Pular para o conteúdo principal

CONSUMISMO - UMA PANDEMIA SOCIAL

 

Por Doris Gandres

Conta-se que Sócrates, filósofo grego, gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!”.

O que se passa atualmente na sociedade é uma assustadora e incontida febre de consumo que atinge praticamente todas as camadas sociais, mesmo as menos providas de recursos excedentes, as quais muitas das vezes se endividam e complicam sobremaneira a existência pela posse de mercadorias que não são exatamente o que necessitam. E não só se endividam, mas inclusive às vezes até se prestam a procedimentos ilegais para a obtenção de todo tipo de supérfluos.

A mídia irresponsável bombardeia incessantemente a mente das pessoas, em sua maioria despreparadas para exercer escolhas criteriosas; os empresários e comerciantes gananciosos servem-se de artimanhas e artifícios os mais ardilosos e mesmo impiedosos, criando imagens de vida supostamente feliz e de sucesso somente quando assentada sobre o excesso de coisas, de bens materiais, de padrões de beleza artificial, de prazeres mundanos e físicos os mais extravagantes.

E, em meio a isso tudo, as criaturas correm de um lado para o outro, na busca frenética para ganhar um pouco (ou muito) mais, cada vez mais angustiadas pelo ter, pela posse daquilo que na véspera, ou até no mesmo dia, a televisão, a internet etc. preconizaram como último modelo disso ou daquilo absolutamente indispensável.

E assim, essas mesmas criaturas não vivem, não percebem o raio de sol que cintila na folha úmida de uma árvore ao passarem apressadas; outras, encerradas em seus prédios ou carros de vidros negros nem sequer se dão conta de que há sol do outro lado daqueles vidros que lhes escondem o mundo que pulsa e vibra lá fora. E, pior ainda, em muitos casos, muitas dessas, quais sejam, levantam os olhos de seus celulares, iPhones, iPads iEtc. para olhar diretamente nos olhos de outra criatura, sorrir-lhes, tocá-las num aperto de mão, num abraço, muitas vezes nem mesmo daquelas que declaravam ser seus entes queridos.

Encontramos em nossa Doutrina Espírita farto material para nos imunizarmos contra essa pandemia – no Livro dos Espíritos, questão 714, quando Kardec pergunta “Que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento dos seus gozos”, os Espíritos esclarecem: “Pobre criatura, que devemos lastimar e não invejar, porque está bem próximo da morte!” À questão seguinte, 714a, se ele está próximo da morte física ou moral, a resposta é: “De uma e de outra”. E o comentário de Kardec que se segue é extremamente claro e mesmo contundente: “O homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento dos gozos coloca-se abaixo dos animais, porque estes sabem limitar-se à satisfação de suas necessidades. Ele abdica da razão que Deus lhe deu como guia, e quanto maiores forem os seus excessos, maior é o império que ele concede à sua natureza animal sobre a espiritual. As doenças, a decadência, a morte mesmo, que são a consequência do abuso, são também a punição da transgressão da lei de Deus”.

Ainda no Livro dos Espíritos, a obra basilar da Codificação Espírita, na quarta parte, ao tratar do tema Felicidade e Infelicidade Relativas, os amigos espirituais nos ensinam que, na Terra, ainda não é possível a felicidade completa, mas que podemos abrandar os males e ser relativamente felizes; que, na maioria das vezes, é o homem o artífice de sua própria infelicidade; que a medida comum de felicidade possível a todos é: para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro.

Kardec então, conhecedor dos nossos argumentos e desculpismos, pergunta: “mas, segundo a posição, o que seria supérfluo para um, não se torna necessário para o outro?” E a resposta é taxativa: “Sim, de acordo com as vossas ideias materiais, os vossos preconceitos, vossa ambição, e todos os vossos caprichos ridículos, para os quais o futuro fará justiça, quando tiverdes a compreensão da verdade”.

Que dizer, como pretextar seja o que for, quando a seguir a Espiritualidade Maior ainda assevera: “os males deste mundo estão na razão das necessidades artificiais que criais para vós mesmos (...) O mais rico é aquele que tem menos necessidades”.

E essa assertiva nos remete de volta a Sócrates, considerado em nosso Evangelho Segundo o Espiritismo como o precursor do Cristianismo e do Espiritismo, tal a sua envergadura espiritual e moral, ao considerarmos com a devida atenção sua declaração acima transcrita: “quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!” Declaração essa de que podemos perfeitamente nos servir e, melhor ainda, colocar em prática. Certamente seremos todos bem mais felizes, já neste mundo, aqui e agora!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O ESPIRITISMO ANTE AS IDEOLOGIAS DE ESQUERDA E DE DIREITA

  Por Elias Moraes O movimento espírita não teve como se furtar ao acirramento das disputas ideológicas no campo político partidário, observadas nas duas últimas décadas; ao contrário, foi fortemente atingido por essas disputas. A princípio, mediante manifestações ostensivas de muitas das suas principais lideranças em defesa das pautas do campo ideológico da Direita, ainda que sob a forma de uma fingida neutralidade. A essas manifestações seguiu-se uma forte reação dos que discordavam dessa postura, e que foram estigmatizados sob o rótulo de "espíritas de Esquerda". Ante o clima de confronto que se estabeleceu, o argumento mais utilizado pelos que adotavam a negação como estratégia de silenciamento das discussões era que o Espiritismo não era nem de Esquerda e nem de Direita, mas "de cima", ou "do alto", como se a doutrina espírita não tivesse posições muito bem definidas a respeito de cada um dos temas colocados em pauta pelos atores de ambos os campos ...

O AMOR É PARA SEMPRE...

Por Dora Incontri (*) (Escrevi esses pensamentos, muito sentidos, há alguns anos. Pretendia publicá-los num livro, mas antes que ficarem guardados, na memória do computador, melhor partilhar com outros que, como eu, estejam amadurecendo essa que é a maior herança divina em nós: a capacidade de amar.) Parque Nacional da Tijuca - Rio de Janeiro O amor é o oposto da indiferença. O amor nunca tanto faz, com o que o ser amado faz. Por isso se empenha sempre por um fazer de luz. O amor pode curar, salvar, elevar, educar, regenerar. Mas tudo a longo prazo, pois para se mostrar, atuar e agir, precisa muito ter paciência, perseverar, persistir, muitas, infinitas vezes perdoar… Tudo devagar. O amor desgovernado, tumultuado pelas paixões, queima os corações, provoca afastamentos, descontentamentos, dilacerações… Por isso, o amor precisa se asserenar, se suavizar, alimentando-se de eternidade!

UM PALHAÇO NA MEDIÚNICA

Existe um ponto que reúne o melhor de mim nesta curta jornada pelas estradas pedagógicas da vivência espírita: a mesa mediúnica! Lembro como agora da primeira participação, e como aquilo mudou minha percepção de mundo, com um sentimento de vastidão insondada para tão distante de todos os conceitos construídos pelos setores formais aos quais me ligava.

À MUSA ESTUPRADA

"O Rapto das Sabinas", pintura de Nicolas Poussin           Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ...

COMO SUPERAR A DEPRESSÃO?

A depressão é a segunda causa de incapacidade no trabalho (a projeção é que, até 2020, seja a primeira da lista) e apenas 10% das pessoas deprimidas recebem tratamento adequado, conforme a Organização Mundial de Saúde. Infelizmente, muitas pessoas não buscam tratamento para Depressão por confundi-la com uma tristeza profunda. A causa da depressão é tida como multifatorial, isto é: converge vários fatores como o estilo de vida, o tipo de personalidade, a história pessoal e a predisposição genética. Não há um momento único ou específico em que a depressão comece. A depressão tem características neuroquímicas importantes e não depende necessariamente de um evento gatilho para se manifestar. Muitas pessoas apresentam sintomas depressivos na infância ou na adolescência. Tenho pacientes que após uma sequência de eventos traumáticos na idade adulta manifestaram a depressão. 

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

INVISÍVEIS TAMBÉM SE COMPRAZEM EM ILUDIR

  Por Orson P. Carrara Sabe-se que os espíritos não sabem tudo. Eles nada mais são que homens e mulheres que já deixaram a vida material ou estão para nela retornar, e que guardam conteúdos morais, intelectuais, emocionais e psicológicos, habilidades, tendências e gostos do estágio em que se encontram. Há que se lembrar que a morte não é uma varinha mágica que transforma o espírito; este terá que evoluir pelo esforço próprio visando o aprimoramento intelecto moral. E como não há privilégios, nem preferências, todos teremos que trilhar esse caminho.

DEPOIS DE HARARI: A ERA DA CONSCIÊNCIA

  Por Wilson Garcia A recente entrevista de Yuval Noah Harari ao  El País  pode ser lembrada não tanto pelas respostas que ele deu, mas pelas perguntas que provocou. Como em  Sapiens ,  Homo Deus  e  Nexus , o historiador israelense tem o dom de observar a história de cima, captando transformações que ainda mal percebemos enquanto acontecem. É bom refletir com o olhar espírita sobre isso.               Sua preocupação explícita é a Inteligência Artificial. Mas a implícita — e talvez a mais urgente — é outra: o próprio ser humano.             Durante séculos, acreditamos que nosso diferencial estava na inteligência. Hoje, começamos a descobrir que talvez esse não seja o nosso trunfo. A IA calcula melhor, memoriza mais, escreve mais rápido, traduz centenas de idiomas e analisa milhões de documentos em segundos. Se inteligência for ap...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...