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ENTREVISTA : FILIPI ALBANI - COLETIVO DE ESTUDOS ESPIRITISMO E JUSTIÇA SOCIAL(CEJUS)

 


1)    O que é ser espírita progressista, já que o Espiritismo é uma doutrina progressista?

 

Acaba sendo um pleonasmo necessário ante os rumos que vemos que o movimento espírita brasileiro institucionalizado está tomando. É cada vez mais clara a adoção disfarçada dos temas e atitudes da extrema-direita, como a bajulação a políticos comprometidos com uma agenda equivocada em todos os sentidos, bem como uma agenda de costumes desconectada da realidade e da academia, como a “ideologia de gênero”. Chega a ser desolador olhar os rumos que o movimento espírita vem tomando, bem como o silêncio ante avanços que estávamos tendo – não há notas de esclarecimentos sobre vacinas nem sobre esses equívocos, deixando “passar uma boiada” perigosa, colocando-nos novamente no rumo da perdição acontecida no século IV: em nome da aliança com movimentos cristãos equivocados, porém fortes política e financeiramente, deixam-se de lado os ideais cristãos e espíritas originais, deixados por Jesus e Kardec.

Assim, ser espírita progressista é pensar num Espiritismo pé no chão, tendo por base a obra de Kardec, resgatando seu ideal, andando com amor no coração e com vontade de transformar as estruturas da sociedade.

 

2)    Como e por que surgiu esse movimento?

2018 foi um marco para todo o movimento espírita. Naquele fatídico congresso de jovens em Goiás, Divaldo Franco decidiu colocar-se em um lado perigoso, colocando o movimento espírita atrelado à quadrilha agora descoberta por conta da Vaza Jato. Por mais que o movimento espírita não tenha um líder, Divaldo é tratado como um guia e modelo pela FEB, assim como todos os seguidores; seu poder de influência, de lá para cá, está cada vez mais assumido com essa agenda extremista de direita, da qual não somente eu como diversos pensadores e estudiosos espíritas discordamos.

Lembramos que, em nenhum momento, a ideia desse movimento é romper com o movimento espírita, como muitas vezes nos acusam, mas sim lutar para que o movimento espírita retome as bases fundamentais.

Como os espíritas são plurais, há sempre os mais radicais, como aqueles que preferem o retorno somente às obras de Kardec, e os mais moderados, que procuram aproveitar algo que possa ser considerado bom nas obras posteriores.

O fato a ser exposto é que não é possível aceitar tudo que um palestrante ou Espírito fala somente porque um médium é considerado infalível – isso é vaidade e fundamentalismo, duas palavras que não deveriam pairar dentro do movimento espírita. Tudo deve passar pelo bom senso e estudado com criticidade exatamente para não cairmos em novos erros, maiores do que os que já cometemos.

 

3)    Quantos grupos progressistas existem no Brasil?

Segundo Luiz Signates, existem 22; contudo, creio que existam mais, em grupos bem pequenos. Com a internet, praticamente todos podemos criar coletivos espíritas com propostas de estudos e ações específicas.

 

4)    O que procurou demarcar o lançamento do Manifesto por um Espiritismo Kardecista livre? Existe um Espiritismo, não Kardecista?

Como diria Sérgio Aleixo, Kardec, dentro do movimento espírita atual, é um grande quadro na parede, servindo apenas para embasar as obras subsidiárias, e não o contrário.

Basta entrar em uma casa espírita para percebermos o quanto são valorizados os estudos de diversas obras, menos as fundamentais – quando muito, estudam-se o Livro dos Espíritos e o Evangelho Segundo o Espiritismo; as outras obras são consideradas difíceis, e deixadas de lado. Mesmo as reuniões mediúnicas não estudam o Livro dos Médiuns, e o modelo que se segue é o imposto pela FEB.

Assim, a ideia de um movimento espírita kardecista livre seria exatamente ter a liberdade de estudar as obras de Kardec sem ficarmos atrelados a uma orientação oficial, imposta com apostilas e manuais contaminados com ideias rustenistas e enxertados com informações provenientes de doutrinas incluídas por Leymarie após a desencarnação de Kardec.

Por outro lado, Aleixo nos lembra que existem outros espiritismos que não são Kardecistas, como o próprio que a FEB produz: Haroldo nos traz um espiritismo emanuelista; a FEB, andreluizista, Divaldo, divaldista, e por aí vai. Outros médiuns mais modernos, com a desculpa de estabelecer pontes com outras doutrinas, repetem erros cometidos na adoção sem senso crítico de obras de Emmanuel, Humberto de Campos e André Luiz, produzindo uma quantidade de obras que não conseguem ter a densidade e a qualidade que Kardec nos deixou.

Além desses, se pensarmos nas doutrinas que trabalham com a mediunidade, podemos ter diversas vertentes espíritas / espiritualistas.

 

5)    Nesse contexto atual, como ficam os mandamentos espíritas do Amai-vos e Instruí-vos?

Creio que esses mandamentos estão postos à prova de maneira mais evidente do que nunca. A história do espiritismo, especialmente no Brasil, teve esses mandamentos expostos e postos à prova de maneira absolutamente evidente. Estudando a tese No princípio era o verbo¸ de Célia Arribas, lidamos com uma situação bastante delicada de embates, muito parecido com os acontecidos nos primeiros anos do cristianismo, que nunca foi único nem monolítico. O espiritismo também nunca foi.

Em nome de nos amarmos, negligenciamos um pouco a devida instrução; contudo, a instrução deveria servir para nos amarmos melhor. No entanto, o cuidado que a instrução nos coloca é exatamente o lidar com nossa vaidade, vertente do orgulho – por isso, muitas vezes me calo sobre minha formação, e, quando posso, tento trazer um ou outro esclarecimento em particular; no entanto, ante o movimento espírita brasileiro institucionalizado, percebo que essas atitudes não são exatamente as mais bem vistas: valorizam-se juízes, professores universitários e médiuns trazendo obras empoladas em vez de permitir que outras vozes possam mostrar versões diferentes, permitindo que os espíritas desenvolvam seu senso crítico. Não podemos nos esquecer de que Kardec, na sua obra Catálogo racional de obras para se fundar uma biblioteca espírita abre espaço para obras contrárias à doutrina espírita exatamente para que não aceitássemos a doutrina espírita de maneira acrítica.

 

6)    Aspectos que eu encaro com uma preocupação decisiva são a União e a Unidade de Princípios. Fale alguma coisa!

Ainda estamos todos os coletivos em iniciativas muito particulares e com trabalhos muito esparsos. Nesse ponto, temos tido algumas dificuldades de entendimento por parte de ideias divergentes algumas vezes.

De certa forma, isso é parte dos problemas que acabam tornando os movimentos de esquerda tão difíceis em todos os sentidos. Os entendimentos são complicados porque somos distintos, e acabamos levando nossos conhecimentos mais a ferro e fogo, em vez de simplesmente pararmos para escutar o outro.

Por exemplo, o movimento negro está incomodado com o racismo presente em Kardec. Não há como não debater esse assunto de forma profunda, mas ainda há dificuldades dos cultores da obra de Kardec em rever esses posicionamentos; é preciso discutir esse tema e chegar a um denominador comum; não podemos fugir desse debate.

Da mesma forma, há dificuldades de entendimento e aceitação da transexualidade e dos conceitos de identidade de gênero – percebo que o movimento tem lidado bem com as diferenças de orientação sexual, com algumas exceções; contudo, por não escutarmos homens e mulheres trans e não-bináries, estamos deixando de lado de entender esse grupo, afastando alguém que precisa de acolhimento e entendimento.

E novamente temos outro debate complicado, que é a abordagem científica, para uma atualização necessária. De certa forma, é importante que procuremos deixar nossas vaidades de lado e escutar tudo que as pessoas em seus lugares de fala têm a nos dizer; se houver equívocos doutrinários dentro dos lugares de fala, também devemos trazer para o debate para chegarmos ao denominador comum.

Os grupos em separado podem satisfazer a necessidade do estudo, pois grupos menores podem se conhecer bem e se entender de maneira mais tranquila; contudo, como movimento, precisamos nos entender para evitar novas separações e divergências que nos levem a embates desnecessários, pois todos queremos a mesma coisa: um movimento espírita amoroso e conectado com a realidade.

 

7)    Eu vi esse movimento com bons olhos. O movimento espírita brasileiro não acompanhou as macrotendências do Mundo. Comente alguma coisa acerca desse tema.

Desde que a Federação Espírita Brasileira decidiu se colocar como líder do movimento espírita brasileiro, praticamente estamos nos comportando como uma grande seita religiosa, não como um movimento que deveria andar a par e passo com a ciência nem conectado com a realidade das populações. Fora do Brasil, o espiritismo é apresentado como ciência, filosofia e moral, não como religião; aqui, é somente mais uma religião com pouca repercussão social, apesar de ser o terceiro maior grupo religioso do Brasil.

Mesmo setores que se colocam ao lado da ciência ou setoriais, como Associações médico-espíritas, jurídico-espíritas, físico-espíritas, não têm feito exatamente muito progresso nem na ponte com a ciência nem na ética – cadê a associação dos magistrados espíritas falando sobre as farsas da lava-jato? E os jornalistas espíritas sobre o linchamento promovido contra reputações diversas? Ficamos com a paz dos cemitérios?

A maior parte dos membros do movimento espírita é composta por pessoas com ensino superior e de classe média alta. O que parece ser interessante, se pensarmos na possibilidade de troca de ideias e estratégias de estudos, tornou-se um problema se pensarmos em avanço de mudanças estruturais necessárias para que as pessoas de classes populares pudessem avançar, diminuindo as desigualdades sociais – sendo o Brasil o local onde ela é a maior em todo o mundo.

Certamente ainda há muito para conhecermos nas macrotendências do Mundo, e é muito importante quando sabemos que várias pessoas em terras estrangeiras estão nos coletivos, ajudando-nos a ampliar os horizontes, sem manipulações da imprensa corporativa nem do movimento espírita institucionalizado.

 

8)    O nosso modelo de Centro Espírita tem algo em torno de 160 anos, sem nenhuma transformação. Você não acha muito limitante para o Espiritismo como proposta de transformação da Humanidade?

Eu não sei se o modelo que temos chegaria a ter 160 anos, porque boa parte do que temos hoje é praticamente moldado por Bezerra de Menezes (leitura inicial, passe, água fluidificada, assistência social) e Edgard Armond (todas as referências orientais que hoje estão na doutrina tem sua influência).

Penso que precisamos realmente refletir sobre mesmo a necessidade da existência do centro espírita: estudo e prática social. A área de assistência social talvez seja a que mais necessite de reavaliação: as pessoas procuram o centro espírita por alimentos, mas não estudam a doutrina; será que elas querem receber esse conhecimento? E o que elas necessitam realmente? De que forma podemos promover a emancipação social desses irmãos, escornados, alijados da sociedade em todos os sentidos?

Quem de nós tem condições e coragem de entrar nesses locais e ver as condições em que essas pessoas vivem? Será que não é possível tentar pensar em programas de economia solidária? Cooperativas?

Mesmo as que promovem cursos profissionalizantes, será que esses cursos conseguem a inserção desses irmãos no mercado de trabalho?

Quanto a atividades de estudo, poderíamos ampliar para o estudo de todas as obras de Kardec; no entanto, isso dependeria de trabalhadores e interessados, o que nem sempre é possível, já que os horários em que geralmente as pessoas estão disponíveis são noturnos, e ir todo dia para a casa espírita nem sempre parece um programa agradável para muitas pessoas.

Por outro lado, a pandemia obrigou boa parte das casas a se adaptar às novas tecnologias, procurando promover reuniões on line, e retomando, ainda que de maneira tergiversada, o retorno ao espiritismo nas casas.

Nas sessões por redes sociais, indiretamente cunhei uma expressão chamada “Casa espírita expandida”, que acaba sendo a imagem de trazer todo o ambiente da casa para os lares. De certa forma, os coletivos já estavam nesse caminho e se transformaram em instituições espíritas virtuais. Não duvido de que esse seja o futuro do movimento espírita: trazê-lo aos nossos lares de alguma forma.

 

9)    Como você enxerga a relação dos espíritas com a política?

É uma relação absolutamente hipócrita por parte do movimento institucionalizado. Quando abordamos pautas progressistas ou críticas, o debate é absolutamente boicotado ou proibido; quando Divaldo louva Moro e Bolsonaro, somos proibidos de manifestar nossa contrariedade, sob pena de sermos considerados obsidiados e desarmonizar o ambiente.

Quando colocamos nossa postura crítica sobre esses movimentos, somos considerados separatistas; porém, quando vemos a defesa de terraplanismos e negacionismos ante verdades históricas, mesmo a vida das pessoas, um silêncio absoluto exatamente para não contestar quem está no comando da nação.

Enquanto isso, Kardec fica completamente esquecido. Parodiando George Floyd, não conseguimos respirar nesse ambiente tóxico. Não queremos transformar os púlpitos em palanques nossos, mas também não podemos aceitar de maneira silenciosa essa promiscuidade do movimento espírita institucionalizado com os políticos que se escondem sob a máscara da religião para massacrar a população. São os mesmos que criticavam o bolsa-família, mas se calam ante os escândalos do desgoverno.

 

10)  Você acha que o viés religioso igrejeiro assumido pelo movimento espírita brasileiro não proporcionou esse viés retrógrado e conservador entre os espíritas³

Certamente está correlacionado. Essa visão acrítica, aceitando tudo que vem de palestrantes e Espíritos supostamente elevados torna o Espiritismo praticamente uma nova igreja tradicional, ainda que com rituais mínimos (leitura acrítica de páginas, geralmente de Emmanuel, passe e água fluidificada).

O que mais preocupa é a adoção da agenda da extrema-direita como se fosse algo absolutamente natural – não se espantem se, em breve, aceitarem armamentos e tortura como parte do processo de purificação da humanidade.

Se acaso acontecer um rompimento, não será por culpa nossa, mas sim pela obstinação em fugir dos postulados espíritas, bem como um projeto de poder iniciado no século XIX e que vem se esfacelando com o decorrer do tempo. Não me surpreenderei se o movimento espírita institucionalizado cair em desgraça, porque o sentido que estamos vendo falta pouco, muito pouco.

A doutrina espírita não é somente para consolo, mas sim para esclarecimentos. Se não houver esse espaço para esclarecimentos com base em Kardec, certamente estaremos a caminho de ser uma doutrina de autoajuda complementada por passes e água fluidificada, como se apenas isso fosse espiritismo.

O espiritismo é muito mais do que isso que é apresentado, como romances fotocopiados e embotados, fantasiando uma vida espiritual, desestimulando uma ação no plano físico. O espiritismo está para nós como doutrina que abra os nossos olhos, a fim de modificarmos a realidade terrena.

Comentários

  1. Penso que precisamos refletir bastante sobre o que nós chamamos de Movimento Espírita Brasileiro. Será que não estamos fazendo um Movimento Espírita meio Igrejeiro? Será que estamos colocando em prática, na vida pessoal e profissional, a Doutrina Espírita conforme os Espíritos Superiores nos ditaram? O Filipi Albani está colocando o tema para discussão. Aceitamos o debate?

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