Por Jorge Luiz
De onde brota esse desejo insaciável de oprimir e explorar o outro, transformando a vida alheia em mero recurso para o proveito próprio?
A Inquietação Fundamental e a Soberba
O filme Guerra do Fogo, embora ficcional, é emblemático para determinar a disputa de duas tribos pelo domínio do fogo, que só uma sabia produzi-lo. O fogo não representava só o calor e a arma para enfrentar os predadores, mas, sim, um “poder tecnológico”. Quem o possuía dominava o ambiente e outras tribos. A tribo que rouba o fogo não quer apenas sobreviver; ela descobre que o medo da outra tribo a torna “soberana”.(*)
O cientista britânico Robert Winston considera que o instinto de dominação é uma herança instintiva da nossa luta pela sobrevivência, proporcionada pela testosterona. Sabemos, diz ele, que para enfrentar os predadores violentos, os hominídeos tinham de ser fortes e poderosos. É ela a responsável pela formação da massa muscular e, portanto, da forma física. Os níveis de testosterona produzidos pelos homens são bem maiores que os das mulheres.
A Humanidade carregou esse "instinto de sobrevivência" para eras de abundância, transformando-o em ganância. O que era necessidade biológica na Pré-História tornou-se patologia moral no capitalismo. Se em Guerra do Fogo a opressão era uma estratégia desesperada de sobrevivência biológica, no mundo moderno ela é uma escolha ética equivocada. Como Robert Winston demonstra, herdamos o instinto, mas a Utopia do Espírito, aqui nesse sítio, já posta, nos convida a superar a arqueologia do domínio em favor da arquitetura da fraternidade.
Os Espíritos ensinam que toda sujeição absoluta de um homem a outro é contrária à lei de Deus (Kardec, nº 829, 2000). O Espírito Lázaro nos adverte que o Espírito, ao avançar dos instintos para as sensações, pode se corromper. É na interação com o meio que essa corrupção se materializa. O Espírito, ao encontrar no mundo físico as ferramentas de poder e as sensações de prazer que o domínio proporciona, opta por retroalimentar o instinto em vez de transcendê-lo. A opressão, portanto, não é uma fatalidade biológica, mas uma resposta moralmente equivocada aos desafios da convivência.
O que reforça esse paradigma é que na era do Estado Selvagem — quando os homens se agrupavam em tribos e gens, a economia doméstica era comunista e a propriedade era comum, não cabiam a dominação e a servidão (Cavalcanti, 2021). O meio social torna-se o palco onde o homem decide se será o “primata” que retém o fogo ou o “espírito” que ilumina o caminho alheio. O que Winston identifica como uma força necessária para a sobrevivência do hominídeo torna-se, na perspectiva espírita, a raiz da soberba. Quando o homem moderno utiliza sua “força” (seja ela física, tecnológica ou financeira) para subjugar o próximo, ele está operando em um curto-circuito evolutivo: usa o motor do passado para destruir o destino do futuro. A escravidão e a exploração são, portanto, a prova de que o homem ainda não aprendeu a domesticar sua própria biologia em favor da sua espiritualidade.
O Medo Atávico e o “Homem Velho”: A Fuga do Tripalium
Se no Estado Selvagem de Cavalcanti a cooperação era a norma, na modernidade a liberdade é um simulacro. Como aponta o texto, o trabalho continua sendo um tripalium, mas agora imposto pela “dependência social”. O trabalhador de Marx, que só se sente humano fora do trabalho, é o reflexo final do atavismo: criamos uma sociedade onde a atividade principal da vida (o trabalho) é justamente onde o Espírito mais se perde de si mesmo e do outro. Assim dizia o saudoso Pepe Mujica, com quem concordo: o homem não foi criado para o trabalho.
Duas colunas irão surgir nesse cenário: a propriedade privada e a família monogâmica. A monogamia não nasce, de modo algum, como fruto do amor sexual individual, mas sim como apelo à conveniência, diz Engels. Foi a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas econômicas e, concretamente, no triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva, originada espontaneamente (2014). Na questão nº 701, os Espíritos assinalam que a monogamia é mais natural, que a poligamia, e marca um progresso social (Kardec, 2000).
A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período — que dura até nossos dias — no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam à custa da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade. Engels adverte que os gregos proclamavam abertamente que os únicos objetivos da monogamia eram a preponderância do homem na família e a procriação de filhos legítimos para herdar os bens deles (2014).
Diz, ainda, Engels: “a primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos”; trabalho sem remuneração, que não deixa de ser exploração. A partir dessas decisões, o homem vai construindo valores que, herdados, irão decisivamente potencializando a ganância e, consequentemente, a dominação. Nesta arquitetura de antagonismos, a ganância deixa de ser um pecado individual para se tornar a espinha dorsal da civilização. O resultado é a cegueira espiritual: para que a engrenagem da propriedade funcione, é preciso que o homem deixe de ver no seu semelhante um “Tu” e passe a enxergá-lo como uma extensão do seu patrimônio.
A Negação da Alteridade e o Rosto
Com a propriedade privada, surgem os escritos de Karl Marx, que considera a alienação como conceito central que descreve o processo no qual o trabalhador, no sistema capitalista, torna-se estranho ao produto do seu trabalho, ao ato de produzir, a si mesmo e aos outros homens. O trabalhador não se reconhece no produto do seu trabalho, pois este passa a pertencer ao sistema capitalista, que o vende no mercado. Com a alienação, surge o fetiche da mercadoria, que descreve a tendência no capitalismo de enxergar produtos apenas pelo seu valor de troca e aparências, ocultando o trabalho humano e as relações sociais de produção por trás deles.
Isso revela um estado de estranhamento do trabalhador em relação àquilo que ele produz, que se transforma em mercadoria, da qual, na maioria das vezes, ele desconhece a utilidade e não terá nem condições de utilizar. Buber adverte que, neste mundo, cada indivíduo (Tu) é condenado pela sua própria essência a tornar-se também coisa (mercadoria) ou, então, a sempre retornar à “coisidade”. A ontologia buberiana estabelece as palavras-princípios que o homem pode proferir. Uma é o par Eu-Tu. A outra é o par Eu-Isso. A primeira só pode ser proferida pelo ser em sua totalidade. A segunda jamais poderá ser proferida pelo ser em sua totalidade (1974). Olhar o outro pelo vetor do “Isso” revela a coisificação do ser; a partir dessa compreensão, consolida-se a opressão dos indivíduos, sempre os menos favorecidos na dimensão socioeconômica, ocorrendo a desumanização dos indivíduos. O Espírito Emmanuel ensina que do ímpio só se pode esperar a ambição e a ganância que se realiza na acumulação irrefletida (2014).
Um mundo de relação pautada pela reprodução da forma da mercadoria, e agora em uma linguagem de algoritmos, em uma profundidade virtual, faz com que o rosto do outro seja imagem “filtrada” que não dimensiona a Humanidade. A precarização do trabalho pelas plataformas digitais, onde a inexistência de direitos básicos dos indivíduos não é considerada, é dinamizada pelo pensamento abissal. No conceito de Boaventura de Sousa Santos, este consiste no universo do “não-ser” em um sistema de distinções visíveis e invisíveis. O que fica “do lado de cá” da linha é a Existência (o conhecimento científico, o homem civilizado, o direito). O que fica “do lado de lá” da linha é o Não-Ser. O sistema de opressão não apenas explora o outro; ele o torna inexistente. Boaventura diz que o que está do outro lado da linha abissal não é sequer um adversário; é algo que “não existe” de forma relevante ou inteligível (2025).
A socialidade começa no encontro entre dois (Eu e Tu), mas Emmanuel Lévinas sabe que existe o Terceiro (a sociedade, a Humanidade). A socialidade autêntica é aquela que preserva a alteridade: o Outro permanece sempre “Outro”, e não um objeto de uso. A ética de Lévinas é a passagem do “Eu” egoísta, que busca preservar sua energia (fuga do tripalium), para o “Eu” ético, que descobre no rosto do “Outro” o sentido da sua própria existência (1997). A opção “Preferencial” pelos pobres nada mais é do que o reconhecimento de que o rosto do oprimido é a interrupção definitiva da nossa ganância. Ser livre, para a Práxis da Libertação, não é fugir do esforço, mas assumir a responsabilidade infinita de quem não aceita que o irmão continue sendo produzido como um “não-ser” sob o tripalium do capital.
O Grito do Oprimido: Da Teologia da Dominação à Práxis da Libertação
O grande paradoxo na pedagogia paulofreiriana é a ânsia do oprimido em se tornar opressor. Talvez aí resida a compreensão do que afirma Gianni Fresu: que o sucesso absoluto da hegemonia da classe dominante é a constatação de que os oprimidos votam nos opressores.
A dualidade opressor e oprimido, para Paulo Freire, é o grande óbice para a libertação deste; é aquilo que ele identifica como a “hospedagem” do opressor, como a sombra que os oprimidos introjetam. Eles são eles mesmos e, ao mesmo tempo, são o outro. No estágio inicial da luta, o oprimido não busca a libertação da estrutura, mas a inversão do papel: sua visão de humanidade está tão mergulhada na patologia do senhorio que “o seu ideal é, realmente, ser homem, mas para eles, ser homem, na contradição em que se acham, é ser opressor” (1970). Esse “sonho” de ser opressor é o triunfo final do sistema. Ele prova que a coerção material de Marx e a coisificação de Buber não atingiram apenas o corpo e o bolso, mas sequestraram a imaginação ética. O oprimido deseja a “fuga do tripalium” do mesmo modo que o senhor, perpetuando o ciclo da ganância.
O Carnaval da escola de samba Acadêmicos de Niterói provou que o oprimido tomou a iniciativa do discurso, mas a reação brutal da mídia e do Judiciário revela que o Poder ainda teme a verdade. Quando o “aparelho ideológico” da família conservadora tenta recolocar a mordaça, nós respondemos com o Diálogo dos Gigantes. Para responder a isso, busco inspiração em Paulo César Pinheiro, nos versos da sua música “Mordaça”:
“É provável que o tempo faça a ilusão recuar / Pois tudo é instável e irregular / E de repente o furor volta / O interior todo se revolta / E faz nossa força se agigantar.”
- “O tempo faz a ilusão recuar”: Aqui o diálogo é com Eduardo Galeano. A “ilusão” é a narrativa oficial dos vencedores, o mito do progresso que ignora as veias abertas. O tempo (e a consciência histórica) revela a exploração por trás da máscara burguesa.
- “Tudo é instável e irregular”: É o terreno de Otto Maduro. A ordem social que a burguesia defende como “natural” e “estável” é, na verdade, um equilíbrio precário baseado na opressão. A instabilidade é o prenúncio da mudança.
- “O interior todo se revolta”: Esse é o “grito” de Gustavo Gutiérrez: “onde dormirão os pobres?”. Não é uma revolta vazia; é a indignação ética e espiritual. É a “opção preferencial pelos pobres”, deixando de ser uma teoria para virar ação visceral.
- “Faz nossa força se agigantar”: É o desfile na Avenida. O oprimido, que individualmente é silenciado pela mordaça e pela introjeção do opressor, ganha estatura de gigante no coletivo da escola de samba. É o momento em que a pedagogia da libertação deixa de ser lida para ser vivida. Na cadência da bateria, o povo não apenas ocupa o espaço, ele retoma o poder do discurso que a mídia e o Judiciário tentaram confiscar. O agigantamento é a prova final de que o “sonho do opressor” foi substituído pela realidade da emancipação.
O Agigantamento: Entre o Reino de Deus e a Ontologia do Trabalho
“Faz nossa força se agigantar” é a manifestação da Pedagogia do Reino no asfalto. Sob a ótica de Mateus 23:12 e Lucas 14:11, o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói é o momento em que os humilhados são, enfim, exaltados. No Reino de Jesus, o poderio econômico não possui salvo-conduto; é um espaço de absoluta horizontalidade onde a dicotomia opressor/oprimido se dissolve. Esta visão é corroborada pelo Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XVII, item 9), que sentencia a inexistência de “superiores e inferiores” natos, tratando a autoridade apenas como um dever de serviço que a burguesia deturpou em privilégio.
Para sustentar essa exaltação, o trabalho deixa de ser o tripalium (tortura) para se tornar a Lei de Necessidade (O Livro dos Espíritos, item 674), a força que impulsiona o progresso. É aqui que dialogamos com György Lukács: o trabalho é a categoria fundante do ser social. Na avenida, o operário do samba realiza o seu “pôr teleológico” — ele projeta a liberdade e a executa através da arte. O trabalho no barracão e no desfile é a práxis que desaliena e devolve ao oprimido a sua essência humana. Ao agigantar-se, o povo prova que o trabalho não é mercadoria, mas o ato criativo que constrói o Reino de Deus na Terra, onde Mamon não tem poder e o oprimido não mais hospeda o seu senhor.
REFERÊNCIAS:
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução de Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro, 1974.
CAVALCANTI, Tiago M. Sub-humanos: o capitalismo e a metamorfose da escravidão. São Paulo: Boitempo, 2021.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Ruth M. Klaus. Rio de Janeiro: BestBolso, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 1971.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Onde dormirão os pobres? São Paulo: Paulus, 1996.
KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.
___________. O evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo: LAKE, 2007.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Petrópolis: Vozes, 1997.
MADURO, Otto. Luta de classes e processos de libertação na América Latina. São Paulo: SEDEP, 1984.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Os saberes nascidos nas lutas: construindo as Epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
WINSTON, Robert. Instinto humano. São Paulo: Globo, 2002.
XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2014.
FONTE DIGITAL
FRESU, Gianni. 135 anos de Gramsci: “Vivemos o sucesso absoluto da hegemonia dominante, em que os explorados votam nos exploradores”. Brasil de Fato, 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/22/135-anos-de-gramsci-vivemos-o-sucesso-absoluto-da-hegemonia-dominante-em-que-os-explorados-votam-nos-exploradores/. Acesso em: 21 fev. 2026.
NOTA:
Apesar dos benefícios do fogo, há 150 mil anos os humanos ainda eram criaturas marginais. Agora eles podiam espantar os leões , se aquecer durante noites frias e queimar uma ou outra floresta. (NOVARI, Yuval H. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade).

A Metamorfose do Instinto em Patologia
ResponderExcluirO artigo estabelece uma distinção crucial entre o instinto de sobrevivência (necessário ao hominídeo de Guerra do Fogo) e a ganância moral do homem moderno. O autor argumenta que o que antes era uma ferramenta biológica para não morrer, tornou-se, no capitalismo, uma escolha ética de dominação. É o que o texto chama de "curto-circuito evolutivo": usar a potência do passado para destruir o destino do futuro.
2. A Coisificação do "Tu" (Buber e Marx)
Um dos pilares do texto é a análise da alienação. Ao transformar o trabalho em tripalium (tortura) e o semelhante em "Isso" (objeto/mercadoria), o opressor nega a alteridade.
O "Não-Ser": Citando Boaventura de Sousa Santos, o artigo alerta para a "linha abissal", onde o oprimido não é apenas explorado, mas tornado invisível — um "não-ser" que não possui direitos nem face.
3. A Sombra do Opressor (Paulo Freire)
O comentário atinge seu ponto mais dramático ao citar a "hospedagem" do opressor no oprimido. O desejo do explorado de tornar-se explorador é o triunfo final do sistema. A libertação autêntica, portanto, não seria uma inversão de papéis, mas a destruição da própria estrutura de opressão.
4. O Samba como Práxis da Libertação
O fechamento com o Carnaval e a música "Mordaça" é poético e político. O desfile da escola de samba é apresentado como a transcendência do trabalho: ele deixa de ser o peso da sobrevivência para se tornar o "pôr teleológico" (Lukács), onde o trabalhador se reconhece na obra e recupera sua humanidade através da arte e do coletivo.
Síntese
O texto nos diz que o desejo de oprimir brota de uma falha em domesticar a nossa biologia. Enquanto não passarmos da "arqueologia do domínio" para a "arquitetura da fraternidade" (como sugere a visão espírita e ética do autor), continuaremos presos a um ciclo de soberba onde o progresso material é, paradoxalmente, um retrocesso espiritual.