Pular para o conteúdo principal

DIVAGAÇÕES DO APÓSTOLO PAULO - SERVEM PARA NÓS?¹



                 

            

                Estudiosos do Evangelho, tomados pela autoridade das pesquisas afirmam o apóstolo Paulo, através suas viagens e cartas pode ser considerado um dos maiores divulgadores da mensagem cristã que nos alcança na atualidade. Terá sido também o responsável em sistematizar a forma de divulgá-la. Há quem opine que preparava o campo de suas visitas orientando pelos textos escritos a qualificação dos grupos que se encontravam distantes, enquanto conseguia resolver dúvidas e eventuais problemas que ocorriam nas congregações espalhadas pelo vasto território. Reconhecia a sua condição de falibilidade diante do chamado moral do Mestre, ao qual seguia desde o inusitado encontro na estrada de Damasco, mas não se cansava de perseguir o melhor que havia de descobrir dentro de si mesmo e era essa verdade que produzia o brilho que revestia as suas palavras, enchendo-as de severa sinceridade. A Carta aos Romanos é um documento que trata de orientação doutrinária e convida para uma avaliação das práticas do dia a dia de cada seguidor.

            É dessa forma que vemos o apóstolo dos Gentios (pagãos), em um chamado/confissão, advertir aos praticantes da época (Romanos VII; 19): “É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico”. A profunda divagação de Paulo passa longe de ser uma orientação fora de validade tantos anos depois de exalada. Intentava ser uma auto-reflexão tornada útil para o povo daquela civilização antiga e cai como uma bomba de alerta no colo contemporâneo.
            O texto, retirado de um contexto muito amplo, traz implícito algo que não conseguiremos negar. A nossa compreensão do justo e do certo nem sempre anda tão próxima quanto deveria das práticas que escolhemos quando nos defrontamos com os testes diários de nossas imperfeições. Preferimos a mansidão e liberamos a selvageria; admiramos a leveza e optamos pela brutalidade; somos seduzidos pela calma e mergulhamos no desespero; ansiamos pela paz e facilmente apertamos o botão da guerra. O conselho do apóstolo segue intenso “É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico”, acenando para o fato de que temos opção entre manter o automatismo animal de reagir/atacar ou conquistar o patamar que as novas lições nos propõem.
            O Livro dos Espíritos (q.992) ao se referir ao conserto dos cometimentos por mais simples que sejam, dos quais nos arrependemos enquanto em trânsito pela vida corpórea, traz uma resposta que alimenta e induz a uma busca de mudanças: “Adiantar-se ainda na vida presente, se houver tempo para a reparação das faltas. Quando a consciência reprova e mostra uma imperfeição, sempre se pode melhorar”.
            Saber que temos um passado reencarnatório e que muitas vezes agimos pelo impulso dos hábitos antigos é informação importante. Não exatamente para repetirmos as mesmas práticas. Liberar-nos da inconveniente certeza do “sempre fui assim” e pensar a respeito de “será que posso fazer diferente?” Parece que Paulo de Tarso sabia do esforço que precisava fazer para vencer o homem velho que habitava o seu corpo. Deixou-nos essa reflexão que poderia fazer-nos muito bem, nas práticas diárias. Substituir o ímpeto viciado que há em nós pela mensagem harmoniosa e renovadora de Jesus. 

¹ editorial do programa Antena Espírita de 29.05.2017.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A HISTÓRIA DE JERÔNIMO

  Por Jerri Almeida A história de Jerônimo é comovente. Nasceu no dia 1º de novembro de 1939 em Ituiutaba, Minas Gerais. Narra-se que sua infância foi a de uma criança normal. Frequentou escola até o início do ginasial antigo. Todavia, já na adolescência, começou a sentir os primeiros sinais de sua doença, através de dores nas articulações, especialmente nos joelhos e tornozelos, que passaram a inchar e, aos dezoitos anos, já andava com dificuldade.

AS BETS E O JOGO DA VIDA

      Por Jorge Luiz                     A Encomenda da Esperança: A Captura do Imaginário             Muito recentemente, os símbolos da Pátria foram sequestrados por uma corrente partidária de extrema-direita. De repente, o imaginário do brasileiro foi dilacerado: o que era símbolo de pertencimento e brasilidade transmutou-se em sentimento de aversão por aqueles alinhados a ideologias progressistas. Com a camisa da Seleção Brasileira, o fenômeno não foi diferente. Esse episódio escancara algo fundamental: o imaginário é o campo onde se travam as disputas centrais da nossa época.             O imaginário, para Castoriadis (2012), não significa o fictício, o ilusório ou o especulativo, mas o elemento determinante — e não determinado — de novas formas e significações; uma criação autônoma que não se ...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

QUANDO O ESPIRITISMO VIRA ARENA DE PRÁTICAS “DIFERENTONAS”

  Sala para realização de cirurgia espiritual no C.E.Casa de Oração Espírito de Luz Por Jorge Hessen Entre a codificação e a fantasia mediúnica, alguns parecem ter escolhido a segunda Há algo profundamente preocupante no movimento espírita brasileiro: a crescente transformação da mediunidade em laboratório de novidades. Cada grupo inventa sua fórmula, cada dirigente anuncia seu método, cada médium apresenta uma experiência particular, como se representasse a evolução da Doutrina. E, quando alguém pergunta onde está Kardec, responde-se com a palavra mágica: “caridade”. Não. Caridade não é salvo-conduto para a improvisação “diferentona”.

UM HOMEM, UMA HISTÓRIA RESIGNIFICANDO O VÍNCULO SOLIDÁRIO

  Objetivando transmitir uma mensagem de “alento” e “esperança” a pessoas em desespero, John Edwards, de 61 anos, um ex-dependente de drogas e ex-alcóolatra (sóbrio há mais de duas décadas) inexplicavelmente se voluntariou deitar em um caixão que foi fechado e enterrado no terreno de uma igreja de Belfast, na Irlanda do Norte. Obviamente o ataúde foi especialmente adaptado para que Edwards “sobrevivesse” por três dias (quando fosse desenterrado) e pudesse transmitir a experiência ao vivo pelas redes sociais. No passado Edwards enfrentou abuso sexual, viveu na rua, recebeu tratamentos para distúrbios mentais, sobreviveu a várias overdoses e “perdeu” mais de 20 amigos por conta de abuso de drogas, álcool e suicídios. Sobreviveu a dois cânceres e a um transplante de fígado após desenvolver hepatite C por causa de uma agulha contaminada.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

13.05. ANIVERSÁRIO DE CRIAÇÃO DO CANTEIRO DE IDEIAS

LOBISOMEM: MITO OU REALIDADE?

    Por Americo N. Domingos Filho   Na tradição oral, em âmbito mundial, há o relato fantástico de um ser que se converte em lobo, em noites de lua cheia, e, sedento de sangue, sai em busca de suas vítimas para sugá-las. Ao amanhecer, assume de novo as características de uma pessoa comum. Essa lenda revela um ser amaldiçoado, que se torna parte homem e parte lobo, produzindo muito temor, principalmente nas crianças e, igualmente, em muitos adultos, especialmente os moradores de áreas rurais.

PACTO ÁUREO?

Por  Jorge Hessen (*)   Outubro de 2014 - 65 anos do Pacto Áureo Os primórdios do “espiritismo” De conformidade com as fontes compulsadas, identificamos os primórdios do movimento “pré-espírita” brasileiro nas experiências dos partidários do mesmerismo (1). Dentre os seus adeptos, encontramos os médicos homeopatas Benoît Jules Mure (francês) e João Vicente Martins (português). Ambos chegaram ao Brasil em 1840. Havia mais apaixonados pela técnica de Mesmer, a exemplo de José Bonifácio de Andrada e Silva (o “Patriarca da Independência”), igualmente adepto à homeopatia, e Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá), este último publicou um livro de essência “pré-Codificação espírita, em 1844. O “Espírito” Humberto de Campos explanou em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (*) que Benoît Jules Mure e João Vicente Martins “fariam da medicina homeopática verdadeiro apostolado. Muito antes da codificação espírita já conheciam os tran...