Pular para o conteúdo principal

CARTAS SOBRE NÃO-VIOLÊNCIA (1)


  
Esta é a primeira de uma série que vou escrever semanalmente e publicar simultaneamente nessa minha coluna de Espiritismo Progressista, replicando em meu blog pessoal e no blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita.

Há urgência em se falar sobre o tema, porque a escalada de violência no Brasil está atingindo níveis alarmantes: milicianos no poder, policiais militares invadindo escolas, chutando grávidas nas ruas, e indígenas, negros e ativistas assassinados… e mais recentemente, também pessoas de esquerda clamando que contra tais violências e contra as violências estruturais, antigas, que nos marcam cotidianamente, é preciso reagir com violência.


Começo dizendo que não-violência não é passividade, submissão, indiferença, conluio com o mais forte, aceitação da injustiça. É simplesmente buscar métodos de resistência, de militância, de mudança estrutural e tomada de consciência, que não passem pela mão armada. Isso, segundo todos os que percorreram esse caminho no século XX e os que o anunciaram ainda no século XIX. Entre os últimos, Henry Thoreau, o autor de Desobediência Civil  e Lev Tolstoi, autor, entre outros, de Escravidão Moderna.  Entre os primeiros, Gandhi e Martin Luther King.

Trata-se de uma esquerda que não quer tomar o poder, mas romper com o poder; não colaborar com ele, não se submeter e achar caminhos de ação, que desmontem justamente a estrutura do poder. Pode-se alegar que tais personalidades conseguiram muito pouco, que tinham também seus problemas pessoais. Não endeusamos ninguém e sempre é possível achar defeitos nos melhores. Mas exaltamos a tentativa, o caminho já experimentado e que pode nos servir de inspiração para trilhar outros e criar alternativas.

A violência todos conhecemos sobejamente. A violência pode ser praticada por puro sadismo, por puro banditismo, por pura vontade de submeter o outro. Mas também pode ser apregoada com inúmeras justificativas e com a intenção de consertar o mundo, de estabelecer a justiça e de criar uma nova ordem social. Pessoalmente não me agrada nenhum resultado do que se alcançou com violência, em termos de revoluções, guerras e golpes. Do terror da guilhotina na França aos milhões exterminados nos Gulags estalinistas, tantas vidas humanas arrasadas, para um resultado pífio de justiça. Do outro lado do pêndulo de esquerda/direita, não se pode deixar de mencionar as violências das ditaduras latino-americanas, desumanizantes, absurdas. E ainda todas as intervenções militares do Império Norte-americano, para supostamente promover a democracia – aquela que se move como marionete dos interesses do capital.

As nossas relações humanas, de pais para filhos, de homem para mulher, de heteronormativos para homoafetivos, de brancos para negros, de impérios para nações periféricas – todas passam por extrema violência, em que a integridade da vida humana e sua dignidade são a cada segundo atacadas e pisadas.

Mas… como combater tanta violência? A violência é estrutural do psiquismo humano e por isso não haverá esperança de se superá-la enquanto espécie? Para a psicanálise freudiana, a pulsão de tânatos faz parte de nossa estrutura psíquica e não pode ser arrancada de nós. No máximo, com muita sorte, podemos criar arte e elementos civilizatórios, sublimando nossas pulsões. Mas, no final da vida, bastante pessimista, Freud duvidava se a humanidade conseguiria sobreviver a si mesma – e isso mesmo ele não tendo chegado a testemunhar os horrores do nazismo e da bomba atômica.

Entretanto, é aí que somente uma visão de espiritualidade pode nos acenar com alguma esperança. Para Victor Frankl, que começou como discípulo de Freud, e depois desenvolveu sua própria proposta da Logoterapia – há em todo ser humano, sempre uma dimensão intocada, que não adoece, que é uma espécie de divindade escondida e que pode ser atingida. Essa era também a ideia do maior filósofo de todos os tempos, Sócrates, que pretendia extrair de dentro ser humano essa luz interna, através de seu processo maiêutico, uma espécie de parto espiritual.

Como se vê, são dois pressupostos diferentes a respeito da natureza humana: para uns, não há como o ser humano vencer definitivamente esse primitivismo violento; para outros, há uma garantia, ou pelo menos uma esperança de superação, pela presença do sagrado em nós.

Para terminar essa primeira carta sobre esse tema, quero lembrar de Jesus. Em nome dele, se pratica muita violência, muita opressão, muito desrespeito à liberdade de consciência. Mas ele foi o exemplo do amor. Pagar o mal com o bem, oferecer a outra face, perdoar setenta vezes sete, amar os próprios inimigos… Esse mestre esteve bem longe do conluio com os poderosos, de fazer compromissos com os ricos, com as hierarquias religiosas, com os homens predadores. Foi duro e corajoso contra os que oprimiam e exploravam o povo. Mas também não se uniu aos zelotes numa revolução armada. Se quisesse, poderia se autoproclamar o messias esperado pelos judeus de então, pois muitos deles acreditavam que esse messias viria para os libertá-los dos romanos. Ao invés, sofreu tortura e martírio e mostrou compaixão por aqueles mesmos que o matavam.

Seria essa solução de perdão, entrega, compaixão com os próprios inimigos uma solução viável, eficaz num mundo complexo e violento como o nosso?

Meditemos nisso, até a próxima semana.

*esse texto foi publicado originalmente na coluna Espiritismo Progressista do

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

DARWINISMO ESPIRITUAL E A SOCIOBIOLOGIA DO REINO: A LUTA DE IDEIAS COMO MOTOR DA TRANSIÇÃO

           Por Jorge Luiz                    A Espiral da Transição e o Equívoco do Evento                 Uma celeuma existente no movimento espírita acerca de leituras literais de transições planetárias desviou aquilo que é um processo profundo de adaptação biossocial para a transição vista como um mero evento cronológico. A evolução não se opera em uma constante, mas sim em uma espiral de eventos. A evolução dos mundos está atrelada à evolução dos Espíritos vinculados a eles.             Para compreender esse mecanismo na escala macro, é imperativo analisar o microcosmo das relações humanas. No livro Missionários da Luz (Cap. 13), psicografado por Francisco C. Xavier, o espírito André Luiz relata o grave trauma sofrido por um núcleo familiar em virtude das atitudes predatória...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

O CRISTIANISMO E A TEOLOGIA DO DOMÍNIO

  Por Jorge Luiz           As últimas eleições ao cargo principal do Brasil fizeram emergir um fenômeno   sociopolítico que, até então, desenvolvia-se de forma sub-reptícia e tendo como pano de fundo o cristianismo. Estou me referindo à Teologia do Domínio, que teoriza a tomada do espaço público pela Igreja, defendida por algumas das principais lideranças neopentecostais, até então sem muito aprofundamento para o vulgo.             O que vem a ser a Teologia do Domínio?

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...