Pular para o conteúdo principal

A PRISÃO DO DOGMATISMO E A TOLERÂNCIA ZERO! QUEM É SOCIALISTA DEVE IR PARA CUBA?



Num tempo de polarizações simplificantes, superficiais e cheias de ódio, seria interessante fazermos aqui algumas reflexões sobre os malefícios do dogmatismo, do fanatismo e da intolerância, mas sobretudo, sobre o como e o porquê as pessoas se tornam assim.

Não interessa que tipo de dogmatismo fanático que alguém assuma – pode ser religioso, filosófico, político e, pasmem, até mesmo científico – essa atitude mental é sempre limitante e problemática.


A primeira coisa que devemos ter em mente é que ninguém no mundo, em nenhum assunto, possui a verdade absoluta. Se um ser humano, falível, com seu viés histórico e cultural, se acredita possuidor de uma verdade absoluta e não sujeita à crítica, abre-se a primeira porta para a intolerância e para o fanatismo. E do fanatismo à violência, o passo é rápido, quase inevitável.

A questão é: aquele que se põe como detentor de uma verdade acima de qualquer questionamento (e se não houvesse questionamentos às verdades relativas que adotamos no decorrer da história, ainda estaríamos milênios atrás), certamente não possuirá argumentos para garantir essa suposta verdade absoluta. Assim vai se sentir ameaçado com a crítica, com a dúvida do outro, com a contestação, e numa reação emocional, desesperada, para agarrar-se à segurança de algo que não é seguro, reage com violência e vai querer impor pela força aquilo para o que não há argumentos irretorquíveis.

O dogmatismo, portanto, é um pensamento fechado, que roda em círculos, que não está disposto a aprender nada, que fica num horizonte emocional de fragilidade psíquica, que a qualquer hora pode se manifestar de forma agressiva, como tentativa de assegurar o que nunca será seguro.

O conhecimento para avançar, para chegar cada vez mais perto de verdades plausíveis (pois não compactuo com a ideia pós-moderna da impossibilidade de qualquer verdade e conhecimento), precisa se dispor sempre à abertura, sempre à revisão de si mesmo. Para isso, a pessoa precisa estar munida de maturidade psíquica (para conseguir desidealizar seus mestres, seus ídolos, seus sistemas de pensamento, sejam políticos, religiosos ou o que for), precisa estar de posse de uma segurança emocional interna. Porque, para mudarmos de posição diante de uma ideia ou de um paradigma, é preciso coragem, humildade e integridade moral e intelectual.

Isso, estamos falando no campo de pessoas religiosas, políticas ou que adotem uma determinada tendência ideológica e que se aferram a isso com unhas e dentes (o que revelam o medo inconsciente de que estejam erradas.)

Mas, agora, analisemos as milhares de pessoas que estão nas redes sociais, destilando ódio, bravatas, palavrórios de intolerância generalizantes… Essas pessoas, na maioria das vezes, nem sabem do que estão falando.

Vejamos um exemplo, de que pretendemos falar em nosso próximo curso pela Universidade Livre Pampédia. O tema é socialismo. O simples anúncio do assunto já causa uma rejeição agressiva de pessoas nas redes sociais – sendo que, tratando-se de uma Universidade Livre, temos o direito e o dever de analisar, ensinar, discutir e dar voz a todas as formas de pensamento. Precisamos estudar, inclusive para criticar e questionar. Aliás, é esse mesmo o objetivo da Universidade Livre. Ora, o socialismo é um movimento e um pensamento multifacetado (socialismo utópico, anárquico, cristão, marxista etc.), que se iniciou nos primeiros anos do século XIX (portanto antes do nascimento de Marx, mais de 100 anos antes da Revolução Soviética). Ou seja, até para entendermos a história e por onde caminhamos em práticas e ideias, é imprescindível se estudar.

Mas… o que fazem as pessoas, no mundo do Facebook, no mundo surreal da completa indigência cultural? Gritam, vociferam, repetindo slogans antigos, da década de 60: como “vai para Cuba”, “precisamos livrar o mundo dos comunistas” e assim por diante. Conhecimento? Educação e civilidade? Maturidade psíquica e emocional? Não há. Porque no mundo cada vez mais raso em ideias e em profundidade de conhecimento, pequenas e rasas generalizações se tornam palavras de ordem e acabam por fazer muito barulho, semear muita discórdia, mas não contribuem em nada.

Veja-se por exemplo, um dos primeiros socialistas (senão o primeiro) que aparece na história, no comecinho do século XIX (Marx ainda não havia nascido): o Conde de Saint-Simon. Historicamente ele é reconhecido como alguém que influenciou os socialistas (incluindo Marx e Engels), os liberais, os positivistas (o próprio Augusto Comte foi seu colaborador) e até uma filosofia contemporânea, de um pensador francês chamado Pierre Musso: filosofia da rede. Na época de Saint-Simon, ele considerava que os seres humanos estavam conectados pelas mesmas leis da natureza, como a lei da gravidade e hoje, estamos conectados pelas redes sociais – essas mesmas que formam uma arena de gladiadores armados de xingamentos estéreis. Ora, um homem desses cabe num rótulo, numa generalização, numa rejeição raivosa?

Diante de tudo isso, dá para ver que o dogmatismo e o fanatismo (que estão à direita e à esquerda – por exemplo, marxistas ortodoxos considerem os socialistas utópicos, utópicos – pois foi Marx que assim os classificou – que estão entre muçulmanos e evangélicos, entre espíritas e ateus…) são sempre uma incapacidade de enxergar a complexidade do real e saborear a fecundidade das diferentes perspectivas.

A única coisa em que deveríamos ser, senão dogmáticos, mas pelo menos firmes e inflexíveis, seria o respeito que devemos uns aos outros e a nossa intenção de amar o próximo como a nós mesmos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

A FÓRMULA DA FELICIDADE

    Por Marcelo Henrique   A felicidade é “Para a vida material, a posse do necessário; para a vida moral, a consciência pura e a fé no futuro” (resposta ao item 922, de “O livro dos Espíritos”). ***               A felicidade parece ser a maior busca da humanidade. Ser feliz é a pretensão, o desejo, a aspiração, o projeto de vida de cada criatura, presente praticamente em todos os discursos ou quando o indivíduo seja perguntado a respeito do que deseja da vida. Há que se distinguir, todavia e inicialmente, felicidade e alegria. Esta última corresponde a instantes, momentos que têm duração variável e que pertencem ao âmbito dos sentimentos derivados de experiências específicas, onde se pode compreender o alcance das emoções. Já a felicidade… Ah, esta corresponde a um ideal de inspiração, como se, figurativamente, estivéssemos diante da linha de chegada de uma competição esportiva ou o ápice de uma monta...

LIVRE-ARBÍTRIO E MOBILIDADE SOCIAL

      Por Marcelo Teixeira                Ouvi de um motoboy, a quem chamarei de Dario, um depoimento que me sensibilizou. Disse ele, entre triste e revoltado, que não vislumbrava perspectivas de uma vida melhor para ele e família, apesar de trabalhar de sol a sol. A rotina massacrante e cansativa o fazia sair de casa todas as manhãs na esperança de tempos ditosos; no entanto, acabava sempre fazendo o mesmo trabalho para pagar as mesmas contas e seguir sempre no mesmo ritmo, sem expectativa de algo diferente que lhe permitisse voltar a estudar, adquirir a casa própria ou realizar outro sonho que dependesse de juntar algum dinheiro. Uma vida que se limita a cruzar a cidade de motocicleta, fazendo entregas, num périplo que dura aproximadamente 12 horas por dia.               Tal depoimento me instigou a pensar de forma mais acurada na questão do livre-arbítrio, tema so...

CROMOTERAPIA NA CASA ESPÍRITA: UM SISTEMA SEM AMPARO NA CODIFICAÇÃO KARDEQUIANA

    Sala de cromoterapia no Colônia Fraternal Bom Jesus - Centro Espírita no Ipiranga (SP)   Por Jorge Hessen                Periodicamente ressurge no movimento espírita a tentativa de justificar a implantação da cromoterapia nas atividades da Casa Espírita, apoiando-se em referências de Joanna de Ângelis, especialmente na obra  Plenitude . Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo na Codificação e desconsidera o método científico-doutrinário estabelecido por Allan Kardec.             Em  Plenitude , Joanna de Ângelis menciona a helioterapia e faz alusões à cromoterapia no contexto da preservação da saúde física e psíquica. Em nenhum momento, porém, recomenda sua adoção como prática institucional do Espiritismo. Há profunda diferença entre reconhecer a existência de um recurso terapêutico e convertê-lo em atividade da Casa Espírita.

LIVRE PENSAMENTO, LIVRE CONSCIÊNCIA

    Por Doris Gandres                     Há séculos e mais séculos vem a humanidade lutando dos mais diferentes modos e por meios os mais diversos por liberdade; no entanto, nem sempre usando as ações mais apropriadas que a pudessem conduzir à tão sonhada liberdade, ainda que somente no aspecto material, terreno...             Mesmo civilizações, nações e países onde muitas vezes, aparentemente, reina a liberdade, sob uma análise e uma observação mais acuradas, encontramos muitas circunstâncias, situações e condições onde vige pressão, opressão, cerceamento, coação e censura. E não podemos falar apenas do ponto de vista geral, social, de cidadania, de direitos humanos etc, mas também de segmentos religiosos e, nesse campo, lamentavelmente, o meio/movimento espírita não está excluído, o que me parece profundamente contraditório quando se tem algum conhecim...

UNIFICAÇÃO OU ECUMENISMO?

“Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; é preciso também a essas eu conduza; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um único pastor. Jesus ( Jo, 10:16)             A Ilíada de Homero (750 a. C.), uma das epopéias da literatura grega, oferece-nos o episódio do cerco a que foi submetido os troianos, e que durou cerca de 10 anos, somente vencidos em decorrência da astúcia do herói Ulisses, que constrói grande cavalo de madeira, abandonado às portas de Tróia, após fingir retirada. Apesar dos presságios de Cassandra, o cavalo é introduzido na cidade que trazia em seu ventre os guerreiros de Ulisses. Aberta as portas, os gregos investem sendo Tróia completamente saqueada e destruída.           Classifico o episódio de suma importância para nos incitar a reflexões profundas acerca do momento que atravessa o Movimento Espírita.   ...