Pular para o conteúdo principal

LULA DERRUBA APOROFOBIA COMO POLÍTICA DE ESTADO, MAS...

 

 


 Por Ana Cláudia Laurindo

 

Eleger Lula outra vez não significa que chegamos ao ideal de sociedade para todos que nos faz vibrar, mas decisivamente, significou derrubar a aporofobia como política de estado.

O que é aporofobia? É o horror ao pobre, em resumo. Em seu livro “Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia” a espanhola Adela Cortina nos faz refletir:

“Ainda que algumas pessoas se queixem de que, na vida cotidiana, falamos em excesso sobre fobias, é certo que, infelizmente, existem e são patologias sociais que precisam de diagnóstico e terapia, porque acabar com essas fobias é uma exigência do respeito, não á ‘dignidade da pessoa humana’, uma abstração sem rosto visível, mas às pessoas concretas, que são as que têm dignidade e não simples preço”. (p. 18-19)

Assim começamos a identificar o que foram os últimos seis anos para os segmentos tarjados de “desprezíveis” em nosso país. Bolsonaro foi representante de segmentos que se diziam fundamentais para o liberalismo econômico encarniçado, semeador de ódios, que tomou forma durante o golpe de 2016.

“Quem despreza assume uma atitude de superioridade em relação ao outro, considera que sua etnia, raça, tendência sexual ou crença – seja religiosa ou ateia – é superior e que, portanto, a rejeição ao outro está legitimada”. (p.23)

Derrubadas todas as barreiras humanitárias com seus princípios e éticas, um show de preconceitos, perseguições e negações de direitos ganharam o palco político partidário, as tribunas, as igrejas, os almoços em família e as ruas.

“Os incidentes de ódio se produzem quando há constância de um comportamento de desprezo e maltrato a certas pessoas por pertencerem a um determinado coletivo, mas esse comportamento não cumpre os requisitos de estar tipificado como crime” (p.37) Pela pauta histórica de desigualdades sociais e culturais, o Brasil conseguiu manter um bolsão de excluídos dentro das faixas de empobrecimento.

As políticas do (des)governo Bolsonaro afetavam diretamente estes grupos. Acompanhadas de chacotas, desrespeitos públicos e outras bizarrices que a sociedade não somente tolerou, mas se tornou conivente, através de suas instituições e condutas gerais nas ruas. “Em princípio, o discurso se dirige contra um indivíduo, não porque esse indivíduo tenha causado dano algum ao falante, mas porque goza de um traço que o inclui em determinado coletivo”. (p.40)

Desfigurando a humanidade das pessoas empobrecidas, transformando-as em fardo, perigo, presença indesejável, o poder manipula a aceitação comum do seu extermínio, seja por violência letal, fome, adoecimento mental grave, dificuldade de acesso a cuidados, etc. “A aporofobia é um tipo de rejeição peculiar, diferente de outros tipos de ódio e rejeição, entre outras razões – porque a pobreza involuntária não é um traço da identidade das pessoas”. (p.48)

 Desse modo, ter um governo que instituiu a aporofobia como política de estado não é algo para ser esquecido no virar da página do seu tempo, mas para ser profundamente debatido, estudado, e conhecido para que os interesses ultraliberais que continuam ativos no entorno do presidente Lula não nos anestesiem a crítica. “Tentar eliminar a aporofobia econômica exige educar as pessoas, mas muito especialmente criar instituições econômicas e políticas, empenhadas em acabar com a pobreza a partir da construção da igualdade”. (p.49)

As representações fortalecidas no ato da posse do presidente Lula tocou os corações onde a fibra sensível da humanidade pátria ecoa, mas sabemos que  não basta. Neste caso não se trata de pressa, mas de prontidão. Nós defendemos a democracia para manter este tipo de relação com o poder, e fazer das análises críticas instrumentos de diálogo, coisa negada por seis anos na história recente.

“A ética cívica de uma sociedade pluralista e democrática é uma ética de correspondência entre instituições e cidadãos através das pessoas concretas, dos pronomes pessoais que constituem de qualquer diálogo sobre o justo. Os discursos de ódio enfraquecem a convivência, rompem a intersubjetividade e cortam os vínculos interpessoais”. (p.68) Mas enquanto sociedade que ama, nós queremos participar deste tempo defendendo as bandeiras plurais com a livre expressão política do respeito ao outro, e também aos princípios aos quais nos agregamos concretamente.

Este é o tempo da livre escrita, dentro das pautas comuns, sem ajuizar falsidades, nem temer intolerâncias de direita ou de esquerda.

Aporofobia como política de governo caiu com Bolsonaro, mas permanece na mentalidade empresarial brasileira, nas narrativas assépticas religiosistas, nas camadas de poderosos que estão nas instituições formais que deveriam representar a sociedade civil, e logo, podemos afirmar, que está no entorno do presidente em perfis negociados, que adentraram o poder sem levar o povo consigo.

Parabéns ao Brasil pelas conquistas, mas precisamos seguir atentos e atuantes porque a festa acaba e a vida real continuará nua.

O cenário político partidário brasileiro não é para amadores.

 

 

 

Bibliografia utilizada: CORTINA, Adela. Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia. São Paulo: Editora Contracorrentes, 2020.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

“CANALHA! CANALHA! CANALHA!”: O GRITO DE INDIGNAÇÃO CONTRA A CANALHICE ESTRUTURAL BRASILEIRA

    Por Jorge Luiz     O Grito da Canalhice: Uma Definição Multifacetada             “Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras,  o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada do dia 2 de abril de 1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Jango estava em Porto Alegre. Na gritaria que se seguiu à fala de Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na Câmara, gritar: “Canalha! Canalha! Canalha”. A frase é frequentemente citada por outros políticos em momentos de crise, como fez o senador Roberto Requião, em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, evocando a memória do ato de Moura Andrade e a reação de Tancredo.

DESCOBRINDO UM ESPIRITISMO LIBERTADOR

  Por Ana Cláudia Laurindo Ser espírita livre em uma sociedade prenhe de padrões e vícios, tem sido a conquista deste tempo, onde não pertencer é sinônimo de alcance, mantendo fidelidade intelectual e moral aos preceitos do livre pensamento. O elitismo de provar que sabe ronda os agrupamentos espíritas brasileiros, inclusive aqueles que se recomendam progressistas, no entanto, as armadilhas dos hábitos de manutenção de perspectivas sociais baseadas em correlação de força que perpassam o status quo, disparam alertas.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

TUDO MUDOU. E AS INSTITUIÇÕES?

  Por Orson P. Carrara Os de minha geração, nascidos nas décadas de 60 a 80 ou 90 e, claro, mesmo anteriores, lembram-se perfeitamente do formato de organização e funcionamento de uma padaria, de uma farmácia ou de um mercado, entre outros estabelecimentos comerciais. Hoje temos tais formatos completamente diferentes. O que antes era balcão único de atendimento mudou para prateleiras abertas, inclusive com auto atendimento para pagamento. Antes levávamos o pão para casa, hoje vamos à padaria tomar café para apreciar outras delícias. Farmácias normalmente eram reduzidas, hoje se multiplicaram com total mudança nos atendimentos, face às facilidades virtuais. Nem é preciso citar mais nada, todos estamos muito habituados às facilidades dos dias atuais.

ASTRÔNOMO DIZ QUE JESUS PODE TER NASCIDO EM JUNHO (*)

  Por Jorge Hessen Astrônomo diz que Jesus pode ter nascido em junho Uma pesquisa realizada por um astrônomo australiano sugere que Jesus Cristo teria nascido no dia 17 de junho e não em 25 de dezembro. De acordo com Dave Reneke, a “estrela de Natal” que, segundo a Bíblia, teria guiado os Três Reis Magos até a Manjedoura, em Belém, não apenas teria aparecido no céu seis meses mais cedo, como também dois anos antes do que se pensava. Estudos anteriores já haviam levantado a hipótese de que o nascimento teria ocorrido entre os anos 3 a.C e 1 d.C. O astrônomo explica que a conclusão é fruto do mapeamento dos corpos celestes da época em que Jesus nasceu. O rastreamento foi possível a partir de um software que permite rever o posicionamento de estrelas e planetas há milhares de anos.

VISÕES NO LEITO DE MORTE¹

Especialista no tratamento de traumas e processo de superação, Dr Julio Peres, analisa as experiências no final da vida e o impacto das visões espirituais ao enfermo e sua família, assim como para os profissionais da saúde que atuam em cuidados paliativos. De acordo com Dr. Júlio Peres, pesquisas recentes demonstram que um grande número de pessoas de distintas culturas têm relatado experiências no final da vida – originalmente chamadas na literatura por end-of-life experiences – sob a forma de visões no leito de morte, sugestivas da existência espiritual. Esta linha de pesquisa tem trazido contribuições que interessam diretamente aos profissionais que atuam com cuidados paliativos e mais especificamente, aqueles que desenvolveram a Síndrome de Burnout decorrente do esgotamento, angústia e incapacidade perante a falta de recursos para lidar com as sucessivas mortes de seus pacientes.

DIVERSIDADE SEXUAL E ESPIRITISMO - O QUE KARDEC TEM A VER COM ISSO?

            O meio espírita, por conta do viés religioso predominante, acaba encontrando certa dificuldade na abordagem do assunto sexo. Existem algumas publicações que tentam colocar o assunto em pauta; contudo, percebe-se que muitos autores tentam, ainda que indiretamente, associar a diversidade sexual à promiscuidade, numa tentativa de sacralizar a heterocisnormatividade e marginalizar outras manifestações da sexualidade; outros, quando abrem uma exceção, ressaltam os perigos da pornografia e da promiscuidade, como se fossem características exclusivas de indivíduos LGBTQI+.

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

AOS QUE PARTIRAM

             Somos aqueles que ficaram para curtir as saudades depois de sua partida. Aos poucos vamos aprendendo a viver com as ausências e o tempo é o único remédio para aliviar a falta que a sua presença provoca em nossa rotina. Os primeiros dias provocaram uma espécie de sensação de vazio e as horas pareciam cruéis estacas perfurando-nos o coração. Não é fácil lidar com essa realidade, mas vamos aos poucos nos adaptando.