Pular para o conteúdo principal

CRÔNICAS DO COTIDIANO: O CÃO CUIDADOR

 


         Em uma cidade no interior do Estado do Ceará, um cachorro atropelado é cuidado por outro durante mais de uma noite até ser socorrido. E mais, o cão cuidador lambia e passava a pata sobre o cão ferido, em tentativas de reanimá-lo. Tão logo o acidentado foi colocado dentro da viatura de socorro, o cuidador pulou para dentro do carro e o acompanhou até a clínica. Pela idade, sugere-se que são irmãos. Cuidador e acidentado estão bem, aguardando interessados para adoção.

         Situações similares a essa ocorrem com frequência no reino animal, e chamam a atenção de todos. E as indagações são recorrentes: os animais têm sentimentos? Sentem dor e prazer? Os animais têm alma? A resposta é afirmativa para todas as indagações.

             A alma nos animais

            Na questão nº 597 de O Livro dos Espíritos (LE), os Espíritos Reveladores atestam que os animais têm um princípio inteligente, independente da matéria que lhes dá certa liberdade de ação e sobrevive à morte do corpo.

            Na questão nº 597 “a” eles admitem que se pode considerar esse princípio como alma, mas é inferior à do homem. Essa distinção fica clara nas questões n° 23 e 76, em que os Espíritos utilizam o “e” minúsculo para o espírito como “princípio inteligente” e o “E” maiúsculo para o Espírito, “seres inteligentes da criação.” Vê-se, pois, que o animal caminha para a condição de homem, tanto quanto o homem evolui no encalço da angelitude.

 A questão n° 600 de O Livro dos Espíritos elucida que o princípio inteligente após deixar o corpo material fica em uma espécie de erraticidade, mas não está ligado ao corpo e renasce quase imediatamente, não tendo tempo para se relacionar com outras criaturas.

             O pensamento dos animais

            André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, assim se expressa quando indagado se dentre todos os animais superiores, abaixo do homem, qual é o detentor de mais dilatadas ideias-fragmentos:

“- O assunto demanda longo estudo técnico na esfera da evolução, porque há ideias-fragmentos de determinado sentido mais avançadas em certos animais que em outros. Ainda assim, nomearemos o cão e o macaco, o gato e o elefante, o muar e o cavalo como elementos de vossa experiência usual mais amplamente dotados de riqueza mental, como o a introdução ao pensamento contínuo.”

             No fato narrado do cão cuidador, é fácil observar que já são expressos sinais de pensamento contínuo, derivando daí atenção, julgamento, raciocínio, associação de ideias, memória e imaginação.

            Antes de tomar a decisão de permitir a aproximação dos socorristas  diante do acidentado, o cão cuidador reagiu ferozmente, para depois ceder à aproximação. É óbvio que ocorreu de alguma forma a abstração. Gabriel Dellane, em sua obra Evolução Anímica, assim diz:

 “A faculdade de abstrair, isto é, de tomar conhecimento dos objetos e determinar-lhes as qualidades sensíveis, quais sejam; amarelo, verde, mole, duro, rugoso, liso etc.; a pedra, o animal, a árvore etc.; a espécie de animal - cão, gato, homem; tal espécie de homem, bem ou mal vestido, etc.; todas essas ideias abstratas os animais as possuem, (...)”     

  

            Continua Dellane:

 

“Os animais são, comumente,” suscetíveis de educação, e sua inteligência desenvolve-se em convívio com o homem. Mais interessante, porém, é acompanhá-los em sua evolução pessoal, e constatar que são capazes, por assim dizer, de evolver por si mesmos.”

 

Dra. Irvênia Prada, em sua obra A Questão Espiritual dos Animais, assim se expressa:

 “O sistema nervoso, tanto o do ser humano quanto o dos animais, acha-se organizado morfologicamente e funcionalmente segundo o mesmo modelo ou projeto e tem basicamente as mesmas estruturas, que se apresentam mais ou menos desenvolvidas de acordo com as características próprias de cada espécie.”

 

Os animais e o sofrimento

Diante do vazio nos zoológicos da Alemanha, proveniente da pandemia de COVID-19, os animais se mostravam deprimidos, e um pianista resolveu realizar um concerto no zoológico, para delírio da bicharada. Os animais experimentam emoções de prazer e sofrimento. É de conhecimento de todos que os animais podem sofrer de qualquer tipo de doença. Sejam malformações, câncer, cegueira, hidrocefalia... E, além de sofrimentos físicos, ainda vivenciam medo, insegurança, abandono, solidão e toda forma de crueldade, diz Prada.

O professor Herculano Pires, em O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte, afirma que a dor, em seus múltiplos aspectos, físicos e morais, acha-se entranhada na realidade cósmica e é tida como fator necessário da evolução universal, que decorre dos processos naturais de desenvolvimento das potencialidades genésicas através da passagem da potência a ato. Todo ato é um parto e todo parto é doloroso. Por isso, continua ele: sofre a pedra, sofre o vegetal, sofre o animal e sofre o homem em cada curva implacável do desenvolvimento de suas potencialidades.

Desde 2007 vem se desenvolvendo no Brasil e na China um programa de abate humanitário de animais, poupando bilhões de animais e produção que passam por situações de estresse e de sofrimento desnecessário antes e durante o seu abate.

Em seu novo livro, Bill Gates defende que os países ricos devem consumir apenas carne sintética para enfrentar a crise climática. Em “How to Avoid a Climate Disaster”, publicado recentemente, o fundador da Microsoft oferece um guia sobre como reduzir o aquecimento global, com foco em soluções de tecnologia.

 O animal e as questões espirituais

A obra de Ernesto Bozzano, Os Animais têm Alma?, o autor apresenta centro e trinta casos de manifestações de assombrações, aparições e fenômenos supranormais com animais.

A questão espiritual dos animais é intrigante. Nos EUA, um médico do Centro de Reabilitação para Idosos de Providence relata que quando o gatinho Oscar visitava o Centro e ia ao leito de um paciente, a equipe já ficava de prontidão. Em 2007, ano da reportagem, o Oscar já tinha previsto 25 mortes dos residentes.

Já ficou demonstrado que esse princípio inteligente sobrevive ao decesso físico. Bozzano estudou as manifestações supranormais dos animais após a morte. Vê-se os atributos premonitórios do gatinho Oscar.

Os animais também reencarnam, conforme está dito na questão 600 de O Livro dos Espíritos, quase que de imediato.

O livre-arbítrio dos animais é limitado pelas suas necessidades – questão 595 de O Livro dos Espíritos – sendo sua liberdade restrita aos atos da vida material. Portanto, sua evolução é pela força das coisas. Para eles não existe a expiação – questão 602 – L.E.

A exemplo dos homens é comum que os animais retornem aos arranjos familiares que antes cuidavam deles. O próprio Chico Xavier relata uma situação ocorrida com seu cãozinho de estimação, Dom Pedrito, que desencarnou por força de um atropelamento.

Certa feita, Chico Xavier transitava em via pública, quando foi alertado pelo Espírito Emmanuel acerca de um cãozinho que o seguia. Emmanuel revela que aquele cãozinho era Dom Pedrito, que havia reencarnado e Chico o acolheu e denominou-o de Brinquinho. Este, após adoecer e morrer, retornou ao lar de Chico Xavier, ele comunicou isso a Ranieri, que registrou na obra Chico Xavier, O Santo de Nossos Dias, inclusive reconhecendo o caixote onde dormia e repetia as mesmas travessuras de Brinquinho.

Apesar de ainda encontrarmos muito gatos e cachorros abandonados na via pública, é certo que ocorre um progresso considerável na relação homem e animal. O Brasil ostenta o segundo lugar no mercado pet do planeta, com padaria, cervejaria e até terapia para animais.

Os pets hoje assumiram uma posição de destaque dentro dos arranjos familiares. Não deixa de haver excessos, contudo, é melhor errar por excesso de amor do que adotar atitudes de maus tratos com os animais.

 

Referências:

BOZZANO, Ernesto. Os animais têm alma? Rio de Janeiro: LACHÂTRE, 1998.

DELLANE, Gabriel. Evolução anímica. Brasília: FEB, 1998.

KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

PIRES, J. Herculano. O mistério do ser ante a dor e a morte. São Paulo: Paideia, 1990.

PRADA, Irvênia. A questão espiritual dos animais. São Paulo: FEB, 2005.

XAVIER, Francisco C. Evolução em dois mundos. Brasília: FEB, 1991.

 

 

SITES

<https://www.worldanimalprotection.org.br/nosso-trabalho/animais-de-producao/abate-   humanitario-reduzimos-o-sofrimento-dos-animais>.

 

<https://exame.com/invest/para-bill-gates-paises-ricos-devem-comer-apenas-carne-sintetica/>.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

CANDOMBLÉ, ESPIRITISMO E A LIBERDADE DE SER: O QUE A FALA DE MAJUR NOS ENSINA

  Por Wilson Garcia   A entrevista que a cantora Majur deu ao programa  Desculpa Alguma Coisa , com Tati Bernardi, vai muito além de um papo sobre música ou carreira. O que ela compartilhou ali é uma oportunidade rara para a gente refletir sobre coisas profundas: liberdade de consciência, identidade espiritual, pertencimento e intolerância religiosa.               Quando Majur conta como se aproximou do Candomblé, não está falando só de uma escolha religiosa. Ela fala de um processo de emancipação pessoal. Ao dizer que deixar o ambiente evangélico não significou abandonar Deus, mas sim se libertar de uma prisão, ela expõe algo que muita gente vive: a busca por uma espiritualidade que faça sentido com quem a gente realmente é.

O ESPIRITISMO DE VIDRO: O MEDO DO CONFLITO E A FALSA MANSIDÃO

       Por Jorge Luiz                    A Redoma de Vidro e o Estereótipo Anestesiado             Existe uma coreografia muito bem ensaiada nos salões do espiritismo hegemônico contemporâneo. Ela é composta por tons de voz milimetricamente sussurrados, sorrisos condescendentes que flutuam acima das misérias do mundo e uma gramática da passividade que confunde o torpor com a iluminação. Criou-se uma caricatura de santidade, um verdadeiro "espectro" encenado onde o indivíduo adota uma persona ritualística: distribui abraços, beijos e tapinhas nas costas dentro dos limites do centro espírita, mas desliga o afeto institucionalizado assim que cruza a porta de saída. Esse "bom espírita" tornou-se aquele sujeito plasticamente pacificado, incapaz de se alterar diante da injustiça, que assiste ao desmonte dos direitos sociais mais básicos da janela de seu apartam...

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MORAL ESPÍRITA: A AUTONOMIA

                Por Maurício Zanolini               O psicólogo do desenvolvimento Yves de La Taille estuda o o processo de aprendizagem da moral nas sociedades humanas. Ele explica que a moral é a restrição da liberdade dos indivíduos para que possam viver em sociedade e que cada sociedade desenvolve seus próprios códigos de conduta. A família portanto é o núcleo mais básico onde esse código será vivenciado pela criança que está aprendendo a moral. Mas para além da família, a religião, a cultura e as tradições que compõe o que é socialmente aceito para um determinado agrupamento de pessoas, serão as influências responsáveis pela formação moral da criança. Podemos incluir a escola e o Centro Espírita nesse círculo de influências formativas.

CROMOTERAPIA NA CASA ESPÍRITA: UM SISTEMA SEM AMPARO NA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

    Sala de cromoterapia no Colônia Fraternal Bom Jesus - Centro Espírita no Ipiranga (SP)   Por Jorge Hessen                Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra  Plenitude . Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.             Em  Plenitude , Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

ILUMINANDO A CAVERNA (*)

Por Roberto Caldas (*) Platão (Atenas – 428 a 347 AC) numa de suas mais lidas obras, A República, transcreve um diálogo socrático que passou para a história como A alegoria da Caverna. Nesse diálogo o filósofo Sócrates (469 a 399 AC) conversa com Glauco a respeito da forma como se pode ver o mundo a partir das posições adotadas em determinadas circunstâncias. Ele fantasia uma caverna onde homens presos pelos pés e pela cabeça se encontram de costas para a abertura da mesma e só podem ver o mundo através das sombras projetadas em uma parede à frente criadas por uma fogueira que se encontra às suas costas. Daí eles nada vêem ou sabem além do que aquelas sombras projetam e a compreensão do mundo não passa senão das percepções que têm daquelas imagens. Então, uma daquelas pessoas é solta e levada para conhecer além das sombras projetadas, conhece o fogo que tinha às costas, vê as pessoas que passavam e tinham as suas imagens projetadas, alcança a abertura da caverna e e...

OS ESPÍRITAS FAZEM PROSELITISMO?

  Por Francisco Castro (*) Se entendermos que fazer proselitismo é montar barracas em praça pública, fazer pessoas assinar fichinha, ou ter que fazer promessa de aceitar essa ou aquela religião? Por outro lado, se entendermos que fazer proselitismo significa fazer visitação porta a porta no sentido de convencer alguém, ou de fazer com que uma pessoa tenha que aceitar essa ou aquela religião? Ou, ainda, de dizer que essa ou aquela religião é a verdadeira, ou de que essa ou aquela religião está errada? Não. Não, os Espíritas não fazem proselitismo! Mas, se entendermos que fazer divulgação da existência da alma, da reencarnação, da comunicabilidade dos Espíritos, da Doutrina dos Espíritos, do Ensino Moral de Jesus e de que ele é modelo e guia da humanidade e não de certa parcela de uma nacionalidade ou de uma religião? A resposta é sim! Os Espíritas fazem proselitismo sim! Qual seria então a razão de termos essa grande quantidade de jornais e revistas espírita...

UNIFICAÇÃO OU ECUMENISMO?

“Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é preciso também a essas eu conduza; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um único pastor. Jesus ( Jo, 10:16)             A Ilíada de Homero (750 a. C.), uma das epopéias da literatura grega, oferece-nos o episódio do cerco a que foi submetido os troianos, e que durou cerca de 10 anos, somente vencidos em decorrência da astúcia do herói Ulisses, que constrói grande cavalo de madeira, abandonado às portas de Tróia, após fingir retirada. Apesar dos presságios de Cassandra, o cavalo é introduzido na cidade que trazia em seu ventre os guerreiros de Ulisses. Aberta as portas, os gregos investem sendo Tróia completamente saqueada e destruída.           Classifico o episódio de suma importância para nos incitar a reflexões profundas acerca do momento que atravessa o Movimento Espírita.   ...