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O LUGAR DO CRISTIANISMO NA HISTÓRIA

             


            Ainda há espaço, no mundo contemporâneo para o cristianismo? A julgar pelos cristãos e pelos cristianismos em voga, com folga seria possível afirmar que não. Não há espaço, num mundo estruturado por uma lógica racionalista e cientificista, para arroubos de misticismo e alienação provocados pelos vários cristianismos. Num mundo de alienação como é o de nosso tempo, os cristianismos encontram folgado espaço contribuindo com os reforços da alienação.

            Mas é preciso que caiba no mundo contemporâneo, por sua vez, um tipo de cristianismo novo, sem ser resgate do passado nem melhora dos cristianismos já existentes: um cristianismo radicalmente novo, construção nova, nem reconstrução nem reforma.

             Cristianismo, lenitivo da história

            Ainda há um grito de dor na humanidade. Ainda há um soluço de dor pela injustiça, pela miséria, pela fome, pela impossibilidade de vida, pelos desejos não satisfeitos, pela falta de plenitude da vida. O mundo burguês tem uma visão de nosso povo. Acredita o burguês nas suas instituições, acredita nos debates, no diálogo, no esclarecimento.

            O pobre, o marginalizado, o esquecido, este sabe que as instituições são um mundo que não terá jamais a lógica sua, posto que se trata, no fundo, da velha distinção entre opressor e oprimido. Ora, o povo, não conta até hoje a política institucional, não conta o diálogo, o convencimento, a ilustração, a filosofia, a ciência. Tudo isto ainda prossegue no plano do inalcançável. Resta ao povo a desgraça, a miséria, a dor. O cristianismo que brota desse povo é sempre fé e esperança. Que imagem a do Cristo consolador, justo, salvador, que um dia dará a cada operário, uniformizado, a cada doméstica sem registro, a cada lixeiro indistinto dos seus companheiros um lugar que olhará para os olhos de cada um deles e o chamará de irmão. Não há sentimento mais forte no ser humano que este cristianismo vivo que é pleno de esperanças. Nenhuma medida da justiça dos juristas e dos pensadores do direito, chegará jamais aos pés do sentimento de justiça que paira em um pobre cristão. Por isso ele reparte um pão com o seu próximo, por isso ele acolhe no seu barraco o seu vizinho no caso de enchente, por isso ele distribui o pouco com quem tem muito menos ainda.

            A prática de justiça do pobre cristão ainda é um modelo para a humanidade viciada e sem gosto na vida. Há pessoas sem rumo na sua existência, há momentos em que a comunidade “mundial” da mídia bem-pensante está sem utopias, sem horizonte, sem perspectivas. Aqui vale o dito de olharmos os lírios do campo. 

        Esta grandeza do cristianismo é formidável. A política nos países miseráveis tem a fala da elite – da elite do poder ou das ideias, mas sempre da elite – e o povo não a entende. A ciência é para os ricos, a filosofia é para um fino extrato da elite. Onde não entra a ciência, com suas causas e efeitos, resta ainda a magia do mistério, do poder de Deus, do milagre, da força do Cristo. Este ainda é o mundo encantado. Mas encantado porque os clarins da opressão montaram o laboratório da ciência nos aposentos da casa grande, deixando a senzala à noite às voltas com a escuridão, com as estrelas e a lua. A casa grande ainda hoje considera a senzala supersticiosa. Libertá-la da escravidão, no entanto, é a única ação que não se lembram de fazer as damas e os empresários da casa grande, que ainda hoje mandam esmolas na forma de caridade aos seus escravos da senzala.

 

fonte: Cristianismo Libertador, Alysson Mascaro, editora Comenius

 

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