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MARCHA PARA JESUS: ENTRE A FIGUEIRA ESTÉRIL E A FÁBRICA DE LÁZAROS

 

 

Imagem criada por IA, a partir do texto

            O Chão da Avenida e as Vozes do Povo

             Ao estudar a psicologia das multidões, Gustave Le Bon (2022) assegura que, quando o edifício de uma civilização está podre, as massas apressam a sua destruição. É esse o seu papel: por um instante, a força cega do número transforma-se na única filosofia da história.

            As entrevistas concedidas pelos fiéis na última Marcha para Jesus, realizada no dia 23 de maio, e veiculadas por um portal de notícias (1), demonstram com exatidão essa práxis. As declarações, desconexas da realidade, estão desalinhadas à mensagem do paraninfo do evento, “em nome de Jesus”.

            As multidões, continua Le Bon, acumulam não a inteligência, mas a mediocridade. Nelas, os indivíduos perdem a sua personalidade consciente, passando a obedecer e a consentir com todas as sugestões daquele que os mobiliza.

            Esse fenômeno é notório na Marcha, onde a característica política contamina os ideais dos fiéis através da presença de diversos parlamentares e governantes — em sua maioria, ironicamente, envolvidos em escândalos de corrupção.

            O que contribui para fortalecer essa psicologia das multidões é que ela, fundamentalmente, é constituída por novos "Lázaros", produzidas por um sistema que se ampara nessas instituições religiosas. Fazendo alusão à parábola bíblica (Lucas 16:19-31), esses indivíduos integram uma massa que, nos tempos atuais, vê as religiões funcionarem como aparelhos ideológicos da burguesia. Essa estrutura assemelha-se escandalosamente à Figueira Estéril (Lucas 13:6-9), que Jesus metaforicamente condenou-a por não produzir frutos.

            No cenário da avenida, esses Lázaros modernos são convertidos em massa de manobra por lideranças que os manipulam para alcançar propósitos políticos e financeiros — objetivos que em nada se coadunam com os princípios originais da Boa Nova.

 

            O Topo do Trio Elétrico: A Figueira de Ched Myers e o Palanque

            Para compreender a natureza estéril que se projeta sobre a avenida, é preciso lançar o olhar para o topo dos trios elétricos à luz da teologia de Ched Myers. Ao analisar o episódio bíblico da figueira amaldiçoada por Jesus, Myers sublinha que a árvore não era um mero elemento da natureza, mas o símbolo máximo do sistema religioso e do Templo de Jerusalém de sua época. Tratava-se de uma estrutura coberta de folhas exuberantes — que representavam a pompa, os rituais majestosos e os discursos de poder —, porém completamente despida de frutos, ou seja, carente de justiça, misericórdia e acolhimento real aos vulneráveis.

            Essa exegese encontra perfeita simetria na práxis da Marcha para Jesus, materializando-se de forma explícita na postura de lideranças como o Pastor Silas Malafaia. Ao transformar o altar flutuante do evento em um palanque ostensivo para candidatos e correntes bolsonaristas, o topo do trio elétrico passa a operar exatamente como a figueira de Myers.

            Nessa engrenagem, a fé reformulada como espetáculo político inverte os valores do Evangelho. A multidão de fiéis, tratada no chão como os "Lázaros" da exclusão social, passa a ser utilizada no topo como mera "folhagem" estatística. Essa densidade demográfica serve como demonstração de força e moeda de troca perante as elites políticas, camuflando uma profunda esterilidade social: um ecossistema que transborda discursos de poder e moralismo, mas que se recusa a entregar os frutos da transformação e da verdadeira justiça social.

 

            O Chão do Asfalto: "Olhai as Aves no Céu" nas Vozes dos “Lázaros”

"Andei bastante... vou continuar no show aqui... declarando que o RJ é de Jesus."

"Tô animadona! Na conta de Jesus!"

            As expressões acima, extraídas das entrevistas dos fiéis na cobertura do evento (1), expõem o cansaço transformado em mística e a alegria desarmada de quem vive no limite. Revelam também a profunda vulnerabilidade desses novos "Lázaros" que, desamparados, buscam na fé o sustento que a realidade lhes nega.

            Assim como na parábola bíblica o Lázaro histórico vivia à porta do homem rico, ansiando apenas pelas migalhas que caíam da mesa, no asfalto da Marcha a dinâmica se repete de forma cruel. A multidão ali presente não caminha por projetos de poder, emendas parlamentares ou alianças partidárias; caminha movida por uma fé de urgência, pela necessidade visceral de sobreviver em meio à escassez.

            Essa penúria ocorre paradoxalmente dentro de um cenário de abundância mercadológica, como bem aponta o pesquisador Thiago Muniz Cavalcanti (2021). Segundo o autor, o capitalismo contemporâneo gera uma riqueza material e tecnológica sem precedentes, ao mesmo tempo em que deliberadamente mantém massas de trabalhadores em condições de extrema precarização, informalidade e "sub-humanidade".

            Cavalcanti demonstra que o "trabalho livre" moderno muitas vezes mascara dinâmicas de opressão e perda de liberdade muito semelhantes à escravidão histórica. O sistema econômico atual produz intencionalmente uma classe de indivíduos vulneráveis, desprovidos de dignidade e direitos básicos, embora sejam eles os responsáveis por sustentar a engrenagem de lucros e a opulência do mercado global (2021).

            Essa contradição entre a riqueza dos poucos no topo e a miséria dos muitos no chão ecoa com força nos versos contestadores da banda Plebe Rude:

"Até quando esperar a plebe ajoelhar / Esperando a ajuda de Deus?"

            Esses indivíduos, encurralados e marginalizados pelas estruturas econômicas, acabam sendo capturados por discursos teológicos que prometem prosperidade imediata. No entanto, no fim do dia, recebem apenas as "migalhas" conceituais e o assistencialismo ralo de lideranças que banqueteiam na opulência do topo do trio.

            Ainda assim, há que se ter um olhar atento: mesmo instrumentalizada como massa de manobra pelas elites eclesiásticas, a caminhada sincera desse povo expressa uma legítima, e muitas vezes desesperada, busca por dignidade. O chão da avenida torna-se, assim, o retrato vivo e pulsante de um Brasil que resiste e, à sua maneira, clama por verdadeira justiça.

 

         Da Passividade da Promessa ao "Em Marcha" de Chouraqui

            A engenharia política e eclesiástica que opera no topo do trio elétrico sustenta-se, historicamente, em uma leitura domesticada e enganosa das bem-aventuranças. Ao longo dos séculos, as teologias burguesas instrumentalizaram o texto bíblico para convencer os "Lázaros" da terra de que o sofrimento, a escassez e a humilhação social seriam virtudes passivas, carimbos de garantia para uma recompensa puramente ultraterrena. Sob essa ótica amortecedora, o "Bem-aventurados os que sofrem" funciona como um sedativo social: legitima a opulência da mesa do rico e anestesia a revolta da periferia.

            Essa engrenagem de opressão ganha contornos ainda mais severos quando analisada sob a ótica da filosofia espírita. Longe de endossar o conformismo, a vertente progressista do Espiritismo — respaldada na própria Codificação de Allan Kardec — aponta de forma categórica que a desigualdade das condições sociais não é uma lei da Natureza ou uma imposição divina, mas sim uma criação humana decorrente do egoísmo e do orgulho coletivos. Conforme os postulados espíritas, a miséria e a opressão que geram os 'Lázaros' modernos não devem ser vistas como provações passivas que exigem resignação silenciosa, mas sim como anomalias sociais que demandam a ação caritativa, a transformação moral e o combate ativo às injustiças. A espiritualidade maior não convida o oprimido à inércia do asfalto, mas convoca a humanidade à responsabilidade mútua e à equidade.

            No entanto, o chão da avenida esconde uma potência que as lideranças tentam sufocar, mas não conseguem apagar. E é aqui que a exegese do tradutor franco-israelense André Chouraqui subverte completamente o tabuleiro. Ao traduzir os Evangelhos diretamente do substrato hebraico e aramaico, Chouraqui revelou que a palavra grega makarioi (tradicionalmente vertida como "bem-aventurados" ou "felizes") esconde o termo semítico Ashrei.

            Ashrei não é um estado de espírito passivo, uma resignação estática ou uma promessa para o futuro. Sua raiz denota movimento, direção, o ato de colocar-se de pé e caminhar. Na monumental tradução de Chouraqui, o brado de Jesus deixa de ser um elogio à passividade e torna-se um imperativo revolucionário: "En marche!" (Em marcha!).

 

  • "Em marcha os humilhados..."
  • "Em marcha os que têm fome e sede de justiça..."

 

            Essa virada de chave hermenêutica muda tudo. A Marcha para Jesus, quando resgatada da folhagem estéril do palanque bolsonarista e devolvida ao coração dos Lázaros, deixa de ser uma procissão de conformismo e alienação. O caminhar do povo no asfalto, ainda que capturado pelo espetáculo, carrega em si a semente do Ashrei: a mística dos corpos que se movem porque não aceitam a morte, a fé de urgência que se recusa a sucumbir à precarização sistêmica.

            Para que a avenida deixe de ser uma fábrica de Lázaros e uma blindagem para figueiras estéreis, a plebe não precisa mais ajoelhar à espera de migalhas políticas. Precisa entender que o verdadeiro Evangelho nunca foi um chamado à submissão, mas uma ordem de partida. Contra a paralisia do medo e a exploração da fé, a resposta que ecoa do asfalto profundo é o grito originário da Boa Nova: Erguer a cabeça e marchar.

 

 

 

Referências:

CHOURAQUI, André. A Bíblia – matyah – o evangelho segundo mateus. Rio de Janeiro; Imago, 1996.

KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.

LE BOM. Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo; Lebooks Editora, 2022.

MYRES, Ched. Evangelho de são marcos. São Paulo; Paulus, 2021.

MUNIZ, Thiago C. Sub-humanos – capitalismo e a metamorfose da escravidão. São Paulo; Boitempo, 2021.

 

 

Notas:

(1)    https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/05/23/marcha-para-jesus-reune-fe-musica-e-celebracao-nas-ruas-do-rio.ghtml

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O provocativo artigo "Marcha para Jesus: Entre a figueira estéril e a fábrica de Lázaros" lança uma luz teológica e sociológica afiada sobre os contrastes que marcam uma das maiores manifestações religiosas do país. Longe de ser apenas um relato de fé, o texto disseca a sutil (e por vezes violenta) engrenagem que separa a base do topo desse evento.

    O autor constrói uma metáfora poderosa dividida em dois níveis espaciais e simbólicos:

    O Topo do Trio Elétrico (A Figueira Estéril): Inspirado na teologia de Ched Myers, o topo representa o sistema religioso transformado em palanque político e moeda de troca. É a "figueira" que exibe folhagens exuberantes (pompa, discursos de poder e moralismo), mas que se recusa a entregar os frutos reais da justiça social e do acolhimento.

    O Chão do Asfalto (A Fábrica de Lázaros): No nível da rua, o artigo enxerga uma massa de trabalhadores precarizados pelo capitalismo contemporâneo — os "Lázaros modernos" — que caminham movidos por uma fé de urgência e pela busca legítima por dignidade, mas acabam instrumentalizados como estatística de força política pelas elites eclesiásticas.

    A Virada Hermenêutica: O grande trunfo do artigo está em resgatar a tradução do termo semítico Ashrei (tradicionalmente "bem-aventurados") pelo intelectual André Chouraqui. Em vez de uma promessa passiva que anestesia a revolta dos oprimidos, o brado de Jesus ganha o sentido original de "En marche!" (Em marcha!).

    Ao final, o texto nos provoca a perceber que a caminhada sincera do povo no asfalto guarda uma potência revolucionária. Para que a avenida deixe de ser uma fábrica de exclusão, a resposta não é a submissão ou a espera por migalhas do topo do trio, mas sim a tomada de consciência de que o verdadeiro Evangelho é, essencialmente, uma ordem para erguer a cabeça e marchar. Uma leitura indispensável para quem deseja compreender as complexas fronteiras entre fé, política e sociedade no Brasil atual.

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