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A EDUCAÇÃO DA ELITE, A EDUCAÇÃO SUCATEADA E O FOSSO SOCIAL NO BRASIL


Essa semana (¹) saiu a notícia de uma escola no Rio, para a elite da elite – 3.800,00 reais por mês – inspirada nos badalados métodos de educação da Finlândia. O principal acionista da escola é Paulo Lemann, dono do Burger King.

Para quem milita por uma educação de qualidade e inovadora para todos os brasileiros e brasileiras, essa notícia tem um sabor amargo, num momento em que a escola pública está sofrendo o seu último desmonte. Fechamento de escolas em Estados e municípios, anúncios de terceirização da educação em escolas estaduais, bloqueio federal de investimentos na Saúde e Educação por 20 anos, mexida reducionista e autoritária no currículo, extirpando-se ou diminuindo-se significativamente as matérias que ensinam a pensar e a entender o mundo, como História, Geografia, Filosofia e Sociologia… – são alguns dos retrocessos lamentáveis do momento em que vivemos no Brasil. Retrocessos acompanhados de outros, referentes aos direitos da classe trabalhadora. Ou seja, é o avanço para o achatamento cultural da população e da sua escravização no trabalho. Tudo combinando: menos escola, menos matérias que ensinam a pensar, menos ou quase nenhum direito no trabalho. Os poderes econômicos nacionais e internacionais querem todos escravos, ignorantes e submissos.

Mas a elite… a elite tem colégios como esses do Rio, como tantos em SP, alguns onde se aprende até mandarim (talvez já se pensando na aliança com o próximo Império, quando o Império americano ruir, afinal as elites sempre fazem alianças vantajosas para si com os que dominam o mundo e traem a população de seu pais – lembremos por exemplo de Herodes, aliado dos romanos dominadores, para recuarmos na história antiga). Mas esses, cujos filhos estudam até mandarim, pagam o preço de uma faculdade para crianças em pré-escola.

Elite muitíssimo instruída, plugada internacionalmente e o povão com escola sucateada, com ensino medíocre (de preferência numa Escola sem Partido, que, ao invés do que se pensa, não é a escola neutra – que aliás não existe – mas a escola em que não se pode pensar e discutir e entender as estruturas históricas e sociais que nos condicionam).

A classe média fica espremida entre os dois extremos, na maioria das vezes, sem se incomodar com o sucateamento da escola pública, porque ela dá a vida para pagar uma escola razoável para os filhos.

O método de ensino na Finlândia é promovido pelo Estado, para todos os cidadãos. Aí que está a graça da escola. É um projeto pedagógico pensado a partir da realidade local e uma oportunidade igualitária de desenvolvimento humano da população e não uma moda importada para servir de marqueting para uma escola para pouquíssimos privilegiados.

A diminuição das funções do Estado é algo que está se dando no mundo inteiro, pelo sistema hegemônico do neoliberalismo, que prega o Estado mínimo, o que menos gasta – ou não gasta nada – com benefícios sociais. É o modelo norte-americano, é o cada um por si. Se você consegue emprego (sem férias e nenhuma garantia), você paga a escola do seu filho, o convênio médico, a casa própria e tudo o mais. Se você não consegue… azar seu! Você não se esforçou o bastante. Se perde o emprego, azar, e se não consegue mais pagar o convênio, morra; se não consegue mais pagar a casa, vá para a rua (como tantos vivem em treilers nos EUA).

Se você já veio de uma situação de desvantagem – cresceu numa favela, ou é de uma etnia que foi historicamente marginalizada, como os afrodescendentes no Brasil e nos Estados Unidos, é deficiente físico ou ficou órfão de pai e mãe, você tem que esforçar mais. Se não conseguir, azar seu. Afinal, todo um continente – a África, que foi roubada, violentada, escravizada, durante séculos, está abaixo da linha da pobreza… azar dos africanos. É a lei do mais forte. É a chamada meritocracia – que na verdade é o mérito dos que já têm privilégios, mais dinheiro e mais poder.

Assim é o sistema capitalista no seu auge neoliberal. É a expulsão cada vez maior do Estado de todo benefício social, que vinha no último século tentado corrigir minimamente o desbalanceamento econômico nos países e proteger os mais fracos, os mais em desvantagem, os mais historicamente desmerecidos e conter os abusos das corporações.

O Estado está de joelhos diante do capital. As chamadas democracias são comandadas por políticos corruptos – não só no Brasil e não só de um partido!! – porque vendidos aos interesses das grandes corporações. O Estado sempre esteve comprometido com os ricos e os poderosos. Mas, durante um século, com o chamado Estado do bem-estar social, houve uma honesta tentativa de consertar um tanto as injustiças do sistema. Em alguns países essa tentativa foi bem sucedida e por isso ainda restam Estados, como a Finlândia ou a Alemanha que, embora tenham diminuído seus benefícios, ainda conservam muito do que foi construído, porque está solidamente assentado.  No Brasil, havíamos conquistado muito – o SUS, por exemplo, por mais críticas que tenhamos, é um sistema que salva muitas vidas e atende à população, os EUA não tem SUS. A escola pública, por pior que fosse, ainda é uma possível porta de acesso a uma faculdade. A CLT, uma proteção aos trabalhadores dos abusos dos empregadores.

Por pior que tenham sido as tão criticadas últimas gestões, programas como bolsa-família (que aliás era condicionada às crianças irem à escola, o que colocou milhões de crianças dentro do processo de escolarização), a cota por pobreza ou etnia, os financiamentos para o estudo superior, o incentivo à casa própria… foram ajustes sociais que possibilitaram maior equalização de oportunidades.

Agora, está tudo ruindo. Estamos caminhando para um período de privação de direitos básicos e de aprofundamento do fosso social no país.

 E o que fazer?

 Tenho minhas dúvidas, como anarquista que sou, que possamos recuperar esse Estado de bem-estar social. Forças econômicas e militares poderosíssimas estão por trás desse desmonte mundial de Estados de Direito, dessa escravidão generalizada – basta ver as crianças trabalhando pelas indústrias de chocolate na África, basta saber que quase todos os produtos que usamos vêm de uma China, onde o trabalhador não tem praticamente nenhum direito…

 Mas penso que há o que se fazer!

Temos que começar a nos organizarmos em sistemas de troca, de ajuda mútua, de cooperativas – e isso serve para escolas, sistemas de produção, bancos de crédito… Ou seja, temos que dispensar o Estado e resistir ao capital. Utópico? Nem tanto, porque esse sistema não se sustenta. Afinal, se grande parte da população mundial for sendo progressivamente escravizada e empobrecida, quem vai consumir? O sistema é autofágico. Então, temos que nos preparar para quando ele ruir. Estarmos solidariamente organizados para isso.

(1)       publicado originalmente no blog Universidade Livre Pampédia, em 29.03.2017

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