Pular para o conteúdo principal

EVOCAR ESPÍRITOS?¹



           


Por Roberto Caldas (*)



            Curiosidade, mistério e diversão são alguns dos combustíveis da mente humana, para o bem e para o mal. Foi dessa forma que a sociedade européia, fascinada pela ação das mesas girantes, viu eclodir na metade do sec. XIX a maior de todas as revelações de espiritualidade de todos os tempos que foi o advento da Doutrina Espírita. Ciência que desvelou a nossa estreita associação com aqueles que deixaram a vida corporal e prosseguem vivos na pátria espiritual, o Espiritismo foi móvel, em seus primórdios, de experiências bizarras e brincadeiras.

            Ao largo do tempo, geração após geração, desde os tempos bíblicos quando receberam uma advertência proibitiva de Moisés (Deuteronômio XVIII: 10 a 14), aqui e ali aparecem formas e maneiras de tentar-se contato com o mundo dos mortos, geralmente sob o patrocínio da ignorância e da displicência ideológica. Certamente trate-se de um senso inato de busca da vida depois da vida.
            Tais práticas, da forma como se apresentam, movimentam o imaginário e fazem crescer entre as pessoas a discussão em torno da presença dos Espíritos na rotina dos encarnados, o que produz uma nova onda de importantes inquietações elevando as estatísticas daqueles que passam a adotar uma nova crença a respeito do tema. A consulta aos oráculos, mesas girantes, as cestas escreventes, a brincadeira do copo e por último o desafio ao espírito Charlie Charlie, que invadem os canais da internet, são formas alternativas de buscar-se intimidade com o invisível. Se as pessoas tivessem consciência do universo espírita, nada disso mais seria necessário nos tempos atuais. A questão 459 de O Livro dos Espíritos projeta inequívoca luminosidade sobre as interveniências entre o mundo visível e invisível: “Os Espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações? A esse respeito, sua influência é maior do que podeis imaginar. Muitas vezes são eles que vos dirigem”.
            Bastaria conhecer a Doutrina Espírita e todas as celeumas que grassam em torno do papel da espiritualidade em nossas vidas se tornaria uma tranquila constatação e completamente destituída de assombros. Enquanto esse conhecimento não se torna tão difundido, o quanto ainda haverá de ser, é importante que se alerte o candidato às brincadeiras que descortinam o mundo espiritual quanto a alguns riscos que tais proposituras representam. Importante que se evite evocações de qualquer natureza, quando as mesmas não tenham finalidade séria e objetivos profundos, pois tal nos expõe a determinados grupos de desencarnados que, afinados com a irresponsabilidade dos que os chamam, aproveitam para fazer a festa e produzir problemas de variada complexidade.
            O Espiritismo adverte nas suas entrelinhas que o acesso ao mundo espiritual é completamente aberto ao habitante do mundo dos encarnados, sem restrições de quaisquer espécies, seja pelas faculdades de natureza intelectivas ou aquelas de efeitos físicos, aliás, pode-se afirmar que estamos em contínuo contato e isso não se pode evitar. A escolha que se encontra em nossas mãos é com quem nos vinculamos, fator que depende completamente dos motivos interiores que adotamos e das práticas que vivenciamos. O mundo espiritual não tem portas nem trancas, qualquer pessoa pode acessá-lo livremente, mas fazê-lo sem responsabilidade pode gerar dores. Jesus nos deu uma senha para o contato com essa realidade ao se declarar o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele deve se constituir em nossa grande evocação sempre.

¹ editorial do programa Antena Espírita de 31.05.2015. O programa Antena Espírita vai ao ar, todos os domingos, na Rádio Cidade AM 860, das 21:00h as 22:00h. Sintonize também pela internet:  http://www.cidadeam860.com/.

(*) escritor, editorialista do programa Antena Espírita e voluntário do C.E. Grão de Mostarda.

Comentários

  1. Caro Roberto Caldas,
    Brilhantes esclarecimentos. Tenho tomado alguns comentários afirmando-se que é simples brincadeira, que os lápis se movimentam pelo sopro dos presentes. Não desconsidero essa possibilidade, em alguns casos, mas as consequências advindas com as práticas não se situam nessa possibilidade. Assim também ocorreu com as mesas girantes. Basta ler o cap. IV de "O Livro dos Médiuns", que o leitor verás as diversas abordagens de Kardec, refutando os sistemas que foram apresentados, para justificar tais fenômenos.
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Poucos são os que buscam as intrusões de Jesus. Que o tem como modelo. Então todo o resto vai virando moda. Mas para tudo têm um grau de responsabilidade.
    Eu sendo espírita , fui pega de surpresa, meu filho participando da brincadeira! Me serviu de tamanho aprendizado para me atentar referente a base da doutrina que está nele.

    Bom conteúdo!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

E QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL...

  Por Doris Gandres Essa frase “e quando tudo voltar ao normal” é a frase que mais tem sido pronunciada e escutada ultimamente, de todo tipo de pessoa, de todas as classes sociais, culturais, religiosas e outras mais... Poder-se-ia dizer que está se transformando em uma espécie de “mantra”, de monoidéia, ou seja, de uma ideia única, fixa, constante, sobrepondo-se a todas as outras ideias, absorvendo a mente das criaturas e, muitas vezes, toldando-lhes o raciocínio, a razão.

LÉON DENIS ENTRE A LIBERDADE MORAL E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

  Por Wilson Garcia    Por que reduzir o Espiritismo a rótulos políticos empobrece seu alcance humano Há leituras que esclarecem — e há leituras que, sem o perceber, estreitam o campo de visão. No debate recente sobre Socialismo e Espiritismo[i], de Léon Denis, esse risco tornou-se visível: ao tentar proteger o pensamento espírita de apropriações materialistas, corre-se o perigo inverso de reduzir sua densidade social, confinando-o a categorias políticas que jamais lhe fizeram justiça. A análise crítica de Marco Milani sobre a edição brasileira da obra, publicada pela Casa Editora O Clarim, prestou um serviço inegável ao movimento espírita. Ao demonstrar problemas de tradução e enquadramento editorial, Milani mostrou com clareza que Denis não pode ser confundido com o socialismo materialista, estatizante ou revolucionário que dominava o debate político de seu tempo. Essa advertência é necessária — e correta.

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

A FAMÍLIA PÓS-NUCLEAR

      Por Jerri Almeida Preâmbulo O estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.

HOMENAGEM AO CONFRADE E IRMÃO FRANCISCO CAJAZEIRAS

            Francisco Cajazeiras, ao centro, com os colaboradores do Instituto de Cultura Espírita.             Tive a alegria e felicidade de conhecer Francisco Cajazeiras, a quem passei a tratá-lo por Francisco, no início da década de 1990, quando residia em Sobral, norte do Estado do Ceará, apresentado-o pelos colegas Everaldo Mapurunga e Geovani de Castro Pacheco, do Banco do Brasil em Viçosa Ceará, empresa onde também trabalhei. À época, abracei o ideal espírita e me vinculei ao Grupo Espírita Bezerra de Menezes, em Sobral. A aproximação entre os familiares foi alegre reencontro de almas – Rejilane (esposa), Alana e Ariane (filhas), logo em seguida nasceu Ítalo.