Pular para o conteúdo principal

A PEDAGOGIA ESPÍRITA E A EVANGELIZAÇÃO





Por Dora Incontri (*)



A Pedagogia Espírita tem alguma proposta para a evangelização? Como aplicá-la na prática? O que é preciso fazer?


Se a Pedagogia espírita é a aplicação do espiritismo na educação, obviamente que deve ter uma proposta para a área da evangelização infantil. Estudemos aqui alguns pontos importantes a respeito do tema.
Em primeiro lugar, propomos mudar o nome de evangelização para educação espírita ou espiritismo para crianças. A CNBB (Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros) está atualmente com uma campanha de “evangelização da juventude”. Não por acaso, os espíritas usam o mesmo termo que os católicos. Já analisamos diversas vezes (essa era também a postura de Herculano Pires e até antropólogos não-espíritas hoje fazem essa avaliação) que o movimento espírita no Brasil traz uma herança católica muito forte, dado o nosso caldo cultural impregnado de tradições da Igreja e pela formação jesuítica da nossa educação.

Essa herança se manifesta com toda a força no conceito e na prática da evangelização, que tem um caráter de catecismo, de doutrinação. Ou seja, prevê-se uma determinado conteúdo que é preciso introjetar na criança, moldando-lhe a cabecinha.
Essa é a metodologia da educação tradicional – justamente a que a Pedagogia espírita combate: focada no conteúdo e não no educando, com métodos maçantes e passivos, onde há alguém, dono de um conhecimento, que vai transmitir conceitos prontos ao aluno, que fica passivo. Ou o que é pior, alguém que nem o conhecimento tem e vai transmitir conceitos de uma apostila. O que Paulo Freire chamava de educação bancária, em que o professor deposita dados na cabeça do aluno.
Basta ter entendido minimamente a proposta da Pedagogia espírita para observar que a evangelização que é feita na maioria dos centros espíritas, no Brasil afora, segue o modelo católico de catequese e o modelo tradicional de educação. 
O resultado prático desse modelo é que as crianças vão à evangelização obrigadas e depois de terem passado por evangelização, pré-mocidade, mocidade espírita, ao chegarem na universidade, muitas vezes, deixam de ser espíritas. Não criaram convicção, não aprenderam a pensar por si mesmas, a discutir, a argumentar. Foram doutrinadas, contra a vontade e o espiritismo tornou-se uma crença postiça, e quando defrontada por doutrinas materialistas ou nihilistas, desmorona… Além disso, a obrigatoriedade de ir a um centro espírita assistir a uma evangelização desinteressante faz do espiritismo um remédio amargo que a criança tem de engolir quando nova, mas quando puder, vai rejeitar em bloco tudo o que vem desta fonte.
Temos viajado pelo Brasil inteiro, conversado com pais, evangelizadores e, sobretudo, com crianças e adolescentes, e este é o quadro real da situação.
Outro aspecto negativo do termo evangelização é que ele ressalta apenas o aspecto religioso do espiritismo – aliás exatamente o que aconteceu com o movimento espírita brasileiro. Esquecemos inteiramente dos aspectos científico e filosófico e, sobretudo, pedagógico, do espiritismo, para reduzi-lo a mais uma religião.

Evangelização de crianças carentes

A questão se torna ainda mais grave quando os espíritas, em bairros de periferia, entre crianças carentes, fazem um trabalho de evangelização imposta. O que é isso? Em troca de pão ou presentes para as crianças, ou de cesta básica ou sopa para a família, os “assistidos” têm de presenciar palestras espíritas, tomar passes ou participar da evangelização. Isso é pura barganha e falta de respeito à religião alheia. Então, um evangélico, um católico, um ateu, em necessidade material, precisa se submeter a participar de algo em que não acredita (ou até contesta) para ser beneficiado? O pobre não tem direito de ter a sua religião?
É exatamente o que os jesuítas faziam em relação aos indígenas. Sem qualquer respeito ou consideração por suas crenças, impunham o catolicismo. É o que missionários de todas as denominações evangélicas fazem ainda. Os católicos hoje, pelo menos os mais progressistas, reavaliam esta atitude, fazendo uma crítica histórica da postura anterior e os espíritas adotam um procedimento semelhante ao passado católico, completamente contrário aos postulados de Kardec, que defendia sobretudo a liberdade de crença e de pensamento.
Qualquer trabalho social deve ser ecumênico e trabalhar valores éticos universais, que estejam em todas as religiões e doutrinas. Deve haver cuidadoso respeito às crenças alheias. O espiritismo pode ser apresentado, se houver interesse, mas sempre ao lado de outras doutrinas, na forma de estudo de religiões e filosofias, em debates abertos e participativos, seja com adultos ou crianças.

A educação focada no educando

Um dos aspectos principais da Pedagogia espírita (e não só desta Pedagogia, mas de seus precursores, Comenius, Rousseau, Pestalozzi e de suas pedagogias irmãs, como Montessori, Paulo Freire, construtivismo etc.) é a mudança de foco do conteúdo para o educando. O importante não é um conteúdo a ser passado, mas as potencialidades a serem desenvolvidas no educando. O conteúdo é um meio, não uma finalidade. A finalidade é sempre o ser humano, sua auto-construção, o despertar de sua consciência.
Para que o conteúdo seja um meio eficaz para despertar algo no indivíduo, é preciso que ele faça sentido para o educando, que lhe diga algo. Para isto, é preciso que responda a alguma questão sua, mexa com seus anseios, com as heranças do seu passado espiritual, parta de seus interesses e fale a sua linguagem. Ou seja, o conteúdo não pode ser previamente determinado para qualquer grupo, muito menos em currículos nacionais, em apostilas que devam ser seguidas como manuais.
Primeiro, devemos conhecer os educandos. Quem são eles? Que Espíritos que estão diante do educador? Que tendências trazem? Que interesse têm? Como despertar neles um elan de aprendizagem, uma busca por espiritualidade ou cultivar o que já apresentam neste sentido? O educador deve ser antes de tudo um observador atento dos alunos. Para isso, é preciso lucidez, sensibilidade, conhecimento do ser humano e, sobretudo, amor – que é a porta de abertura para o outro.
Então, poderemos fazer projetos de pesquisa, debates, estudos individuais e coletivos, encenações, produções artísticas, a partir de temas e questões propostas pelas crianças ou pelo educador, mas que os alunos aceitem e gostem e se interessem. O que é imposto não se engole. Portanto, cada educador, cada centro, cada local poderá fazer seu próprio plano de trabalho – com a ajuda e a participação das crianças.
Estaremos assim enxergando e respeitando o educando como um ser reencarnado, que já traz seus interesses, suas contribuições e não estaremos tratando a criança de forma paternalista e autoritária.
Livros, filmes, internet, poemas, peças de teatro, músicas, pinturas, tudo deve ser disponibilizado para educadores e educandos, como meios de pesquisa, produção, debate e aprendizado. E os educandos, por sua vez, também devem produzir, fazer, mostrar suas potencialidades através da ação.
Naturalmente, o argumento que se usa em toda a parte, como negação de uma metodologia mais livre, baseada no interesse da criança e na sua participação, é a falta de preparo dos evangelizadores. Ocorre que realmente um educador não se improvisa. Devemos preparar pessoas seguras e capacitadas para fazer isso. Caso contrário, estaremos trabalhando contra o próprio espiritismo, entregando as novas gerações a pessoas apenas de boa vontade, mas que não têm a mínima noção do que é educação, de como lidar com uma criança. Na cabeça dos educandos, o espiritismo ficará associado à incompetência dos evangelizadores (não dizemos educadores, porque o educador sabe o que faz). E assim como se criaram gerações inteiras revoltadas contra o Catolicismo, por causa da catequese e dos colégios católicos, formaremos gerações que repelem o espiritismo como algo dogmático.

Formação de grupos de estudos

Por esses motivos, temos incentivado no Brasil inteiro a formação de grupos de estudos da Pedagogia Espírita. Devem ser grupos livres, que podem reunir pessoas de diferentes instituições e até não espíritas, que podem ocorrer num centro espírita que ceda seu espaço ou podem ser feitos de forma itinerante (cada vez num centro) ou podem se dar na casa de alguém…
O importante é que esse grupo funcione dentro dos princípios da Pedagogia Espírita: sem hierarquias, com dinamismo, participação de todos, pesquisa, debates, leituras e a discussão de propostas práticas.
Esses grupos poderão produzir artigos, textos, material de aplicação prática, que sejam socializados com outros grupos no Brasil.

As crianças e a mediunidade

A fonte mais forte de convicção espírita é justamente a mediunidade. Porque sabemos (e não cremos) que somos imortais? Porque experimentamos o contato com o mundo espiritual, numa vivência individual e coletiva importante. Ora, cada vez mais os espíritas se vêem afastados da mediunidade, porque estão se criando verdadeiros tabus em relação à vivência mediúnica. Crianças, adolescentes e jovens jamais vêem reuniões mediúnicas. Para ser médium, a pessoa tem de fazer no mínimo 10 anos de curso. Ou seja, estamos tornando a mediunidade algo iniciático, bem ao contrário do que propunha Kardec, que a considerava algo natural, fazendo parte do cotidiano e podendo ser praticada por qualquer pessoa ou grupo, com o estudo atento, mas livre, de O Livro dos Médiuns.
O exílio da criança e do adolescente da mediunidade cria o mistério, o medo e, sobretudo, impede a convicção da imortalidade.
Segundo Kardec, a mediunidade deve ser estudada seriamente, praticada com finalidades úteis e éticas, mas é fenômeno natural. Crianças têm mediunidade espontânea e é claro – é uma questão de bom senso – que não vamos colocar crianças numa mesa mediúnica para receber obsessores, mas elas podem ver sim, se devidamente preparadas. E já os adolescentes, se maduros, vocacionados e estudiosos do espiritismo – como vemos muitos pelo Brasil Inteiro – poderão já trabalhar mediunicamente, como Ermance Dufaux, que iniciou aos 12 e aos 17 já era uma das colaboradoras principais de Kardec ou como as meninas Boudin, que receberam a maior parte de O Livro dos Espíritos, aos 14 e 16 anos.
A mediunidade surge, estoura, e então deve ser trabalhada, educada. Mas não se pode freá-la, sob pena de causar grande perturbação no médium.
A criança de família espírita deve ser aproximada suavemente, naturalmente, do fenômeno mediúnico, com todas as explicações e contextualização, para que ela cresça sabendo que o intercâmbio entre os dois mundos é algo corriqueiro e normal, sem terrores e mistérios.


BOX

 Veja os objetivos que a educação espírita para crianças e adolescentes deve ter no centro espírita:
• Despertar o espírito crítico e a capacidade de pensar por si mesmo (para isso é preciso conhecer o espiritismo e outras religiões e doutrinas, pesquisando e debatendo);
• Sensibilizar esteticamente para harmonizar a alma e tocar o coração (para isso, é preciso usar todas as artes – a música, as artes plásticas, o teatro, a poesia, o cinema etc.);
• Formar a convicção da imortalidade (para isso, é preciso conhecer, estudar e ter contato com o fenômeno mediúnico);
•  Despertar valores morais, formando o homem de bem (isso só se faz pelo contágio de bons exemplos – vivos ou de grandes personalidades, mas sobretudo pela prática, por isso a criança  e o adolescente devem fazer parte das atividades solidárias do centro).


Para saber mais:
Entre no site da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita
Lá você também encontrará uma bibliografia básica para o estudo da Pedagogia Espírita.

(*) educadora, jornalista e escritora brasileira; autora de mais de 20 obras publicadas, dentre elas   livros didáticos de filosofia e ensino inter-religioso.





Comentários

  1. Difícil expor de forma mais lúcida um assunto como este, de tão magna complexidade.
    O problema está muito bem apresentado. Mas como partirmos para a solução, em termos de movimento espírita? Como corrigirmos os rumos?

    Arrisco-me a uma sugestão, após uma exposição:
    --------------------------------------------------------------------------

    EXPOSIÇÃO: A autora deste artigo é também autora de excelentes livros didáticos para a disciplina EDUCAÇÃO RELIGIOSA, adotadas inclusive por escolas confessionais ... Não conheço outras obras didáticas de igual quilate: Bem ilustrados, propiciam uma visão ampla acerca das mais diversas formas de busca espiritual do homem, sem puxar brasa para a sardinha de ninguém - aliás, um apanágio da Doutrina Espírita... Mas que pelo simples fato de contemplar o ESPIRITISMO, já o inclui em contexto onde antes o preconceito não o admitia.

    Nós que financiamos FILMES ESPÍRITAS (excelentes, por sinal), por que não nos uniríamos, enquanto espíritas, federações, em torno de um projeto certamente mais barato?... para construção de um PLANO NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO ESPÍRITA, tendo a frente a nossa articulista (a meu ver a maior autoridade no assunto) e tantos outros espíritas notáveis pela contribuição à educação espírita???

    O plano incluiria propostas de CURRÍCULO que respeitassem as especificidades regionais, etárias e particularidades de grupos (comportamentais, multisseriado, etc).

    Iniciaria com diretrizes, a exemplo da obra "ORIENTAÇÃO AO CENTRO ESPÍRITA".
    Seria construído aos poucos.

    Eis uma grande contribuição, que a FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA e as ESTADUAIS dariam ao movimento espírita.

    FINANCIAMENTO: Um projeto tal, não se sabe se poderia ser feito sem ônus para os educadores -- eles é que dirão -- , que precisariam ocupar-se exclusivamente deste trabalho. Talvez precisasse de ajuda de um MECENATO ético, preferencialmente espírita - o que aliás Kardec validou, quando saiu em defesa de Daniel Dunglas Home, acusado de ser mantido por famílias ricas.

    Bem! Não seria possível que, vencendo as diferenças porventura existentes, a FEB, o CEI, etc. ou mesmo DORA fizessem essa articulação?

    Bastaria que as editoras espíritas fossem convidadas a priorizar as vendas do material produzido, a preço próximo ao de custo. E largamente difundido pela internet.

    Bem, foi apenas uma ideia. Passem adiante, se acharam razoável. Esqueçam, se for insensata.

    Referi-me a finanças por que em tudo há custos. Mas os educadores espíritas que conheço, incansáveis tarefeiros da Doutrina Espírita, vindos da ESCOLA de um Eurípedes, de uma Anália ou de um Herculano... E de um ALLAN KARDEC, claro, não estão esperando por dinheiro ou facilidades para agirem. Deve estar faltando apenas uma articulação, alguém ou alguma instituição que os possa distinguir e "explorar" todo o seu potencial.

    Somente com ideias expressas em livros esparsos (por sinal, um catálogo espírita é algo que precisamos efetivamente joeirar), dificilmente solucionaremos os problemas apresentados acima.

    Sabemos que a Espiritualidade Amiga está pronta a nos ajudar, que ela dá diretrizes e inspirações aos dirigentes e a todos os espíritas sinceros. Mas é preciso suar do lado de cá. Assim fizeram os melhores espíritas.

    "Para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve". Que este provérbio jamais seja empregado em se referindo a nós, espíritas, a nossos centros, a nossas organizações.

    Fraternalmente.

    UM LEITOR DO BLOG





    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

AS DEFORMIDADES COGNITIVAS PRETENSOS “HERCULANISTAS”

  Por Jorge Hessen O livre-pensamento, a liberdade de consciência e a fraternidade são princípios kardecianos que não combinam com patrulhamento doutrinário, condenações sistemáticas e apropriações ideológicas do Espiritismo. Há uma contradição curiosa entre alguns atuais admiradores de José Herculano Pires: proclamam fidelidade absoluta a Allan Kardec, mas adotam posturas que merecem ser confrontadas com os próprios fundamentos da Codificação.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

ENLATADOS NO TEMPO

  Por Marcelo Teixeira Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ASSOMBRAÇÃO

                 "Noiva de Furquim", Mariana (MG) - Ilustração                Contou-me um confrade que certa feita regressava ao lar, por volta de meia-noite, após uma festa.             Estava sozinho em seu automóvel. Numa curva, perdeu a direção do veículo, que se precipitou numa ribanceira. Desceu sacolejando e tombou dez metros abaixo.             A custo saiu do carro, rodas para cima. Repleto de escoriações, começou a subir, retornando à estrada. Já no alto olhou para o automóvel. Ficou estarrecido. Estava destruído. Impossível sair com vida dali.             Espírita estudioso, apavorou-se. Certamente morrera! Pensou em descer para confirmar o trágico acontecimento com a visão de seu corpo sem vida, entre as ferr...

RÉQUIEM

 Por Paulo Eduardo (*) O ofício dos mortos em música sublime. Réquiem significando repouso. Pausa na vida física a fim de enfrentar novos rumos. Retorno à pátria espiritual sendo relembrado neste segundo dia de novembro. Dia de Finados a alegria paradoxalmente triste de uma festa realmente com melodia em surdina. O palco desse momento de velada despedida ou de comunicação interna é o cemitério. Jazigo é sepultura e os espíritos são livres da vestimenta física quando partem em busca dos planos etéreos da vida plena. Ninguém fica residente em catacumba. Uma verdade inconteste. Convém destacar o crescimento da cremação de corpos e nem por isso leva-se ao esquecimento dos nossos cujos despojos tornaram-se pó. Nos réquiens pelo Dia de Finados vamos orquestrar a saudade no seu patamar de harmonia e certeza da perpetuação da vida. A Doutrina Espírita repercute na sua forma belíssima de reverenciar quem parte através do evento morte. Somos imortais na natureza divina...

ESPIRITISMO E COMUNISMO - (I PARTE)

Inserta no terceiro dos discursos proferidos em Lyon e Bordeaux (1862), está a crítica de Kardec aos sistemas de reforma social que visam, ao fim, qualquer tipo de comunismo ; [i] ao mesmo tempo, trata-se de uma defesa contra assertivas de adesão espírita a tais sistemas, no intuito de indispor a nova doutrina com a ditadura de Napoleão III, intrigas da Igreja católica, estreitamente ligada àquele regime. Concentra-se a crítica do mestre na inviabilidade desses sistemas por conta, sobretudo, do estado moral da humanidade, composta, segundo o espiritismo, por almas da terceira ordem da escala espírita, ou seja, nas quais a influência da matéria ainda é dominante, donde a origem do seu vício radical: o egoísmo, incompatível com a justiça, o amor e a caridade. [ii] Tais sistemas levariam, no dizer de Kardec, a um estado de comunidade fundado na completa abnegação da personalidade e, por efeito, requerendo o devotamento mais absoluto, o que só se sustentaria, na opinião do me...