Pular para o conteúdo principal

A SOCIEDADE SOMOS NÓS

 


É evidente que, se não fossem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa o homem dominar, ele sempre acharia um trabalho qualquer, que lhe proporcionasse meio de viver, embora se deslocando da sua posição. Mas, entre os que não têm preconceitos ou os põem de lado, não há pessoas que se veem na impossibilidade de prover às suas necessidades, em consequência de moléstias ou outras causas independentes da vontade delas?

Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.

Questão n° 930, de O Livro dos Espíritos

Há indivíduos indolentes e indisciplinados que vi­vem em situação difícil por sua própria culpa. Mas há, também, os que experimentam amargas privações de­correntes de circunstâncias alheias à sua vontade:

O doente sem recursos, o velho sem abrigo, a criança abandonada, o operário desempregado, o homem marginalizado em virtude de problemas de comportamento.

Imagina-se que providências a respeito do assunto são de alçada exclusiva do Governo, chamado ao atendi­mento da população carente e à erradicação da misé­ria.

No entanto, a sociedade somos nós, cidadãos que a compomos. O Governo é apenas uma representação. Não pode­mos, portanto, debitar-lhe inteiramente a solução desse problema, mesmo porque a cristianização da sociedade não depende de iniciativas dos poderes constituídos. Fraternidade, solidariedade, misericórdia, caridade, compaixão, não são passíveis de imposição por decretos.

Consideremos, ainda, que o Governo não é onis­ciente, onipresente, onipotente. Ele não sabe tudo, não vê tudo, não pode tudo. Mas a sociedade, como um to­do, formada pelos cidadãos que a compõem, pode exer­citar essas faculdades, na medida em que, diante das misé­rias humanas, sempre haverá alguém capaz de fazer algo, ao passo que a interferência de prepostos governamen­tais vai depender de os encontrarmos, de estarem dispos­tos a fazê-lo e desfrutarem de disponibilidades para tan­to.

No livro Atravessando a Rua, comentamos a expe­riência de um homem que encontrou um doente ao de­sabrigo, em noite muito fria, e suas tentativas para con­duzi-lo ao Albergue, a esbarrarem na falta de uma viatu­ra da própria instituição e de órgãos policiais e hospitala­res. Reclamando pela falta de colaboração, deu o assunto por encerrado. No dia seguinte, o doente foi encontrado sem vida. Morreu de frio.

De quem foi a culpa? Do Governo, sem dúvida. O albergue, o hospital, a polícia, que direta ou indiretamente o representam, fa­lharam na medida em que não se adequaram ao desem­penho de suas funções.

Mas há um cúmplice: o samaritano vacilante que, naquele exato mo­mento em que topou o doente, era o melhor represen­tante da sociedade para socorrê-lo. Bastava usar seu au­tomóvel ou providenciar um táxi, já que uma vida huma­na vale bem mais que embaraços ou despesas decorren­tes de semelhante iniciativa.

O recalcitrante socorrista, bem como dezenas de pessoas que passaram por ali, viram o problema e prefe­riram ignorá-lo, comportaram-se como membros de uma sociedade que se diz cristã, mas está longe de viver os ensinamentos do Cristo. Evidentemente não se improvisa o cristão. Ainda assim, não estamos impedidos de ensaiar fraternidade. Se ainda não conseguimos abrir a porta de nossa casa ao necessitado, abramos-lhe as portas da boa-vontade, dis­postos a fazer algo em seu benefício, sem debitar a inicia­tiva ao Governo, porquanto, diante dos infortúnios hu­manos, naquele exato momento em que os contempla­mos, somos os representantes melhor credenciados da sociedade para ajudar. Estamos ali.

Há outro aspecto importante: o Governo representa não apenas a sociedade, mas também suas tendências. Ele se vincula à história da nação, suas características, sua maneira de ser. A Alema­nha de Adolf Hitler foi a materialização da belicosidade e das pretensões de hegemonia racial de boa parte do povo alemão.

Seria, portanto, inocência, pretender que o indiví­duo alçado ao poder se transforme, por obra e graça do Espírito Santo, num campeão do Evangelho, apóstolo do Bem, empolgado pela promoção humana, trabalhan­do de sol a sol com disciplina, prudência, bom-senso, honestidade e, sobretudo, amor pelo semelhante.

Poderá surgir, de quando em vez, um sábio ou um santo na direção de um povo, mas ele próprio terá de lu­tar contra terríveis limitações e dificuldades, porquanto será um elemento estranho numa coletividade alheia aos seus ideais.

A sociedade legitimamente cristã deve ser construí­da de baixo para cima. Quando a maioria da população for cristianizada teremos governos capazes de vivenciar plenamente os ensinamentos de Jesus. Não há fórmulas mágicas para isso. É apenas uma questão de trabalho, muito trabalho no esforço do Bem.

Diz o Espírito Humberto de Campos, em psicogra­fia de Francisco Cândido Xavier: As missões legitimamente salvacionistas vêm à Terra vestidas de macacão.

O verdadeiro missionário é aquele que serve sem­pre, com inabalável disposição, empenhando a própria existência no esforço em favor do semelhante.

Isso explica porque o espírita consciente fatalmente se vincula a obras de assistência e promoção humanas - creches, berçários, escolas, abrigos, lares da infância e da velhice, hospitais - formando uma mentalidade de parti­cipação e de iniciativas em favor dos carentes de todos os matizes. Ele sabe que não há outro caminho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

SOBRE AVES, LÍRIOS, CELEIROS E PARTILHA

  Por Jorge Luiz A Dialética da Exploração: A Propriedade como Obstáculo à Providência A pele tisnada pela insolação diária que enfrenta, cujas marcas são percebidas nas rugas precoces que já marcam de forma indelével sua face, descansava, o que permitiu minha aproximação. Sr. Severino enfrenta uma tarefa diária puxando seu carrinho, cuja caçamba é adaptação de velha e enferrujada geladeira que percorre todos os dias algumas ruas de Fortaleza, coletando papelão que comercializa para um depósito.             Indagado sobre a sua rotina, respondeu-me que tem, necessariamente, de retornar ao depósito por volta das onze horas, pela necessidade de comprar os insumos para a alimentação sua e da família. Sr. Severino realçou que quando o dia é favorável a ele, o produto da coleta rende-lhe R$ 50,00, só que o aluguel do carrinho custa R$ 20,00.  

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

FORA DA JUSTIÇA SOCIAL NÃO HÁ SALVAÇÃO

Diante dos ininterruptos processos de progresso à que estão submetidos os seres humanos, seria uma visão dicotômica não compreender está ação de forma concomitante! Ou seja, o progresso humano não dar-se-á apenas no campo espiritual, sem a ação do componente social na formação do sujeito espiritual que atua na Terra.

A FAMÍLIA PÓS-NUCLEAR

      Por Jerri Almeida Preâmbulo O estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.

POR UM MOVIMENTO ESPÍRITA SUBVERSIVO

 “A revolução foi proposta por Kardec, foi ensaiada por esses cientistas (Crookes, Bozzano, Aksakof, Richet, Rochas e outros) mas ainda não foi realizada na civilização ocidental – onde se enraíza – e não foi nem mesmo compreendida pelos espíritas.” (Dora Incontri, “Para Entender Allan Kardec.”) Jesus, no Sermão das Montanhas (representação)             É provável que o leitor esteja intrigado com o título do artigo, pelo uso da palavra subversivo. Não é de se estranhar, até por que é esse o propósito. Entretanto, a etimologia de subversivo, vem do latim ( sub =abaixo) e ( vertere =dar voltas) + ( ivo =efetividade, capacidade). De subverter = verter por baixo; executar atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário.             Se se estudar a semântica histórica ou diacrônica (que estuda as mud...