Pular para o conteúdo principal

DIÁRIO DA MAMA 9 - A JUSTA MEDIDA DA POTÊNCIA

 

Por Dora Incontri

Semanas se passaram e eu aqui sempre querendo voltar ao meu diário, mas estava sem forças. As químios vão se sobrepondo e o corpo vai ficando mais bombardeado, mais abatido, mais exaurido. A imunidade baixa, as infecções se sucedem e o desânimo toma conta. Já por duas vezes tive que adiar a data da infusão, por conta de infecções oportunistas. Faz parte. A boa notícia é que o tumor está diminuindo bastante.

Mas não é possível dizer que está tudo ótimo, porque não está. É estranho hoje como muitos só querem ouvir palavras de gratiluz e pensamentos positivos e não aguentam uma simples afirmação: não estou bem! Se ousamos dizer que está pesado, punk, difícil… logo aparecem aqueles encorajamentos de que vou vencer, de que vou ficar curada, de que vai passar. Está certo, a chance de cura é praticamente 100%, mas a travessia é penosa, para chegar lá.

É preciso saber ouvir que o outro está mal e simplesmente concordar que é difícil mesmo - só isso. Muitos fazem esse exercício de empatia e acolhimento, mas outros muitos não se adaptam à ideia de que há sofrimento e desfalecimento no caminho. Hoje, há uma tendência generalizada de se mascarar a dor, porque somos obrigados à felicidade diária nas redes sociais.

Entretanto, como toda dor traz aprendizagem, fico procurando extrair o que pode ser proveitoso nesse caminho, sem ideias punitivistas, que me façam procurar culpas presentes ou passadas para justificar o que estou enfrentando. A questão é o que se pode aprender.

Acho que o que mais me martiriza nesse processo todo não é o mal-estar, as dores, a doença em si e o seu tratamento tão descompensador, mas o fato de me reduzir a energia, me paralisar as atividades do dia a dia, me sentir meia Dora ou um quarto de Dora e não a Dora inteira, com toda a potência que me é própria. Tenho que usar minha potência para me cuidar e superar o momento e não para produzir como estou acostumada, cuidar dos outros, como sempre cuido - apesar de não estar totalmente sem produção e sem ação.

E aí que entram as reflexões desses tempos. Lembro sempre de uma frase do meu mestre e amigo Herculano Pires, de que não devemos ter complexo de Deus. Estava ele se referindo a um dos atributos de Deus, que é a onipotência. Ora, muitas vezes, gostaríamos, sim, de ser onipotentes: arrancar o sofrimento dos mais amados, impedir as escolhas equivocadas de outros, consertar os problemas do mundo, trabalhar além dos limites humanos, num tempo sem tempo…E como não somos onipotentes, sentimos o gosto da impotência, frustrante, entristecedora.

Embora não sejamos onipotentes, somos sim potentes. Não podemos pretender a onipotência divina,  mas Jesus também disse que somos deuses. Ou seja, somos capazes de iluminar o caminho e criarmos beleza, amor e transformação.

Eis o que é preciso, pois –  um meio caminho entre a sensação de impotência, que nos impede de avançar e a pretensão à onipotência, que nos esmaga por dentro.

Integrar-se na harmonia da vida, fazendo o que devemos, o que queremos, o que podemos, com inteira presença. E entregando a Deus Pai e Mãe, o conjunto da obra, a visão do futuro, a medida da eternidade, renunciando à vontade de controle. Uma diminuição necessária da ansiedade.

Agir, parar, respirar, prosseguir, com calma e esperança, paciência e consistência. Doenças podem ser essas pausas necessárias e também podem ser consequência de um excesso de ação exaustiva. Mas também são simples contingências de um mundo cheio de venenos para o corpo e para a mente, numa estrutura social em que contrariamos o tempo todo nossa natureza orgânica e espiritual. A incidência absurda de câncer no mundo demonstra que estamos doentes coletivamente e isso se materializa em nossos corpos.

E hoje, vou pegar uma poesia emprestada, da minha querida amiga Larissa Blanco - aliás ainda inédita, onde ela fala justamente desse mundo que queremos, em que não seja preciso mais sequer haver domingos.

 

Aos domingos

 

Quando um poema se abre: paragens

Tornam-se rarefeitas as fronteiras

 Entre o azul e o corpo

 E a consciência nos oferta acolhida:

Parecem corretas e nobres

As nossas escolhas de vida.

É neste instante

Que despenca do meu semblante

O fruto amargo,

Meu olhar opaco

De quem muito conjectura

Finalmente descansa, desfruta

E não mais censuro o avanço da cerca viva...

 E dou-me conta do torpor que sinto

Ao ver o ser amado despido...

E lufadas de ar decolam do manjericão

 E transitam...

 Suavemente fecho os olhos

 - desisto de disputar com o Sol

 a minha retina -

 E meus versos se põem a animar uma cena:

 Os contornos de uma mulher que amamenta, serena.

 Imersa com sua prole

Em um casulo de seda

 Sob o teto morno de uma casa

 Há pão sobre a mesa

 E uma aldeia espalhada pela sala.

 O futuro está abrigado

 Contra salteadores

 Não há demandas para punhos cerrados

 Não há extermínio dos mais fracos

Nem sequer existem os domingos

 Para cavar uma paragem

 E garantir algum fôlego:

 A vida já nasceu arejada,

Um poema pronto.

 

Larissa Blanco

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESPIRITISMO ANTE AS IDEOLOGIAS DE ESQUERDA E DE DIREITA

  Por Elias Moraes O movimento espírita não teve como se furtar ao acirramento das disputas ideológicas no campo político partidário, observadas nas duas últimas décadas; ao contrário, foi fortemente atingido por essas disputas. A princípio, mediante manifestações ostensivas de muitas das suas principais lideranças em defesa das pautas do campo ideológico da Direita, ainda que sob a forma de uma fingida neutralidade. A essas manifestações seguiu-se uma forte reação dos que discordavam dessa postura, e que foram estigmatizados sob o rótulo de "espíritas de Esquerda". Ante o clima de confronto que se estabeleceu, o argumento mais utilizado pelos que adotavam a negação como estratégia de silenciamento das discussões era que o Espiritismo não era nem de Esquerda e nem de Direita, mas "de cima", ou "do alto", como se a doutrina espírita não tivesse posições muito bem definidas a respeito de cada um dos temas colocados em pauta pelos atores de ambos os campos ...

O AMOR É PARA SEMPRE...

Por Dora Incontri (*) (Escrevi esses pensamentos, muito sentidos, há alguns anos. Pretendia publicá-los num livro, mas antes que ficarem guardados, na memória do computador, melhor partilhar com outros que, como eu, estejam amadurecendo essa que é a maior herança divina em nós: a capacidade de amar.) Parque Nacional da Tijuca - Rio de Janeiro O amor é o oposto da indiferença. O amor nunca tanto faz, com o que o ser amado faz. Por isso se empenha sempre por um fazer de luz. O amor pode curar, salvar, elevar, educar, regenerar. Mas tudo a longo prazo, pois para se mostrar, atuar e agir, precisa muito ter paciência, perseverar, persistir, muitas, infinitas vezes perdoar… Tudo devagar. O amor desgovernado, tumultuado pelas paixões, queima os corações, provoca afastamentos, descontentamentos, dilacerações… Por isso, o amor precisa se asserenar, se suavizar, alimentando-se de eternidade!

UM PALHAÇO NA MEDIÚNICA

Existe um ponto que reúne o melhor de mim nesta curta jornada pelas estradas pedagógicas da vivência espírita: a mesa mediúnica! Lembro como agora da primeira participação, e como aquilo mudou minha percepção de mundo, com um sentimento de vastidão insondada para tão distante de todos os conceitos construídos pelos setores formais aos quais me ligava.

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

À MUSA ESTUPRADA

"O Rapto das Sabinas", pintura de Nicolas Poussin           Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ...

COMO SUPERAR A DEPRESSÃO?

A depressão é a segunda causa de incapacidade no trabalho (a projeção é que, até 2020, seja a primeira da lista) e apenas 10% das pessoas deprimidas recebem tratamento adequado, conforme a Organização Mundial de Saúde. Infelizmente, muitas pessoas não buscam tratamento para Depressão por confundi-la com uma tristeza profunda. A causa da depressão é tida como multifatorial, isto é: converge vários fatores como o estilo de vida, o tipo de personalidade, a história pessoal e a predisposição genética. Não há um momento único ou específico em que a depressão comece. A depressão tem características neuroquímicas importantes e não depende necessariamente de um evento gatilho para se manifestar. Muitas pessoas apresentam sintomas depressivos na infância ou na adolescência. Tenho pacientes que após uma sequência de eventos traumáticos na idade adulta manifestaram a depressão. 

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

INVISÍVEIS TAMBÉM SE COMPRAZEM EM ILUDIR

  Por Orson P. Carrara Sabe-se que os espíritos não sabem tudo. Eles nada mais são que homens e mulheres que já deixaram a vida material ou estão para nela retornar, e que guardam conteúdos morais, intelectuais, emocionais e psicológicos, habilidades, tendências e gostos do estágio em que se encontram. Há que se lembrar que a morte não é uma varinha mágica que transforma o espírito; este terá que evoluir pelo esforço próprio visando o aprimoramento intelecto moral. E como não há privilégios, nem preferências, todos teremos que trilhar esse caminho.

DEPOIS DE HARARI: A ERA DA CONSCIÊNCIA

  Por Wilson Garcia A recente entrevista de Yuval Noah Harari ao  El País  pode ser lembrada não tanto pelas respostas que ele deu, mas pelas perguntas que provocou. Como em  Sapiens ,  Homo Deus  e  Nexus , o historiador israelense tem o dom de observar a história de cima, captando transformações que ainda mal percebemos enquanto acontecem. É bom refletir com o olhar espírita sobre isso.               Sua preocupação explícita é a Inteligência Artificial. Mas a implícita — e talvez a mais urgente — é outra: o próprio ser humano.             Durante séculos, acreditamos que nosso diferencial estava na inteligência. Hoje, começamos a descobrir que talvez esse não seja o nosso trunfo. A IA calcula melhor, memoriza mais, escreve mais rápido, traduz centenas de idiomas e analisa milhões de documentos em segundos. Se inteligência for ap...