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"MORREU PORQUE TINHA QUE MORRER"

 

        

             Essa frase é a mais corriqueira de se ouvir nesses tempos pandêmicos, inclusive no meio espírita. Mas será que é assim mesmo?

          Os Reveladores celestes afirmam que a fatalidade só existe para o Espírito encarnado, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la ele traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição em que se encontra.

            A fatalidade para o Espiritismo não é algo pré-determinado, como se o Universo fosse grande relógio em funcionamento automático e infalível. Somente a matéria opera nesses níveis. As questões do Espírito, não. Com o advento da Doutrina Espírita, consequentemente a Física Quântica, o monismo materialista foi substituído pelo monismo idealista. A consciência (Espírito) é o agente causador das modificações na matéria.

            A esse termo, o físico quântico Amit Goswami, adverte:

 

“A busca espiritual é procurar a felicidade para além da discórdia; é uma investigação da consciência. Como a espiritualidade exige que a consciência desempenhe um papel fundamental, é difícil, senão impossível, encontrar um lugar para a espiritualidade numa ciência objetiva e materialista.”

 

         A realidade do Espírito rompe com o determinismo mecanicista newtoniano.

            É importante frisar que só há um determinismo irreversível e ele está reservado à glória espiritual. Portanto, a cada segundo o Espírito fazendo, modificando e renovando o seu destino, (probabilidades) isso, pois, através dos pensamentos e atos, direcionados pela vontade, que serão determinantes para as alterações – boas ou más – que virão suceder. A destinação do Espírito é a felicidade, alcançada pela vivência das leis divinas. Avançar ou estacionar depende do ser, da decisão de cada um.

            Contudo, na questão N° 853, de O Livro dos Espíritos, está dito que há uma fatalidade, no sentido verdadeiro da palavra, que é a do instante da morte. Fica claro que chegada essa hora nada poderemos fazer. É fato.

            Como saberemos que chegou essa hora? Eis a questão!

            Kardec, maieuticamente, questiona se partindo dessa compreensão todas as precauções que se tomam para se evitar a morte são inúteis. Os Benfeitores Espirituais assim respondem:

 

“– Não, porque as precauções que tomais vós são sugeridas com o fim de evitar uma morte que vos ameaça; são um dos meios para que ela não se verifique.”

 

            Compreensível, assim o Espiritismo ensina, que situações de perigo de morte que às vezes assalta o homem, são advertências da Providência com o propósito de desviá-lo do mal. Quando se supera riscos dessa natureza, reflete-se de se desviar do mal e buscar o caminho do bem.

            É de suma importância entender, ainda – questão n° 856 –, que o Espírito, por antecipação, sabe qual o gênero de morte que irá sofrer, pois, geralmente, está associada ao gênero de vida por ele escolhido.

            A interação entre livre-arbítrio e determinismo causal fica bem entendida na frase do Apóstolo dos Gentios: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.” As Leis Divinas – Livro III de “O Livro dos Espíritos” – concedem ao Espírito, enquanto encarnado, leque quase infinito de possibilidades de agir no mundo, partindo das próprias escolhas. Fica claro que tudo é permitido. Da mesma forma, ficar-se-á sujeito às repercussões das atitudes em desacordo com a lei.

            Jesus, com muita propriedade adverte que é necessário que haja escândalo, mas ai daquele que for motivo de escândalo.

            Essa expressão de Jesus é perfeitamente adequada para o entendimento das mortes no contexto da pandemia de COVID-19. Suponha-se, com certeza, que pessoa chegue à busca de assistência médico-hospitalar, inclusive com necessidade de ventilação mecânica e não haja disposição de nada para o socorro, e o paciente venha a óbito. Surge a afirmativa: “morreu porque tinha que morrer.” O artigo 6°, da Constituição Federal assegura o direito à saúde e a previdência social. Admitindo-se que o Estado e a sociedade ofereceram todos os recursos necessários para o atendimento ao paciente, ainda assim, vier a desencarnar, a afirmativa é verdadeira. Caso contrário, admitindo-se que houve negligência, os responsáveis responderão dentro dos conceitos da lei de causa e efeito. Afinal, o indivíduo responde de três formas perante a lei de causa e efeito: do indivíduo, em si mesmo; o de membro da família e, finalmente, o de cidadão.

            O Espírito Joanna de Ângelis ensina:

 

“O atentado à ordem resulta em desarmonia do equilíbrio que vige em tudo, em toda parte. Quem arbitrariamente desfere golpes contra a ordem sofre-lhe a natural consequência, e essa é a vergastada da dor, que desperta e corrige, educa e levanta para os tirocínios elevados, os empreendimentos substanciais.”

 

No Brasil, o número de óbitos pela COVID-19 já ultrapassou os cem mil, isso sem considerar as subnotificações. Vê-se a dizimação da população indígena, quilombola e outras minorias, conceitos que não cabem mais como eutanásia social (mistanásia) e sim genocídio. O genocídio é um delito contra a humanidade, definido pela ONU. Trata-se de extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade. Nenhum Espírito reencarna com a missão de promover esse tipo de violência. Não se pode arguir o Espiritismo para pontuar e legitimar ideologias ou opiniões pessoais ante crimes dessas naturezas.

Os fundamentos doutrinários espíritas são irretocáveis e não devem se submeter ao bel prazer dos seus adeptos.

 

Referências:

FRANCO, Divaldo. No limiar do Infinito. Salvador: LEAL, 1977.

GOSWAMI, Amit. Janela visionária. São Paulo: Cultrix, 2000.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

Comentários

  1. EM SUMA: Compete ao espírita acompanhar atentamente a forma como a sociedade e os donos do poder impõem sofrimento e desigualdade aos mais vulneráveis e que parem de aplaudir, como se néscios fossem, a explícita jogada que em ceifando vidas de idosos, pobres, e minorias os poderosos vislumbram redução de despesas para a Previdência Social. Os espíritas precisam ser sensíveis ao que está acontecendo. Seria assim se essa pandemia jogasse a sua morbi-mortalidade sobre as crianças brancas e de alta classe social? Roberto Caldas

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