Pular para o conteúdo principal

ESPIRITISMO À BRASILEIRA: AFIRMAÇÃO DO ESPIRITISMO NO RIO DE JANEIRO

"A Gênese", publicada em 1882 pela Livraria Garnier, RJ, Cap. Império




 

            Desde a publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857, o Espiritismo passou a ser conhecido por alguns brasileiros familiarizados com a língua francesa e por grupos de franceses através da obra de Casimir Lieutaud, Les Temps Sont Arrivés

            Faziam-se necessárias obras vertidas para o português dada a impossibilidade das massas incultas com a língua francesa. Isto ocorre em 1862 com a primeira versão para o português de um livro espírita. Ocorre simultaneamente com a primeira edição de O Espiritismo na sua Expressão Mais Simples, tradução de Alexandre Camu, um francês materialista que abraçara o Espiritismo.

            O movimento espírita brasileiro nesse primeiro momento ficou restrito ao Rio de Janeiro e, logo em seguida, na Bahia. Nos anos 1860 do século XIX, o conhecimento restringia-se à colônia francesa sediada na Corte, formada, principalmente, por profissionais liberais em situação socioeconômica confortável, a exemplo de Casimir Leiuteaud, Adolphe Hubert, Monsieur Morin e Mmme. Perret Collard.

            No dia 02 de agosto de 1873, foi fundado o primeiro centro espírita no Rio de Janeiro (o segundo do país), a Sociedade de Estudos Espíritas – Grupo Confúcio. O primeiro foi o Grupo Familiar de Espiritismo, fundado por Teles de Menezes, em Salvador, Bahia. O grupo percebeu a necessidade de tradução das obras básicas, não só pela necessidade de divulgação, mas também para subsídios para os novos grupos que se iniciavam.

            Sob a coordenação de Joaquim Carlos Travassos, secretário-geral do grupo Confúcio, houve a tradução de O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e O Céu e o Inferno, publicados por B. L. Garnier, em 1875. Seguiu-se a publicação de O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1876, igualmente traduzido por Travassos. Ocorreram várias edições para a expansão do Espiritismo.

            Dr. Travassos foi pioneiro na expansão do Espiritismo no Brasil. Além da tradução dos livros citados e da participação no Grupo Confúcio e em outros núcleos que se formaram, o médico foi um dos receitistas mais renomados nas últimas décadas no século passado.

            O Grupo Confúcio foi responsável pela assistência homeopática gratuita, ao qual se deve a revelação do Anjo Ismael como o guia do Espiritismo no Brasil e a fundação do primeiro Jornal espírita no Rio de Janeiro.            Surge o abolicionista e republicano Antônio da Silva Neto, nascido na Bahia, em 1836. Silva Neto era positivista, pois, apesar da educação familiar cristã que recebera, não aceitava qualquer crença que conflitasse com os postulados científicos correntes à sua época. Interessou-se pelo estudo do magnetismo e, depois, pela investigação das manifestações dos espíritos.

            Silva Neto foi eleito, no ano seguinte da sua fundação, presidente do Grupo Confúcio. Por formação de opção, ele privilegiou a parte científico-filosófica contida em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, em detrimento do aspecto religioso. Era um “espírita puro”, como se denominavam na época.

            Houve um rompimento posterior das orientações Silva Neto e acabaram surgindo os espíritas “místicos”, os que privilegiavam o aspecto religioso da Doutrina Espírita. Ao abandonar o Grupo Confúcio, surgiram novos grupos e, dentre eles, o mais importante  foi a Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, fundada em 1876. O Grupo Confúcio sobreviveu até 1876.

            Ao reafirmar a sua posição diante das dissidências doutrinárias já explicitadas, Silva Neto lembrou que Kardec pretendera a união de todos os homens e chamava a atenção para o perigo de o Espiritismo se transformar em mais uma seita religiosa, envolta em um misticismo dogmático, e que não se fundasse com isso uma Igreja que viesse a “embaraçar a solidariedade humana.”

            A Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade abrigou alguns vultos importantes do movimento espírita no Brasil, como Joaquim Carlos Travassos e Bittencourt, médiuns receitistas.

            Nas sessões presididas por Bittencourt Sampaio, surgiu a figura de Antônio Luiz Sayão, pessoa extremamente mística e recém-convertida que passou a integrar o grupo e a estudar a obra de Kardec e a de Roustaing – cujo livro, Os Quatro Evangelhos, chegou ao Brasil logo após as obras de Kardec.

            A Sociedade já contava com perto de 800 membros, bastante heterogêneos, o que levou mais uma vez ao embate entre místicos e científicos, e não poderia deixar de resultar em uma nova dissidência. Os místicos romperam com o grupo e formaram outros grupos, como a Congregação Espírita Anjo Ismael, em 1877, e o Grupo Espírita Caridade, em 1878. Os científicos continuavam muito fortes, tendo à frente o professor Angeli Torterolli, e logo mudaram a denominação para Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade. Em 1880, outro grupo de místicos se afastou e fundou a Sociedade Espírita Fraternidade, dentre eles, Bitttencourt Sampaio.

            É importante ressaltar que foi no grupo Fraternidade que os místicos se dividiram em kardecistas e roustainguistas.

            Sayão tentou conciliar as várias correntes doutrinárias, inclusive dirigindo-se à Sociedade Acadêmica, reduto dos científicos e dos espíritas puros. Não obtendo êxito, optou por formar outro núcleo com o amigo Bittencourt Sampaio: O Grupo dos Humildes, mais conhecido como o Grupo de Sayão.

            O Espiritismo carioca conheceu diversas fases por demais conturbadas, como veremos nos próximos artigos.

           

 

Referências:

AUBRÉE, Marion & LAPLATINE, François. A mesa, o livro e os espíritos. Alagoas: UFAL, 2009.

DAMÁZIO, Sylvia F. Da elite ao povo. Rio de Janeiro: Betrand, 1994.

GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

Comentários

  1. É importante conhecer a história do espiritismo para entender a situação atual. A raiz está aqui.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A HISTÓRIA DE JERÔNIMO

  Por Jerri Almeida A história de Jerônimo é comovente. Nasceu no dia 1º de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. Narra-se que sua infância foi a de uma criança normal. Frequentou escola até o início do ginasial antigo. Todavia, já na adolescência, começou a sentir os primeiros sinais de sua doença, através de dores nas articulações, especialmente nos joelhos e tornozelos, que passaram a inchar e, aos dezoitos anos, já andava com dificuldade.

QUANDO O ESPIRITISMO VIRA ARENA DE PRÁTICAS “DIFERENTONAS”

  Sala para realização de cirurgia espiritual no C.E.Casa de Oração Espírito de Luz Por Jorge Hessen Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”. Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

A AUDITORIA DA ALMA: VIDAS PRETÉRITAS, FORMA-MERCADORIA E A ÉTICA DO EU-TU

    Por Jorge Luiz   O Mito da Identidade Intacta             Antes mesmo de pronunciarmos a primeira palavra ou esboçarmos o primeiro pensamento reflexivo, já fomos batizados. O nome próprio — esse signo fundamental que carrega nossa existência jurídica e social — nos é atribuído pela expectativa, pelo gosto e pelas projeções do outro. Somos nomeados no escuro. Para muitos, no entanto, o amadurecimento da consciência traz consigo um estranhamento visceral diante desse rótulo herdado. Descobre-se que a roupagem simbólica recebida no berço não se ajusta à pele de quem nos tornamos, levando um número crescente de pessoas a recorrer ao Direito Civil para alterar aquilo que parecia ser a mais imutável das certezas: a própria alcunha.             Talvez houvesse um ganho civilizatório profundo se a consolidação do nome dependesse de uma validação posterior, um ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

UM HOMEM, UMA HISTÓRIA RESIGNIFICANDO O VÍNCULO SOLIDÁRIO

  Objetivando transmitir uma mensagem de “alento” e “esperança” a pessoas em desespero, John Edwards, de 61 anos, um ex-dependente de drogas e ex-alcóolatra (sóbrio há mais de duas décadas) inexplicavelmente se voluntariou deitar em um caixão que foi fechado e enterrado no terreno de uma igreja de Belfast, na Irlanda do Norte. Obviamente o ataúde foi especialmente adaptado para que Edwards “sobrevivesse” por três dias (quando fosse desenterrado) e pudesse transmitir a experiência ao vivo pelas redes sociais. No passado Edwards enfrentou abuso sexual, viveu na rua, recebeu tratamentos para distúrbios mentais, sobreviveu a várias overdoses e “perdeu” mais de 20 amigos por conta de abuso de drogas, álcool e suicídios. Sobreviveu a dois cânceres e a um transplante de fígado após desenvolver hepatite C por causa de uma agulha contaminada.

AS BETS E O JOGO DA VIDA

      Por Jorge Luiz                     A Encomenda da Esperança: A Captura do Imaginário             Muito recentemente, os símbolos da Pátria foram sequestrados por uma corrente partidária de extrema-direita. De repente, o imaginário do brasileiro foi dilacerado: o que era símbolo de pertencimento e brasilidade transmutou-se em sentimento de aversão por aqueles alinhados a ideologias progressistas. Com a camisa da Seleção Brasileira, o fenômeno não foi diferente. Esse episódio escancara algo fundamental: o imaginário é o campo onde se travam as disputas centrais da nossa época.             O imaginário, para Castoriadis (2012), não significa o fictício, o ilusório ou o especulativo, mas o elemento determinante — e não determinado — de novas formas e significações; uma criação autônoma que não se ...

SEMANA MAURÍCIA

Cap. Maurício - Patrono da CME CAPITÃO MAURÍCIO era o comandante da Legião Tebana. Essa legião era originária do Egito e seus soldados eram todos cristãos. No ano (286 d.C.), o Império Romano convocou a Legião Tebana para debelar a Revolta dos Bagaudos . Era costume do Exército romano, antes de entrar em combate, realizar os “sacrifícios propiciatórios aos deuses pagãos” para sucesso da batalha. Capitão Maurício e toda a sua Legião, por serem cristãos, recusam-se a participarem daqueles rituais. A mentalidade cristã não poderia, naturalmente, coincidir com a pagã. Embora respeitando as leis e sendo leais ao Império, não colocavam a pátria terrena acima de tudo.

MATERIALISMO

  O Materialismo é a doutrina que acredita que os fenômenos naturais, sociais, mentais e históricos são esclarecidos pela própria matéria ou pelas condições concretas materiais, também dispensando qualquer forma de participação divina em todo o processo de formação da vida, relacionando-o com fatores evolutivos casuais. Concebendo os fenômenos vitais como sem origem inteligente, fruto somente do "acaso", não aceitando a substância imaterial, os partidários do materialismo têm grande propensão de sancionar o orgulho e o egoísmo e, consequentemente, o hedonismo, como igualmente participam com afinco de todos os programas relativos à justificação e à propagação dos crimes do aborto e da eutanásia.

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.