônio.

 

            O anuário traz outras informações mais profundas e merece um estudo bastante acurado, pois os temas são bastante delicados.

            O que mais preocupa nesses dados é a manutenção de um padrão: jovens negros assassinados (mesmo policiais, porém com idade um pouco mais avançada), jovens mulheres sendo estupradas, mulheres negras vítimas de seus companheiros.

            Ao longo dos anos, em vez de diminuir, esse perfil apenas aumentou. E o que tem sido feito para mudar?

 

CONCEITO DE SEGURANÇA PÚBLICA

            De acordo com a Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Segurança_pública):

            “A segurança pública é o estado de normalidade que permite o usufruto de direitos e o cumprimento de deveres, constituindo sua alteração ilegítima uma violação de direitos básicos, geralmente acompanhada de violência, que produz eventos de insegurança e criminalidade. É um processo, ou seja, uma sequência contínua de fatos ou operações que apresentam certa unidade ou que se reproduzem com certa regularidade, que compartilha uma visão focada em componentes preventivos, repressivos, judiciais, saúde e sociais. É um processo sistêmico, pela necessidade da integração de um conjunto de conhecimentos e ferramentas estatais que devem interagir a mesma visão, compromissos e objetivos. Deve ser também otimizado, pois dependem de decisões rápidas, medidas saneadoras e resultados imediatos. Sendo a ordem pública um estado de serenidade, apaziguamento e tranquilidade pública, em consonância com as leis, os preceitos e os costumes que regulam a convivência em sociedade, a preservação deste direito do cidadão só será amplo se o conceito de segurança pública for aplicado.”

            No geral, quando pensamos no assunto, vem à mente a presença de polícia ou o serviço de vigilância, mesmo que privada, dentro e fora de casa; contudo, o conceito colocado remete a uma ideia mais ampla: não necessariamente precisamos de sistemas de vigilância, basta que se tenha a tranquilidade de poder usufruir de direitos e cumprir deveres sem qualquer forma de admoestação.

            De certa forma, podemos dizer que o conceito remete-nos à ideia de viver em paz. Na prática, quando notamos a abordagem sobre esse tema na imprensa, temos uma série de crimes, bem como ações do Estado em prover agentes de segurança e de inteligência para evitar que esses crimes ocorram.

            Assim sendo, quanto pensamos nos problemas relatados na primeira parte deste artigo, verificamos que o que analisamos são os problemas de segurança pública, ou seja, trocamos o efeito pela causa.

            Portanto, o que causam esses distúrbios, que são, basicamente, a violência, além de outras formas de criminalidade?

            No próximo artigo, vamos trazer aspectos da doutrina espírita.

 

Comentários

  1. Os dados da violência assustam. Prova cabal que a sociedade está doente, perdida e escolhendo priorizar qualquer coisa menos a vida humana... ou menos a vida humana de Pretos pobres. Que lástima. Nós espíritas não podemos ampliar este estado de violência aplaudindo a máxima de bandido bom é bandido morto! Esta reflexão proposta aqui é muito importante. Já querendo ler o restante do artigo. Beijos mil!

    ResponderExcluir
  2. Os dados da violência assustam. Prova cabal que a sociedade está doente, perdida e escolhendo priorizar qualquer coisa menos a vida humana... ou menos a vida humana de Pretos pobres. Que lástima. Nós espíritas não podemos ampliar este estado de violência aplaudindo a máxima de bandido bom é bandido morto! Esta reflexão proposta aqui é muito importante. Já querendo ler o restante do artigo. Beijos mil!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

ESPIRITISMO LIBERTADOR(*) E JUSTIÇA SOCIAL: O DESAFIO DE UMA CARIDADE QUE LIBERTA

    Por Jorge Luiz   “A caridade que não questiona o sistema que produz a miséria, é apenas colonialismo com boas maneiras” . (Aimé Césaire) O Espiritismo e a Caridade em ‘Vozes da Seca’. “Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/Pelo auxílio dos sulistas nessa seca do sertão/Mas, doutor, uma esmola para um homem que é são/Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Os versos da música Vozes da Seca , de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, inspirada no prosaico, no simples e no repetitivo do dia a dia, é de uma riqueza exuberante quanto à realização da caridade na dinâmica da vida real. A composição é de 1953, isso é importante para se ter a dimensão da realidade naqueles tempos. Apesar disso, os compositores captam na poesia, que apesar dos sofrimentos prementes, ainda assim, revela a dignidade de um povo, que apesar das dificuldades, não quer viver de esmolas. A “esmola” é apresentada como uma faca de dois gumes: pode destruir a autoestima, “matando de vergonha”,...

FANÁTICOS, MANÍACOS E LOUCOS

  Orson P. Carrara Observa-se com frequência os prejuízos e constrangimentos trazidos pelo fanatismo e pelas manias que extrapolam o bom senso. Mas também os desequilíbrios mentais por eles trazidos. Estão em todos os segmentos da vida social. Quando prevalece a falta de discernimento, surgem as loucuras próprias pelos estudos da matemática, da medicina, da música, da filosofia entre outros, comparecendo também nos esportes e nas artes em geral, fruto do fanatismo por determinada área ou manias ao conduzir as próprias atividades.

UM POUCO DE CHICO XAVIER POR SUELY CALDAS SCHUBERT - PARTE II

  6. Sobre o livro Testemunhos de Chico Xavier, quando e como a senhora contou para ele do que estava escrevendo sobre as cartas?   Quando em 1980, eu lancei o meu livro Obsessão/Desobsessão, pela FEB, o presidente era Francisco Thiesen, e nós ficamos muito amigos. Como a FEB aprovou o meu primeiro livro, Thiesen teve a ideia de me convidar para escrever os comentários da correspondência do Chico. O Thiesen me convidou para ir à FEB para me apresentar uma proposta. Era uma pequena reunião, na qual estavam presentes, além dele, o Juvanir de Souza e o Zeus Wantuil. Fiquei ciente que me convidavam para escrever um livro com os comentários da correspondência entre Chico Xavier e o então presidente da FEB, Wantuil de Freitas 5, desencarnado há bem tempo, pai do Zeus Wantuil, que ali estava presente. Zeus, cuidadosamente, catalogou aquelas cartas e conseguiu fazer delas um conjunto bem completo no formato de uma apostila, que, então, me entregaram.

A RELIGIÃO, O PODER E A ÉTICA

  Por Doris Gandres                 Na Rev. Espírita de abril de 1866, Allan Kardec lembra que "infelizmente em todos os tempos as religiões foram instrumentos de dominação". E continua, na Rev. Espirita de fevereiro de l867: "a maior parte das religiões surgiram em tempos remotos, em que os conhecimentos científicos eram limitados (...) infelizmente todas se fundaram no princípio da imutabilidade". Na Idade Média, a igreja católica apostólica romana sagrava reis: para manter os chamados privilégios de nascimento, advindos da força, os então superiores - que mandavam e usurpavam - faziam-se divinizar para serem aceitos sem questionamento; aliavam assim o poder da força ao poder divino, conservando a ignorância e fomentando o medo = das masmorras, da fogueira, do inferno...

COMPULSÃO SEXUAL E ESPIRITISMO

  Certamente, na quase totalidade dos distúrbios na área da sexualidade, a presença da espiritualidade refratária à luz está presente ativamente, participando como causa ou mesmo coadjuvante do processo. O Livro dos Espíritos, na questão 567, é bem claro, ensinando-nos que espíritos vulgares se imiscuem em nossos prazeres porquanto estão incessantemente ao nosso redor, tomando parte ativamente naquilo que fazemos, segundo a faixa vibratória na qual nos encontramos. Realmente, na compulsão sexual ou ninfomania, a atuação deletéria de seres espirituais não esclarecidos é atuante, apresentando-se como verdadeiros vampiros, sugando as energias vitais dos doentes. O excelso sistematizador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 14, define a obsessão como "(...) a ação persistente que um mau espírito exerce sobre um indivíduo". Diz, igualmente, que "ela apresenta características muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem sin...

O PERÍODO DOS "GRANDES MÉDIUNS" JÁ PASSOU!

    Por Jerri Almeida   Allan Kardec foi sempre muito cuidadoso na preservação dos médiuns com os quais manteve contato, e que colaboraram em suas investigações. Poucas são as citações ou referências aos nomes desses médiuns no conjunto de sua obra. Parece evidente, que Kardec se preocupava muito mais com o conteúdo das informações e das ideias apresentadas do que, propriamente, com os médiuns e Espíritos que as comunicavam.

ALUCINAÇÃO - UMA REVISÃO EM KARDEC

  Todas as vezes que me sento diante do computador para escrever algum artigo, penso seriamente naquilo que seria possível para mim, mas que, antes de tudo, poderia despertar algum sentido mais profundo para os que me leem. Naturalmente, a minha pretensão é grande, pois reconheço a minha pequenez para tal, no entanto, parto do princípio de que, se possível, eu possa escrever sobre um assunto que não seja corriqueiro. Entretanto, como psiquiatra, não consigo fugir muito aos assuntos ligados ao dia-a-dia da minha experiência profissional. Portanto, escolhi mais uma vez abordar um tema voltado à questão patológica: a alucinação. Contudo, desta vez, mais do que nunca, o meu referencial é Kardec.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia: