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PERPLEXIDADE

 

Por Doris Gandres

Perplexidade, realmente não encontro outra palavra para definir, da maneira menos grosseira e ofensiva possível, o meu sentimento diante dos horrores de que temos notícia e aos assistimos diariamente.

Abusos de todo tipo, físicos, psicológicos, financeiros, religiosos, de autoridade, arbitrariedades, enfim indescritíveis e inimagináveis situações e condições a que seres humanos são submetidos por outros seres humanos – de tal ordem que muitas vezes chego a perguntar se tais são realmente humanos. Radicalismos, racismos, preconceitos de toda sorte Dezenas de guerras espalhadas pelo mundo e muitas entregues à sanha de um genocídio civil desvairado...

Contudo, maior perplexidade me causa a inércia, a passividade, o silêncio a que se entregam milhares, milhões mesmo, de criaturas, não importando a crença, a posição social, a naturalidade, a nacionalidade. Compõem um cerrado bloco como que amorfo, no qual viceja apenas o conservadorismo, o comodismo; bloco aparentemente sem vida, desprovido de vontade, de idealismo, porém sujeitos a um só sentimento: o medo, medo que paralisa, que transforma em ovelhas submissas...

E como sou espírita, não sei se é maior minha perplexidade ou meu espanto ao constatar que o meio espírita em geral parece encontrar-se do mesmo jeito; que apesar de se dizer adepto de uma ciência filosófica de consequências morais, que divulga leis naturais de progresso, de justiça, amor e caridade, de igualdade, de liberdade, de sociedade, de trabalho e repouso entre outras, permanece afeito ao misticismo, à idolatria de espíritos e médiuns como se fossem “semideuses”, presos ainda, ilusoriamente, à ideia de salvacionismo ao se agarrar a citações como “Jesus está no leme”, “Deus no controle de tudo”...

As instituições convencionais conservadoras que se auto elegeram líderes do movimento espírita, cultivam com esmerado empenho essa situação, que as empodera e satisfaz seu anseio de dominação. Sem dificuldade difundem sutilmente métodos de procedimento aos grupos e de conduta aos adeptos mediante apostilas e cartilhas, além de palestras. Astuciosamente, sob textos e falas pretensamente gentis e doutrinárias, afastam a possibilidade de o livre pensar e livre expressar-se quanto a assuntos que possam levantar reflexões, questionamentos e discussões, tais como racismo, preconceitos, feminicídios, descriminalização do aborto, eutanásia, justiça social e tantos outros do gênero que atingem indivíduos e coletividades...

Todavia, como ensina Allan Kardec, o Espiritismo toca em todas as áreas do conhecimento humano, bem como da vida de um modo geral, com tudo que a compõe. E para perceber e entender seu alcance faz-se mister ser livre pensador – é na dúvida, no questionamento, na pesquisa que se gesta conhecimento; ao contrário, do medo de discordar, da aceitação cega e da acomodação, é que se alimentam a ignorância e a dependência.

Na Revista Espírita de fevereiro de 1867, no estudo feito por Kardec com o título de Livre Pensamento e Livre Consciência, o mestre lionês afirma: “Em sua concepção mais larga, o livre pensamento significa livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; não quer mais escravos do pensamento quanto não os quer do corpo, porque o que caracteriza o livre pensador é que pensa por si mesmo e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Nesse sentido, o livre pensamento eleva a dignidade do homem; ele, dela faz um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer.”

Consequentemente, se espíritas nos pretendemos, ousemos questionar, pensar, refletir, analisar, avaliar por nós mesmos seja o que for, venha de quem vier tema, assunto, ensinamentos, instruções.

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