Pular para o conteúdo principal

LÉON DENIS ENTRE A LIBERDADE MORAL E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

 


Por Wilson Garcia

   Por que reduzir o Espiritismo a rótulos políticos empobrece seu alcance humano

Há leituras que esclarecem — e há leituras que, sem o perceber, estreitam o campo de visão. No debate recente sobre Socialismo e Espiritismo[i], de Léon Denis, esse risco tornou-se visível: ao tentar proteger o pensamento espírita de apropriações materialistas, corre-se o perigo inverso de reduzir sua densidade social, confinando-o a categorias políticas que jamais lhe fizeram justiça.

A análise crítica de Marco Milani sobre a edição brasileira da obra, publicada pela Casa Editora O Clarim, prestou um serviço inegável ao movimento espírita. Ao demonstrar problemas de tradução e enquadramento editorial, Milani mostrou com clareza que Denis não pode ser confundido com o socialismo materialista, estatizante ou revolucionário que dominava o debate político de seu tempo. Essa advertência é necessária — e correta.

Mas a questão que se impõe vai além: ao afastar Denis do socialismo materialista, estamos compreendendo plenamente o alcance social de sua proposta espiritualista? Ou, inadvertidamente, estamos deslocando o pêndulo para outro reducionismo — agora de feição liberal?

 

    O equívoco dos rótulos fáceis

É tentador enquadrar Léon Denis em categorias políticas familiares. Quando ele critica o estatismo, a coerção e o igualitarismo compulsório, parece aproximar-se de pensadores liberais do século XIX. Quando enfatiza a liberdade de consciência e a regeneração moral do indivíduo, reforça ainda mais essa impressão. Nada disso é falso.

O problema surge quando essas aproximações passam a funcionar como chaves explicativas totais. Denis não escreveu para caber em escolas políticas. Escreveu para pensar a questão social à luz do Espiritismo — e isso desloca o debate para outro plano.

Reduzir Denis a um “liberal moral” é tão empobrecedor quanto reduzi-lo a um socialista materialista. Em ambos os casos, perde-se aquilo que constitui o núcleo de sua reflexão: a articulação indissociável entre progresso moral individual e responsabilidade coletiva.

 

    Regeneração interior não é indiferença social

Uma leitura apressada pode supor que, ao insistir na transformação moral do indivíduo, Denis estaria relativizando as injustiças sociais ou deslocando a solução dos problemas coletivos para o foro íntimo. O próprio texto de Socialismo e Espiritismo desmente essa interpretação.

Denis fala de solidariedade como lei moral, não como gesto voluntário ocasional. Fala do sofrimento do trabalhador, da degradação do trabalho, da injustiça estrutural que corrói o tecido social. Reconhece que não basta garantir pão e abrigo: o povo tem necessidades morais, intelectuais e espirituais. Reconhece, ainda, que as instituições refletem o estado de consciência de uma sociedade e exercem função pedagógica sobre os indivíduos.

Nada disso se coaduna com uma ética de indiferença social ou com a ideia de que a sociedade se resolve apenas pela soma de consciências individuais isoladas. A regeneração interior, em Denis, não é fuga da responsabilidade social, mas sua condição de possibilidade.

 

    O Espiritismo não cabe confortavelmente em nenhuma gaveta política

Talvez o desconforto interpretativo venha justamente daí. O Espiritismo, enquanto filosofia do progresso, não se acomoda bem em categorias políticas fixas. Ele incomoda liberais quando insiste na solidariedade como lei moral; incomoda socialistas quando rejeita a coerção e o determinismo histórico; incomoda todos quando afirma que nenhuma reforma estrutural será duradoura sem elevação da consciência.

Denis não propõe um programa político, um modelo econômico ou um desenho institucional fechado. Propõe algo mais exigente: uma reorientação ética da vida social. Política e economia, em sua perspectiva, são meios — nunca fins. Subordinam-se à justiça, à fraternidade e ao progresso espiritual.

É por isso que sua proposta escapa tanto ao liberalismo clássico quanto ao socialismo materialista. Não porque negue elementos de um ou de outro, mas porque os reinscreve em um horizonte mais amplo.

 

     Para além da falsa dicotomia

O debate contemporâneo tende a operar por dicotomias: indivíduo versus sociedade, liberdade versus justiça, moral privada versus ação coletiva. Léon Denis dissolve essas oposições. Para ele, liberdade sem solidariedade degenera em egoísmo; solidariedade sem liberdade degenera em opressão. A verdadeira síntese não se dá no plano ideológico, mas no plano moral.

Talvez o erro recorrente seja querer transformar Denis em algo que ele nunca pretendeu ser: um teórico político nos moldes modernos. Ele foi, antes, um pensador espiritual da questão social. E isso exige do leitor uma disposição diferente — menos classificatória, mais compreensiva.

 

    Fechamento: o risco de empobrecer o Espiritismo

O esforço de proteger o Espiritismo de leituras materialistas é legítimo. Mas há um risco silencioso quando, nesse movimento, se empobrece sua dimensão social ou se dilui sua crítica às injustiças concretas da vida humana.

Léon Denis não escreveu para tranquilizar consciências nem para justificar a ordem existente. Escreveu para lembrar que nenhuma sociedade se transforma sem homens melhores — e que homens melhores não se formam em sociedades estruturalmente injustas.

Reduzir essa tensão viva a rótulos políticos é perder o essencial. O Espiritismo não é liberal nem socialista no sentido estrito. Ele é, antes de tudo, uma exigência ética radical, dirigida tanto ao indivíduo quanto à coletividade.

E talvez seja justamente por isso que continua tão difícil de enquadrar — e tão necessário de compreender.

 

 

 

[i] MILANI, Marco. Análise crítica da edição brasileira da obra Socialismo e Espiritismo, publicada pela Casa Editora O Clarim. Jornal de Estudos Espíritas, v. 14, art. 010201, 2026.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI).
    O texto oferece uma crítica necessária à tendência de "etiquetar" o pensamento espírita, especificamente a obra de Léon Denis, em espectros políticos limitantes (Liberalismo vs. Socialismo).
    Pontos de Destaque:

    Rejeição ao Reducionismo: O autor acerta ao pontuar que retirar Denis do "socialismo materialista" não deve significar empurrá-lo para um "liberalismo indiferente". O pensamento de Denis é apresentado como uma terceira via ética, onde a reforma íntima não é fuga, mas o alicerce da reforma social.

    A Solidariedade como Lei: O artigo resgata a visão de que a justiça social, para o Espiritismo, não é uma concessão política, mas uma lei moral. Isso desinstala tanto quem deseja o controle estatal absoluto quanto quem defende o individualismo absoluto.

    O Papel da Consciência: A conclusão é poderosa: estruturas injustas dificultam a formação de homens melhores, e homens sem ética não sustentam boas estruturas. É um ciclo de interdependência que transcende cartilhas partidárias.

    Veredito: O artigo presta um serviço à lucidez doutrinária. Ele lembra que o Espiritismo não cabe em "gavetas" políticas porque seu objetivo não é gerir o Estado, mas transformar a humanidade a partir de uma lógica de fraternidade que a política acadêmica ainda não consegue rotular plenamente.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

ALLAN KARDEC, O DRUIDA REENCARNADO

Das reencarnações atribuídas ao Espírito Hipollyte Léon Denizard Rivail, a mais reconhecida é a de ter sido um sacerdote druida chamado Allan Kardec. A prova irrefutável dessa realidade é a adoção desse nome, como pseudônimo, utilizado por Rivail para autenticar as obras espíritas, objeto de suas pesquisas. Os registros acerca dessa encarnação estão na magnífica obra “O Livro dos Espíritos e sua Tradição História e Lendária” do Dr. Canuto de Abreu, obra que não deve faltar na estante do espírita que deseja bem conhecer o Espiritismo.

E QUANDO TUDO VOLTAR AO NORMAL...

  Por Doris Gandres Essa frase “e quando tudo voltar ao normal” é a frase que mais tem sido pronunciada e escutada ultimamente, de todo tipo de pessoa, de todas as classes sociais, culturais, religiosas e outras mais... Poder-se-ia dizer que está se transformando em uma espécie de “mantra”, de monoidéia, ou seja, de uma ideia única, fixa, constante, sobrepondo-se a todas as outras ideias, absorvendo a mente das criaturas e, muitas vezes, toldando-lhes o raciocínio, a razão.

VALE A CARNE, VALE O ESPÍRITO! – EM RAZÃO DE MAIS UM CARNAVAL…,

  Por Marcelo Henrique A carne é fraca, diz o adágio popular, mas o Espírito DEVE ser forte, no sentido de entender, como seres espiritualizados em aprendizado (com a alcunha, momentânea, de sermos espíritas, isto é, com a ventura de termos sido “apresentados” à Filosofia Espírita que redireciona e reinterpreta a nossa ótica sobre a vida e o Universo), temos todas as condições de, sem precisar de prédicas carolas da religião “da hora”, escaparmos das “tentações” do mundo.   ***   Já escrevi e já palestrei sobre carnaval inúmeras vezes. Considero que, na medida que o tempo passa, também vamos amadurecendo a forma de ver e entender o que se passa conosco na existência terrena. Minha educação e formação espírita foi sob bases rígidas, no início da década de 80, como um novato (na idade e na ambiência espírita) pertencente a uma instituição espírita tradicional, ortodoxa, vinculada a uma federativa estadual. Para crianças, adolescentes e jovens, vigorava a “Campanha...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

A FAMÍLIA PÓS-NUCLEAR

      Por Jerri Almeida Preâmbulo O estudo das relações familiares na contemporaneidade implica pensarmos sobre suas novas configurações e mediações. Sabemos que é cada vez mais comum encontrarmos exemplos de filhos que vivem somente com a mãe, com o pai ou com outro parente. O contexto das relações, na sociedade complexa que vivemos, define novos vínculos e novas tendências na composição da família. Conforme apontou Bauman, em seu livro intitulado Amor Líquido[1] – Sobre a fragilidade dos laços humanos, os relacionamentos conjugais tornaram-se, na pós-modernidade, muito “líquidos”, isto é, sem bases sólidas. Os valores sociais e culturais de nossa época contribuem para uma fragilização do casamento, ampliando vertiginosamente o número das separações.