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ENTRE O FANATISMO E A AUTOAJUDA¹

 

Por Dora Incontri

Como tudo no capitalismo é monetizado, passando pelo valor supremo do dinheiro, assim também se faz nas religiões e nas espiritualidades não diretamente vinculadas a uma tradição. Não falarei hoje de dízimos e de explorações financeiras feitas desde as indulgências vendidas na Idade Média, contra as quais se rebelou Lutero, e nem de pastores atuais, que acumulam impérios na mesma toada. Refiro-me aqui a transformar o tema da espiritualidade em objeto mercadológico, adotando o tom da autoajuda. Há padres católicos, médiuns espíritas, monges budistas e outros tantos praticando tal disparate. Explico-me por que considero detestável tal atitude.

Autoajuda, com ou sem narrativas espirituais, quase sempre é discurso ralo, com doses consideráveis de pensamento mágico (pensar positivo cura câncer, fazer tal ou qual mantra vai promover sucesso financeiro e outros que tais). Trata-se de receituário rápido e sem consistência para uma paz sem solidez. E, como se diz por aí, ajuda muito sim – o autor e a editora, no caso de livros!

Ao passo que religião séria, espiritualidade com envergadura (ou qualquer empreendimento com conteúdo, seja mesmo uma terapia ou uma análise) demanda estudo, comprometimento, prática. Não basta tangenciar assuntos profundos com frases bem-feitas. Qualquer caminhada que deva nos levar a algum lugar tem que ser bem pavimentada. Tudo isso, porém, é tão distante de nossa cultura de redes sociais e influencers que tantas vezes não têm nenhum conteúdo coerente, com que poderiam de fato influenciar positivamente milhões de seguidores hipnotizados!

Por outro lado, quando a religião pende para o fanatismo fundamentalista, então incha-se de regras, de pressões e opressões, que tornam a vida um fardo. Se a espiritualidade light, gratiluz (que tem sido inclusive chamada de positividade tóxica) nada provoca em transformação profunda e em engajamento real, a religião em sua faceta fundamentalista violenta a alma, coíbe a liberdade e interioriza culpas e medos, que depois podem se reproduzir indefinidamente com o próximo, com a família, e finalmente com a imposição à sociedade de valores extremistas.

Nas autoajudas, a alienação social é patente. Claro, sendo um produto do mercado, não pode fazer uma leitura crítica a essa mercantilização de todas as coisas, que é a tônica do capital. E ainda, o pensamento de superfície não tem instrumentais críticos para ler a realidade. Padece de ignorância teórica e empobrecimento de linguagem.

Já entre os extremistas do fundamentalismo, há um pensamento crítico aparente, falsificado. Porque é um discurso que se opõe à vida, à sua fruição, à liberdade, e ao próprio pensamento crítico que anseia por mudar o mundo. Então, torna-se furiosamente crítico, de tudo o que é livre e progressista. O fanatismo quer a manutenção e mesmo o endurecimento do status quo e não a emancipação humana e a realização da justiça neste mundo.

Como se pode ver, porém, esses dois polos da maneira como nos aproximamos de adesões a religiões e espiritualidades, servem muito adequadamente ao espírito do capitalismo. A autoajuda espiritual movimenta milhões no mercado editorial internacional, em lives, retiros, workshops, liderados por sacerdotes, monges, médiuns, gurus, coachs… Uma festa para o mercado, num processo de ilusão coletiva.

Por outro lado, o fundamentalismo se alia, (como já demonstrei aqui), aos movimentos de retrocesso político e social, com o avanço de direita nazifascista – que, como sabemos, é um momento que sempre se consolida, em momentos de crise, dentro do próprio sistema capitalista e suas supostas democracias.

 

¹ publicado, originalmente, no jornal GGN, em 18.04.2024

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