Por Jorge Luiz
A Dialética da Exploração: A Propriedade como Obstáculo à Providência
A pele tisnada pela insolação diária que enfrenta, cujas marcas são percebidas nas rugas precoces que já marcam de forma indelével sua face, descansava, o que permitiu minha aproximação. Sr. Severino enfrenta uma tarefa diária puxando seu carrinho, cuja caçamba é adaptação de velha e enferrujada geladeira que percorre todos os dias algumas ruas de Fortaleza, coletando papelão que comercializa para um depósito.
Indagado sobre a sua rotina, respondeu-me que tem, necessariamente, de retornar ao depósito por volta das onze horas, pela necessidade de comprar os insumos para a alimentação sua e da família. Sr. Severino realçou que quando o dia é favorável a ele, o produto da coleta rende-lhe R$ 50,00, só que o aluguel do carrinho custa R$ 20,00.
A vida do Sr. Severino me fez lembrar a advertência de Jesus, em Matheus, 6:25-32: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?”. Jesus adverte da não acumulação dos bens materiais e que se busque entesourar dos tesouros no céu, onde não as consomem a ferrugem nem as traças, e onde os ladrões não os desenterram nem roubam.
A análise dialética da jornada do Sr. Severino revela que a ‘solicitude’ não nasce da falta de fé, mas da presença da exploração. Quando Proudhon afirma que ‘a propriedade é um roubo’, ele identifica o mecanismo que confisca os R$ 20,00 do coletor: o pedágio sobre o direito de trabalhar. Na economia do Reino, o esforço seria integralmente revertido à vida, pois os meios de produção seriam, como o ar para as aves e o sol para os lírios, acessíveis a todos. A velha e enferrujada geladeira' que o Sr. Severino puxa é o símbolo de uma civilização que prefere entesourar a ferramenta a libertar o trabalhador.
A jornada do Sr. Severino é um convite para se avançar nas ponderações descritas, a partir da contextualização da mensagem de Jesus e a efetivação da ideologia socioeconômica da partilha, dinamizada nas comunidades do Reino de Deus — onde, à época, prevalecia uma rede de suporte mútuo que eliminava a precariedade.
A Fraternidade em Atos: A Rede de Suporte Mútuo no Cristianismo Primitivo Lendo-se a II Epístola de Paulo aos Coríntios a partir do capítulo 8, compreende-se que, naquela realidade, o Sr. Severino não seria constrangido a esse nível de miséria que se revela em sua vida, pois havia uma rede de proteção no seu entorno. Paulo afirma em II Cor, 8:14 – que a abundância de uns supre a falta dos outros, para que também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade. Isso definia as primeiras comunidades cristãs, onde ficava claro que o reino de Deus seria o reino dos pobres, e que os ricos, enquanto permanecessem ricos, não teriam parte nele (Lc, 6:20-26). Jesus, ao pedir a partilha total e geral dos bens, prevenia daqueles que desejava segui-lo, da necessidade de primeiro sentar-se e avaliar quanto isso lhes custaria.
Rosa Luxemburgo identifica no cristianismo primitivo o embrião da resistência proletária, definindo-o como um “cinto de salvação” para os deserdados. Segundo sua análise, a radicalidade dos primeiros cristãos não residia na coletivização das oficinas ou terras (meios de produção), mas em um comunismo de consumo: a partilha compulsória de alimentos, roupas e moradias para garantir que as necessidades vitais de todos fossem supridas pela comunidade (Luxemburgo, 2011).
Em última análise, o que Rosa Luxemburgo e as cartas de Paulo propõem não é uma engenharia econômica complexa, mas uma mudança na prioridade. Enquanto o depósito de papelão prioriza o peso do fardo e o dono do carrinho prioriza a renda do aluguel, a Fraternidade em Coríntios prioriza a vida do Sr. José. Se a “abundância de uns supre a falta de outros, o lucro sobre a ferramenta de trabalho torna-se um contrassenso moral.”
A Alma sob a Partilha
A vida de Sr. Severino, até no nome é sugestivo, é uma “Vida Severina”, como o poema de João Cabral de Melo Neto, onde a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta, /de emboscada antes dos vinte/de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte Severina
ataca em qualquer idade, e até gente não nascida)” (2000).
Sr. Severino sobrevive em uma vida miserável, sem descanso e com um mísero ganho que só lhe garante o mínimo para não perecer de fome, juntamente com sua família. A sociedade priva Sr. Severino dos direitos básicos que a Constituição Federal proporciona. Como será possível a ele e a sua família viverem uma vida como os “lírios do campo”?
Oscar Wilde faz uma severa crítica à propriedade privada, rotula como algo imoral. Chame-o de socialismo ou comunismo, ou outro nome qualquer, transformar a propriedade privada em bem público, substituindo a competição pela cooperação, há de restituir à sociedade sua condição própria de organismo inteiramente sadio, e há de assegurar o bem material de cada um de seus membros. Devolverá, de fato, à vida, sua base e seus meios naturais (Wilde, 2022).
A situação do Sr. Severino é pior que a escravidão a que foram submetidos os negros traficados da África. Tiago Muniz Cavalcante, estudando as relações trabalhistas nas suas condições de humanidade, considera que a essa mesma humanidade não se desfez de seus grilhões: eles apenas foram remodelados. Novas organizações, novas práticas, novas consciências, novos significados. Velhas ausências; ausência principalmente de dignidade que modela a vida do Sr. Severino. Muniz é claro ao se referir ao trabalho escravo das sociedades contemporâneas: enquanto naquele a força de trabalho é colocada à venda no mercado para o capital, neste o indivíduo é em si uma mercadoria, colocando-se por inteiro à venda e perdendo, com isso, sua condição de ser humano.
Muniz divide a classe trabalhadora atualmente submetida ao atual sistema de exploração da força de trabalho em: os semilivres e os sub-humanos. Sr. Severino se situa na condição dos sub-humanos, que é delimitada, segundo Muniz, por uma linha abissal que marca a exclusão de todos os que trabalham sem direitos, sendo o trabalho escravo a forma extrema desta exclusão. Essa linha é definida por Boaventura dos Santos por “zonas de sacrifício”, que, a cada momento, podem se transformar em “zonas de não ser”: Às populações e aos corpos racializados não é reconhecida a mesma dignidade humana que é atribuída aos que os dominam. São populações e corpos que, pese embora todas as declarações universais dos direitos humanos, são existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, facilmente descartáveis. […] (Muniz, 2021). São os invisíveis da sociedade.
Espiritismo, Socialismo e Fraternidade: A Estrutura Social da Nova Civilização
Sr. Severino é parte do público-alvo do assistencialismo acrítico que permeia as iniciativas de benemerência dos espíritas brasileiros. Wilde, tipifica o da caridade que cria uma legião de pecados. O egoísmo não significa viver como se deseja, mas sim pedir aos outros que viva como se deseja (Wilde, 2022). Lembro-me de confrade espírita que se afirmava capitalista pelo fato de produzir as desigualdades para que oportunizasse a prática da caridade. A caridade paliativa é o “curativo” na ferida da zona do “não ser”. Ela mantém o status quo e a dependência. Esse é o militante espírita.
A Doutrina Espírita é a única filosofia que é constituída de uma cosmossociologia, de ordem científica. Assim, diz o professor e filósofo Herculano Pires, a sociologia espírita entranha-se na própria ordem cósmica. Um fato social terreno está ligado ao Universo, determinado por leis universais. É, portanto, um fato cósmico. A partir dessa compreensão, o Espiritismo tem toda a sua gênese na ciência da alma, em perfeita sincronicidade entre corpo e espírito, nas duas dimensões – física e extrafísica. O espírita militante parece que desconhece esses aspectos e não demonstra interesses reais pelo estudo e discussão dos problemas sociais.
Diferente da caridade paliativa, que se contenta em mitigar os sintomas de um sistema doente, a Cosmossociologia Espírita denuncia que a exploração sofrida pelo Sr. Severino é uma desarmonia cósmica. Se o Universo é regido por leis de equilíbrio e justiça, o lucro obtido sobre a miséria alheia não é um ‘sucesso financeiro’, mas uma violação da própria ordem natural. Manter o Sr. Severino na zona de ‘não ser’ para que o militante espírita possa exercitar sua benemerência é um equívoco trágico: é tentar curar a alma enquanto se sustenta a engrenagem que esmaga o corpo.
Enquanto a ‘zona de não ser’ persistir, a solicitude de Severino será a nossa própria condenação moral. A Nova Civilização não é uma utopia distante, mas a urgência de destruir a linha abissal para que o Sr. Severino deixe de ser mercadoria e volte a ser filho de Deus. Somente na estrutura da Partilha — onde o carrinho é de todos e o pão é comum — é que a Vida Severina poderá, finalmente, dar lugar ao Espírito Soberano, que floresce livre como o lírio do campo.
Referências:
CAVALCANTE, Tiago M. Sub-humanos: o capitalismo e a metamorfose da escravidão. São Paulo: Boitempo, 2021.
ENGELS, Friedrich & LUXEMBURGO, Rosa. Cristianismo primitivo. Minas Gerais: Estudos Vermelhos, 2011.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: EME, 1996.
MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: PENSE, 2009.
MELO NETO, João Cabral. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
PIRES, J. Herculano. Introdução à filosofia espírita. São Paulo: FEESP, 1993.
PROUDHON, Pierre-Joseph. A propriedade é um roubo. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998.
WILDE, Oscar. A alma do homem sob o socialismo. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2022.

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO texto estabelece um diálogo sensível e crítico entre a realidade crua da exclusão social e a ética da partilha presente no cristianismo primitivo e na filosofia espírita. Ao utilizar a figura do Sr. Severino, um catador de papelão que precisa pagar pelo aluguel de sua ferramenta de trabalho, o autor ilustra como a propriedade privada atua como um pedágio sobre a sobrevivência, transformando o que deveria ser providência divina em exploração sistemática. A análise sugere que a angústia do trabalhador não é uma falta de fé nas palavras de Jesus sobre os lírios do campo, mas o resultado direto de uma estrutura econômica que prioriza o lucro em detrimento da vida.
Nessa perspectiva, o autor resgata o conceito de fraternidade das primeiras comunidades cristãs e as reflexões de Rosa Luxemburgo para defender que o verdadeiro cristianismo exigia um suporte mútuo capaz de eliminar a miséria, e não apenas de mitigá-la. A narrativa avança para uma crítica contundente ao que chama de caridade paliativa, especialmente dentro do movimento espírita, denunciando a visão distorcida de que a desigualdade deve existir apenas para permitir o exercício da benemerência. Ao final, o comentário propõe que a justiça social deve ser compreendida como uma harmonia cósmica, onde a superação da "zona do não ser" e a adoção de uma economia da partilha são os únicos caminhos para devolver ao indivíduo sua dignidade e permitir que a vida floresça livre de fardos impostos pela exploração.