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SÃO DOS OUTROS



Filósofo dos mais festejados no século XX, Jean-Paul Sartre (1905-1980) defendia o existencialismo ateísta.

Segundo ele, compete ao Homem decidir seu destino, definindo a respeito de sua vida, interesses, realizações… Está entregue à própria sorte. Depende, exclusivamente, de si mesmo.

O filósofo descarta a presença divina, exaltando a deusa liberdade, que deve sobrepor-se a crendices e superstições.

Proclama em As Moscas: Uma vez explodida a liberdade na alma de um homem, contra esse homem nada mais podem os deuses.

 ***

Que nos compete o governo de nossa vida não padece dúvida. Somos seres pensantes, conscientes da própria existência e da capacidade de discernir que nos distingue dos macacos, embora muita gente insista em macaquices.

O grande equívoco exprime-se na pretensão de que somos os senhores de nosso destino.  Sem admitir um Criador, um Senhor Supremo que tudo vê, tudo sabe, tudo pode; que nos fez imortais e nos reserva gloriosa destinação, além da humana experiência, há dois problemas.

Primeiro: Não há estímulo para caminhar. Se efêmera é a existência, diluindo-se nossas esperanças no aniquilamento do corpo, por que lutar, sofrer, enfrentar problemas, contrariedades, dissabores? Para que viver? Melhor apressar o fim, convocando a morte pelo correio do suicídio.

Segundo: Não há disciplina para a caminhada. Se estamos entregues à própria sorte, tudo nos é lícito – não há comprometimentos morais. Tenderemos a centralizar nossa existência em torno de interesses pessoais, abstraindo o envolvimento com as carências alheias, sem iniciativas que envolvam o bem estar do semelhante. Este será sempre um incômodo, um entrave ao exercício da liberdade.

Por isso, proclamava Sartre, naquela que é a sua frase mais célebre, de humor negro: O inferno são os outros.

 ***

Curioso como a cultura mal orientada pode levar a intoxicações intelectuais, gerando ideias desastrosas, ainda que, em princípio, não seja essa a intenção do pensador.

Pode até guardar nobres objetivos, como, supõe-se, acontecia com o ilustre filósofo, a quem creditamos legítima preocupação com as mazelas da sociedade humana.

Certamente, vivendo as realidades espirituais, além-túmulo, Sartre estará lamentando que muitas das loucuras e dos desajustes da sociedade ocidental de após guerra, aconteceram a partir de suas ideias.

Observe, leitor amigo: Sartre está na contramão do Evangelho. Tanto o inferno quanto o Céu, na perspectiva evangélica, são estados íntimos, realizações interiores.

Explica Jesus (Lucas, 17:21): …o Reino está dentro de vós.

O inferno também, sem dúvida, dependendo de nossas edificações interiores.

Ambos vinculam-se a dois sentimentos:

Egoísmo – o inferno. Centralização de nossas iniciativas em torno de nós mesmos, de nossos interesses pessoais, o que nos faz perder a sintonia com as fontes da Vida, com a harmonia do Universo. O próximo será sempre um estorvo, uma ameaça à nossa liberdade.

Altruísmo – o Céu. Esforço em favor do bem-estar alheio, uma espécie de estender de mãos, transformadas em antenas para captar as bênçãos de Deus.

E quanto mais nos empenhamos nesse sentido, mais livres nos sentimos, em relação a mazelas e viciações, realizando aquele céu interior, que se expande quando ampliamos o universo de beneficiários do nosso esforço.

Assim, se com o altruísmo nos realizamos como Espíritos imortais, se o próximo é uma ponte para Deus, podemos proclamar, tranquilamente, o inverso do que supunha Sartre com sua vã filosofia: O Céu são os outros!

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