Pular para o conteúdo principal

"SUZANO", AS ARMAS DE FOGO E O VULGARISMO DA BESTIALIDADE






 Alguns dos mais variados setores da sociedade brasileira defendem a manutenção do comércio legal de armas de fogo aos cidadãos que necessitarem, por algum motivo, justificando que todos têm direito a possuir, nos limites da Lei, uma arma de fogo para se defender de qualquer atentado à incolumidade física do indivíduo, sua vida, seu patrimônio etc.

Mas, precisamos refletir mais sobre liberação de armas de fogo. O massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), que deixou dez mortos e 11 feridos, trouxe à tona novamente o debate sobre o controle de armas de fogo – como o revólver calibre 38 usado pelos autores do ataque.


Na cultura rural de diversas regiões norte-americanas, é comum os pais estimularem os filhos a usar armas de fogo. Essa trágica cultura é tão forte que nem o massacre na escola de Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, em dezembro de 2012 – na esteira de outros ataques a tiros, como Columbine, Virginia Tech e Aurora – criou condições suficientes para aprovar legislação norte amaericana tornando mais rigoroso o controle de armas.

Ao ser questionado sobre os assassinatos na escola de Suzano (SP), o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou que “os jovens estão muito viciados em videogames violentos”, dando a entender que jogos de realidade virtual poderiam ter estimulado os ataques. Para a polícia paulista, as botas, as roupas pretas e a máscara de caveira que Guilherme usava, indicam que ele e Luiz Henrique agiram motivados jogos de videogame que reproduzem cenários de guerras e combates. Porém, seria somente isso?

Notemos, em 1996, um massacre de crianças em uma escola na Escócia levou a uma mudança radical na lei e, como consequência, na acentuada redução do número de ataques do tipo e de mortes por armas de fogo na Grã-Bretanha. No começo de 1997, o governo britânico levou à aprovação no Parlamento a proposta de proibição total da posse de pistolas com calibre superior a 22. Poucos meses depois o governo ampliou a proibição para todas as pistolas, de qualquer calibre. Atualmente a Grã-Bretanha tem um dos menores índices de homicídios por armas de fogo em todo o mundo.

Consterna-nos saber que o Brasil é um dos líderes mundiais em casos de mortes produzidas com a utilização de armas de fogo, destarte, a sociedade clama por soluções efetivas para o problema da violência urbana. Muitos vivem sob o guante da síndrome das balas perdidas.

Os espíritas cônscios acreditam, obviamente, que uma das soluções para a criminalidade seria a proibição da venda de armas de fogo em todo o território nacional, ressalvada a aquisição pelos órgãos de segurança pública federal e estadual, municipal e pelas empresas de segurança privada regularmente constituída, na forma prevista em Lei.

Os pediatras, psicólogos, professores e estudiosos consideram muito prejudicial para as crianças e jovens o incentivo a “autodefesa armada”, pelo efeito da violência que essas práticas produzem, pois armas podem fascinar as mentes infantis, principalmente porque são desempenhados por “heróis” de filmes de ação, vistos em cinemas, revistas em quadrinhos ou na televisão.

Uma legítima educação é aquela em que os poderes espirituais regem a vida social. Todavia, o “homem moderno” e que se diz “civilizado” se envaidece com a sua capacidade de subjugar os outros, de mandar, de impor medo, quando o ideal seria ensinar à sua prole o respeito humano e compreensão das leis de Deus. A degradação moral do homem contemporâneo abriu as comportas da violência, represada debilmente pelas barreiras artificiais da civilização.

Concebemos como um conjunto de forças como a inversão dos valores éticos sugeridas pela televisão, internet, cinema, teatro e clubes que convidam crianças e adolescentes para uma realidade nua e cruel, o que equivale afirmar que elas estão sendo arrancadas do seu universo lúdico e juvenil e conduzidas para a violência, estimuladas, também, pela alienação moral dos pais.

Destarte, o período de inocência e tranquilidade infanto juvenil foi diminuindo. Cada vez mais cedo, e com maior intensidade, as inquietações da adolescência brotam acrescidas pelos múltiplos e desencontrados apelos dos videogames violentos , das revistas pornográficas, da mídia eletrônica, das drogas, do consumismo descontrolado, do mau gosto comportamental, da vulgaridade exibida, das técnicas de tiro e outras tantas extravagâncias, como reflexos óbvios de pais que vivem alienados, estagnados e obsidiados, enclausurados em seus afazeres diários e que nunca podem permanecer à frente da educação dos próprios filhos.

O que identificamos de forma generalizada é o total distanciamento dos pais modernos ao nível de educação dos filhos nesse sentido. De maneira geral, transferem suas responsabilidades para as escolas ou para o Estado, enquanto eles é que tinham que dizer aos filhos se isso ou aquilo é perigoso para menores ou não. Os pais precisam fazer com que os filhos entendam que eles têm que cumprir sua parte para usufruir as benesses do amor. Os pais precisam exigir mais. Ademais o servidor fiel do Espiritismo possui, no esforço da educação dos filhos e no bom exemplo, a consciência tranquila e a fortaleza moral.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

MARCHA PARA JESUS: ENTRE A FIGUEIRA ESTÉRIL E A FÁBRICA DE LÁZAROS

    Imagem criada por IA, a partir do texto Por Jorge Luiz                  O Chão da Avenida e as Vozes do Povo               Ao estudar a psicologia das multidões, Gustave Le Bon (2022) assegura que, quando o edifício de uma civilização está podre, as massas apressam a sua destruição. É esse o seu papel: por um instante, a força cega do número transforma-se na única filosofia da história.             As entrevistas concedidas pelos fiéis na última Marcha para Jesus, realizada no dia 23 de maio, e veiculadas por um portal de notícias (1) , demonstram com exatidão essa práxis. As declarações, desconexas da realidade, estão desalinhadas à mensagem do paraninfo do evento, “em nome de Jesus”.

“BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA PORQUE SERÃO SACIADOS...” (Mt 4, 23-25)

  Doris Gandres Essa uma das bem aventuranças proferidas pelo Mestre Jesus em seu Sermão da Montanha, há quase 2 mil anos e da qual bem pouco se fala... Não foi mencionada nem comentada no Evangelho Segundo o Espiritismo por Allan Kardec e os Espíritos que com ele trabalharam, quando tantas outras lhes mereceram a atenção... E de algum tempo me pergunto por que... Julgaram talvez, Kardec e a equipe espiritual, que ainda não tínhamos capacidade de entender o significado dessa afirmativa de Jesus? Que talvez, famintos e sedentos por justiça como estávamos – e ainda continuamos a estar – para nos saciarmos recorreríamos a métodos separatistas e violentos? Afinal, mesmo assim, mesmo relegando essa bem aventurança a segundo plano, praticamente ao ostracismo, povos e nações de todos os tempos, mesmo após o vinda do Cristo e mesmo ainda após o surgimento da doutrina espírita, recorreram ao domínio pela força de todo tipo com a justificativa de estabelecer e implantar justiça.

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

AFINAL, QUANDO O ESPIRITISMO SE TORNOU RELIGIÃO? UMA CONVERSA FRANCA SOBRE CULTURA, PODER E TRANSFORMAÇÃO NO ESPIRITISMO BRASILEIRO

  Por Wilson Garcia A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições, defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?               A resposta que o autor apresenta é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que mora seu valor. Ela nos obriga a pensar. Quem conhece Allan Kardec sabe: o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral — apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação, comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.             Mas aí essa ideia atravessou o Atlântico, desembarcou ...

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

REFLEXÕES PARA O ANO QUE SE ANUNCIA...

  Sinta, chega o tempo de enxugar o pranto dos homens. Se fazendo irmão e estendendo a mão... Venha, já é hora de acender a chama da vida e fazer a Terra inteira feliz! (A Paz. Homenagem a Paulinho/Roupa Nova)   É bem comum, a cada final de ano, pensarmos sobre o ano que finda e projetarmos expectativas, sonhos e planos para o ano vindouro. Fazer isso é bom! Afinal, pensar sobre o que fizemos, avaliar o que houve de bom e o que precisa ser melhorado pode nos ajudar a depurar nossas ações, para tentarmos ser melhores e, consequentemente, fazer um ano melhor. Santo Agostinho nos ensinou esse exame de consciência. Toda noite, ele passava o dia a limpo, observando seus atos e pensando a melhor maneira de corrigir seus erros e chegar mais perto de Deus.

A HISTÓRIA DA ÁRVORE GENEROSA

                                                    Para os que acham a árvore masoquista Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito. Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro: “’...