Pular para o conteúdo principal

DIA DE FINADOS À LUZ DO ESPIRITISMO

 

Por Doris Gandres

Em português, de acordo com a definição em dicionário, finados significa que findou, acabou, faleceu. Entretanto, nós espíritas temos um outro entendimento a respeito dessa situação, cultuada há tanto tempo por diversos segmentos sociais e religiosos.

Na Revista Espírita de dezembro de 1868 (1), sob o título Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, na Sociedade Espírita de Paris fundada por Kardec, o mestre espírita nos fala que “estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aos nossos irmãos que deixaram a terra, um testemunho particular de simpatia; para continuar as relações de afeição e fraternidade que existiam entre eles e nós em vida, e para chamar sobre eles as bondades do Todo Poderoso.”

Nenhum outro comentário explicaria melhor o sentido da homenagem prestada aos chamados “mortos” no dia de finados pelo mundo afora. Isso não quer dizer que só nos lembremos dos entes queridos que partiram antes de nós nesse determinado dia. Os que amamos estão permanentemente em nossos pensamentos, mesmo nos momentos mais inusitados, mesmo nos momentos menos imaginados. Fazem parte do nosso cotidiano, de nossas atividades, mesmo as mais comezinhas, sem que para isso façamos nenhum esforço; é que a lembrança é tão presente e natural que passa a fazer parte de nós.

O que Kardec destaca quanto ao valor dessa comemoração é o fato disso gerar uma comunhão de pensamentos, uma homogeneidade de propósitos, uma similaridade de sentimentos – todos, estando fisicamente próximos ou não, emitem ondas vibratórias benéficas e amorosas, claro que em geral temperadas com saudade e certa tristeza, o que, se não exageradas, são provas do amor que ficou para sempre gravado em espírito.

Compreendemos que, muito provavelmente, aos que estão na outra dimensão da vida e que igualmente estão a nós ligados por sentimentos amorosos, essas ondas de afeto e apreço lhes chegam como afagos, como abraços carinhosos, relembrando doces momentos e fortalecendo os laços afetivos criados na existência terrena.

O que talvez ainda não tenhamos entendido e assimilado é a potência de que somos dotados através do pensamento. O pensamento, impregnado pelos nossos sentimentos e direcionado pela nossa vontade, tem um poder e uma capacidade para nós ainda inimagináveis. Léon Denis, em seu livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor (2), há quase um século, nos assegurava que o pensamento é criador. Atualmente a ciência humana já pode comprovar isso fotografando o pensamento!

Além do fato de que pelo pensamento, num sentido ou noutro, estamos todos interligados, formando todos nós uma grande teia que, mediante a lei do magnetismo, vai agregando outros tantos pensamentos similares, crescendo e se expandindo.

Outro fato ainda é que pensamento é uma energia que independe de estarmos no corpo físico ou somente em corpo espiritual, em perispírito; independe de estarmos encarnados ou desencarnados. É um atributo do espírito, qualquer seja a sua situação.

Assim, consequentemente, podemos compreender o valor desses encontros vibratórios, o seu significado e quanto bem podem proporcionar às criaturas dos mundos físico e extrafísico, sobretudo quando preces fervorosas permeiam essas vibrações. A prece é um pensamento elevado, que carreia o melhor de quem ora e extremamente valiosa quando a benefício de alguém.

Na Revista Espírita de dezembro de 1859 (3), Allan Kardec nos traz o depoimento de um clérigo, o Rev.Padre Félix: “a devoção para com os mortos não é só a expressão de um dogma e a manifestação de uma crença – é um encanto da vida, um consolo para o coração. Com efeito, que há de mais suave ao coração do que esse culto piedoso, que nos liga à memória dos mortos? Crer na eficácia da prece; crer que as lágrimas de saudade amorosa que por eles derramamos ainda lhes podem servir de auxílio; crer, enfim, que mesmo nesse mundo invisível em que habitam, o nosso amor pode visitá-los em seu benefício, que doce, que suave crença!”

Portanto, bem entendendo o significado dessa homenagem aos “vivos no nosso coração”, nas palavras de uma muito querida amiga, vamos honrá-los, prestando-lhes o nosso carinho e amor, no dia preconizado, se assim o quisermos, e sempre.

 

Referências:

1)      Allan Kardec, Revista Espírita, dezembro 1868

2)      Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor

3)      Allan Kardec, Revista Espírita, dezembro 1859

 







 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O texto apresenta de forma clara e referenciada a perspectiva espírita sobre o Dia de Finados, ressignificando-o de "fim" para continuidade dos laços afetivos. O foco central reside no poder do pensamento e da prece como energia vibratória que interliga encarnados e desencarnados. A homenagem se torna, portanto, uma ativa comunhão de sentimentos e propósitos, um testemunho de amor que transcende a barreira física e oferece auxílio e consolo mútuos, honrando os "vivos no nosso coração".

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

DARWINISMO ESPIRITUAL E A SOCIOBIOLOGIA DO REINO: A LUTA DE IDEIAS COMO MOTOR DA TRANSIÇÃO

           Por Jorge Luiz                    A Espiral da Transição e o Equívoco do Evento                 Uma celeuma existente no movimento espírita acerca de leituras literais de transições planetárias desviou aquilo que é um processo profundo de adaptação biossocial para a transição vista como um mero evento cronológico. A evolução não se opera em uma constante, mas sim em uma espiral de eventos. A evolução dos mundos está atrelada à evolução dos Espíritos vinculados a eles.             Para compreender esse mecanismo na escala macro, é imperativo analisar o microcosmo das relações humanas. No livro Missionários da Luz (Cap. 13), psicografado por Francisco C. Xavier, o espírito André Luiz relata o grave trauma sofrido por um núcleo familiar em virtude das atitudes predatória...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

DESCAMINHOS DA DIVULGAÇÃO ESPÍRITA

“Mais vale um inimigo confesso do que um amigo desajeitado.” (Allan Kardec)             Por Jorge Luiz (*)             Recebi e-mail com programação de evento dito espírita, que será realizado aqui em Fortaleza. Fiquei perplexo pela escolha do tema central, mais apropriado para programas televisivos transmitidos na madrugada: “ Por que está dando “tudo errado” para mim?” Ou, quem sabe, para aqueles cartazes colados em postes de iluminação pública para anúncios de consulta, os conhecidos ledores de buena-dicha.             A grade de programação traz como subtemas: Por que não consigo me resolver sexualmente? Drogas resolve? Depressão: causa ou consequência? Estou na família certa?  Em nenhum momento assinala-se que o evento é espírita ou que as abordagens serão espíritas. Aliás, só se encontra a p...

O CRISTIANISMO E A TEOLOGIA DO DOMÍNIO

  Por Jorge Luiz           As últimas eleições ao cargo principal do Brasil fizeram emergir um fenômeno   sociopolítico que, até então, desenvolvia-se de forma sub-reptícia e tendo como pano de fundo o cristianismo. Estou me referindo à Teologia do Domínio, que teoriza a tomada do espaço público pela Igreja, defendida por algumas das principais lideranças neopentecostais, até então sem muito aprofundamento para o vulgo.             O que vem a ser a Teologia do Domínio?