Pular para o conteúdo principal

MEDICINA, NEUROCIÊNCIAS, PEDAGOGIA: ENCONTROS E DESENCONTROS¹




Por Dora Incontri (*)




Reflexões depois de um congresso

Participei na semana passada (dessa vez apenas como observadora) do IX Congresso Brasileiro de Psicopedagogia e I Simpósio Internacional de Neurociências, Saúde Mental e Educação, realizado em São Paulo, na Unip, numa parceria entre a Sociedade Brasileira de Psicopedagogia e a Unifesp (Projeto Cuca Legal) e mais apoios e patrocínios outros. O evento pretendeu enfatizar o possível diálogo entre Neurociências, Saúde Mental e Educação. Como esse era o foco principal e foi também o que mais me chamou atenção, farei aqui algumas reflexões a respeito. Depois, pretendo escrever algum artigo científico que trate das questões epistemológicas, que envolvem esse possível diálogo. Esse texto portanto é mais jornalístico, embora não possa, ao tecê-lo, deixar de lado minha formação e bagagem na área da Filosofia da Educação e minhas incursões pela Filosofia da Ciência.

Não é de hoje que as áreas de Saúde e Educação procuram alianças e debatem entre si. Já Santo Agostinho, em torno do ano 300, lembrando Platão (300 A.C.) refletia que “a ciência que cuida do corpo é chamada medicina. A que cuida da alma, educação. Dado que o cuidado do corpo está intimamente ligado ao da alma, a medicina é um aspecto da educação. Dado, por outro lado, que o cuidado da alma exige certa perícia médica, à educação se chama, com razão, medicina da alma”. Observe-se que o link usado por Agostinho entre as duas, era o conceito de alma, que na tradição ocidental (desde Sócrates e Platão), foi concebida como a sede da identidade humana.

Não por acaso, no diálogo proposto nesse congresso e a proposição que observamos em vários espaços acadêmicos de uma Neuroeducação, as Neurociências aparecem como o link entre as áreas e a concepção corrente é de que a identidade humana é o cérebro, que apresenta seus determinismos genéticos e sua estrutura neural plástica em constante interação com o meio. Quando falo em identidade, falo de singularidade, de individualidade, de uma consciência que é capaz de pensar sobre si mesma.

Contrapondo uma ideia à outra, estamos diante de dois paradigmas, duas abordagens diferentes – uma dualista (que considera o ser humano composto de corpo e alma) e a outra monista materialista (que considera o ser humano apenas um processo bioquímico e a mente um subproduto do cérebro). Pode-se chamar também essa concepção de organicista.

O primeiro problema se dá quando se considera esse segundo modelo como resultante de uma “ciência baseada em evidências” e o primeiro, como mera especulação filosófica, metafísica, e portanto, ultrapassada.

O discurso sólido, brilhante, lógico, apresentado por todos os médicos (psiquiatras) no evento em foco, se agiganta pela demonstração de evidências observadas no estudo do cérebro, inclusive com o uso de neuroimagens, o que nos coloca muito mais próximos de compreender como funcionam os processos cognitivos, emocionais… os desenvolvimentos, as mutações, as disfunções dessa fantástica rede neural.

Tudo muito bonito e com grande dose de objetividade e verdade. Conhecemos melhor como se dá a aprendizagem? Sim. Sabemos mais sobre o processo de interação genética-meio ambiente? Sim. Podemos montar estratégias de intervenções pedagógicas, sociais, familiares que atendam melhor ao desenvolvimento saudável e eficaz do indivíduo? Sim. Isso tudo pode e deve causar um impacto transformador na escola? Sem dúvida alguma.

Entretanto, Educação não se reduz a isso. Educação envolve questões éticas, estéticas, humanas que não se deixam apalpar por evidências científicas, estatísticas, materiais. Mas só podemos argumentar que a Educação não é só um debruçar-se sobre o cérebro da criança e um saber como moldá-lo, a partir de um outro paradigma de conhecimento e ação. Um paradigma que pelo menos não considere o conhecimento como algo apenas baseado em evidências, sem nenhuma articulação filosófica, ou ainda, que sabe que a ciência não é neutra, nem desinteressada, nem absoluta, mas também sujeita à crítica. Crítica não apenas feita por outros cientistas, mas também por pensadores (cientistas ou não) que questionam os métodos, os pressupostos, os caminhos de se fazer ciência.

Para explicar melhor o que estou dizendo, quero pontuar algumas questões totalmente esquecidas (ou ignoradas) pelos brilhantes médicos e entusiastas neurocientistas, mas infelizmente também esquecidas (ou ignoradas) pelos educadores perplexos e seduzidos pelo discurso cientificista. Esses educadores em geral não têm nenhum treinamento em ciência baseada em evidência (coisa que não é quase nunca praticada nas áreas de humanas – o que considero um problema), mas também não têm repertório filosófico e cultural para fazer uma leitura crítica ao modelo proposto, pois as faculdades de pedagogia e as especializações em psicopedagogia não oferecem esses recursos. Os médicos, por sua vez, não conhecem filosofia, não recebem formação em humanidades. Assim, não há um diálogo entre as áreas, mas uma superposição da área de saúde sobre a área da educação. E qualquer crítica vinda do lado da área de humanas é desqualificada pelos médicos como “ideológica”. E é verdade que muitas críticas, feitas sem argumentações lógicas e sem conhecimento de causa, são mesmo ideológicas. Mas isso não quer dizer que a simples “tomada” da Educação pela Neurociências não apresente riscos e não esteja sujeita a críticas.

Não é de hoje que a medicina avança na área da educação, trazendo grandes contribuições, mas provocando igualmente alguns riscos. No início do século XX, tivemos inúmeros médicos-educadores atuando, pesquisando e propondo ações. Citemos Decroly, Claparède, Montessori, Korzcak, Vygotski e o próprio Piaget, que não era médico, mas como biólogo, tinha uma visão organicista semelhante à que as Neurociências propõem.

Mas o que se viu nas primeiras décadas do século passado é o uso de critérios de quantificação de inteligência, de testes, de medições cranianas… para classificações discriminatórias e até práticas eugênicas, que não tiveram lugar apenas na Alemanha nazista, mas foram exercitadas em países como o Brasil e os Estados Unidos.

Não que esses médicos-educadores acima citados tivessem responsabilidade nisso – tendo aliás cada um deles, diferentes perspectivas pedagógicas. Mas o entusiasmo organicista, o pressuposto de que podemos modelar, prever, manejar de maneira “científica” a aprendizagem e a formação das mentes humanas (à moda de Skinner) sempre podem provocar uma diminuição da liberdade, da autonomia do sujeito e do que essa autonomia representa de inventividade, imprevisibilidade e espontaneidade.

Então, é preciso que essa articulação entre Neurociências e Educação seja muito bem amparada pela Ética, balizada por reflexões críticas e uma Filosofia da Ciência, alerta para os riscos da empreitada.

As Neurociências e os clássicos da Educação

O que pouca gente sabe, pelo menos no Brasil, é que esses educadores citados acima – todos eles – tiveram influência dos grandes clássicos da Educação, como Comenius, Rousseau e Pestalozzi – totalmente ignorados entre nós. Piaget, por exemplo, comenta numa introdução a uma obra de Comenius, editada pela Unesco, que o educador checo teria sido um precursor de sua Psicologia genética.

Esses autores antigos não só intuíram, anunciaram e abriram caminho para seus herdeiros dos séculos XIX e XX, como também previram as descobertas atuais das Neurociências. Talvez possamos traçar o seguinte roteiro histórico: os clássicos intuíram, os médicos-educadores, os psicólogos do desenvolvimento infantil, os militantes da escola-nova observaram e as Neurociências fornecem evidências… Prometo fazer um trabalho aprofundado sobre isso, mas lá vão algumas amostras dessas intuições-observações-evidências:

• A aprendizagem se dá pela interação com o meio e os sentidos exercem um papel fundamental, portanto a Educação tem que ser sensorialmente estimulante;

• As emoções e a afetividade estão conectadas à aprendizagem;

• Há estruturas inatas que permitem o desenvolvimento cognitivo do ser humano  e essas estruturas se referem, entre outras, à aquisição da linguagem e à possibilidade de cálculos (Pestalozzi dizia isso!);

• O indivíduo aprende por motivação (lembro do conceito de “interesse” de Dewey);

•  A aprendizagem se dá na ação e é autônoma. (Educação ativa já era proposta por Comenius no século XVII e por Rousseau no século XVIII.)

E, no entanto… eis a grande tristeza! Vieram os clássicos da Educação, vieram os psicólogos do desenvolvimento, estão aí as Neurociências…  e a escola continua a mesma: sem ação, sem autonomia, sem afetividade, sem emoção, sem motivação! A escola da lousa, do professor falando, do aluno sentado e entediado, da classe enfileirada e dos muros cinzentos! A educação bancária, como dizia Paulo Freire – as cabeças dos alunos como depósitos. Uma escola em que nem a alma, nem o cérebro se desenvolvem. Parece que há sempre abismos entre as belas teorias e as paupérrimas práticas.

Em busca do ser integral

Bem – dirão – se os clássicos intuíram, outros observaram e as Neurociências dão evidências, podemos muito bem só ficar com essas últimas. As intuições passam a verdades reconhecidas e não precisamos mais desses pioneiros geniais!

Aí é que os distintos estão muitíssimo enganados (lembrando uma canção de Vinicius de Morais)! É que nesse processo histórico, houve uma perda no decorrer dos tempos. Alguns conseguiram reter algo a mais dos precursores, como é o caso de Maria Montessori (provavelmente por ser mulher e há um componente mais sensível no conhecimento produzido por mulheres – lembro que a Tanatologia e os Cuidados Paliativos nasceram na Medicina, graças a duas mulheres, Elisabeth Kübler-Ross e Cicely Saunders). Mas a maioria afunilou os conceitos, dentro do paradigma reducionista da ciência materialista, herdeira do positivismo.

O que havia de essencial nos clássicos é que eles mantinham uma visão integral do ser humano: não perdiam de vista, o biológico (na medida dos conhecimentos da época, claro) o político, o social, o afetivo, o cognitivo e… o espiritual!

O que os ilustres e brilhantes palestrantes médicos do congresso em pauta parecem desprezar é que a ciência dos últimos dois séculos representa um paradigma possível, mas não único de fazer ciência, baseada em evidências. Não se pode ignorar a intensa crítica a que esta ciência foi submetida na segunda metade do século XX, por autores como Kuhn, Lakatos e, mais ainda, Foucault e Feyerabend. Estou longe de defender um relativismo epistemológico que considera todo conhecimento humano como mero discurso. Em minha tese de doutorado, fiz dura crítica ao pensamento anticientífico do pós-modernismo.

Mas não se pode ignorar que a ciência sim, participa de interesses, está submetida a determinados pressupostos iniciais, escolhe alguns fenômenos, em vez de outros, para serem estudados, e fecha os olhos quando se lhe apresentam fatos ou evidências que possam contrariar o paradigma vigente.

Pois, muito bem… se há evidências que vêm corroborar as intuições dos clássicos em relação aos processos da cognição e do desenvolvimento infantil, há outras que vêm dar solidez à visão que eles propunham de que o ser humano tem uma dimensão espiritual. Em relação ao nosso conceito de criança (que não é apenas um cérebro em desenvolvimento), temos, por exemplo, as exaustivas pesquisas de mais de 40 anos de Ian Stevenson, Erlendur Haraldson, Jim Tucker e outros, sobre memórias espontâneas de vidas passadas, incluindo uma fartíssima coleta e análise de dados, feitas por Stevenson, em relação a marcas de nascença, conectadas com memórias de outras vidas (isso está publicado no livro Reincarnation and Biology). Essas evidências não anulam em nada aquelas das Neurociências, mas acrescentam, além do cérebro, uma alma que tem identidade, que já viveu antes em outro corpo, e traz lembranças dessa vida – lembranças que podem ser demonstradas pela pesquisa “baseada em evidências”, com todos os cuidados metodológicos. Aliás, diga-se de passagem, Stevenson, como seus colegas acima, também era médico psiquiatra. Por que ele via fenômenos, que outros não querem sequer tomar em consideração? Porque os cientistas agem, levados por pressupostos filosóficos, por influências culturais do seu meio, por inclinações subjetivas também… e não apenas pela Ciência pura, como bem demonstrou Thomas Kuhn.


No dia em que tivermos todas essas evidências, de todos os lados, articuladas por uma reflexão filosófica e por uma elevada concepção ética, estaremos mais próximos de compreender o ser humano e, portanto, a criança, de maneira mais integral.

¹ publicado originalmente em 11.07.2012, em http://doraincontri.com/2012/07/

(*) Jornalista, educadora e escritora. Suas áreas de atuação são Educação, Filosofia, Espiritualidade, Artes, Espiritismo. Tem mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia da Educação pela USP.

Comentários

  1. O artigo do confrade Roberto Caldas, intitulado "A Reencarnação permite a evolução das ciências", dialoga com esse artigo da professora Dora Incontri.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.

    Por Jorge Luiz   Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook). As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produç...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

GRAVIDEZ: SUBLIME NINHO DO AMOR

A gestação é um período de transformações físicas e emocionais muito importantes para a mulher, constituindo um momento deveras transcendental, porquanto a futura mamãe verifica, no seu cadinho uterino, a materialização na carne de um ser que emerge da vida imortal. Que sublime e grandiosa missão outorgada a um ser por Deus, concedendo a uma pessoa a tarefa de poder igualmente gerar! Cuidar do corpo e do espírito Gravidez - Sublime Ninho do Amor O espírito, centelha divina aprimorada e individualizada, necessita da arena física, com sua resistência própria, para despertar e exteriorizar suas potencialidades (“O Reino de Deus dentro de si”). A encarnação humana torna-se uma necessidade para a individualidade extrafísica, porquanto “criada simples e ignorante se instrui nas lutas e tribulações da vida corporal, dela sofrendo todas as vicissitudes”. O ser espiritual precisa despojar-se de todas as impurezas da matéria e, finalmente, conseguir predomínio sobre ela. ...

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

O CLAMOR DOS NOVOS TEMPOS

                      Será que há alguém satisfeito com o estado de coisas que cercam as diversas comunidades humanas? Eis aí uma pergunta que provavelmente obtenha o NÂO como resposta unânime. Decerto existem pequenos grupamentos que conseguem sobreviver sem os sobressaltos desses novos tempos que ainda se encontram isentos da internet e em atividade exclusivamente agroextrativista, em localidades distantes e constituídas por minúsculas populações. No todo estamos escorchados por agonias patrocinadas pela violência alçada à qualidade de “proposta de negociação”, em dupla via.

A CAPITALIZAÇÃO DA MENTIRA: DO DESMONTE DA ECONOMIA AO RESGATE DA CONSCIÊNCIA

    Por Jorge Luiz   A Anatomia de um Crime Econômico             A mentira, quando institucionalizada, deixa de ser um desvio ético para se tornar uma patologia econômica e social. O exemplo mais candente da última década brasileira é a Operação Lava-Jato. Sob a égide de um messianismo jurídico, articulou-se uma narrativa que, sob o pretexto de combater a corrupção, operou um desmonte sistêmico do patrimônio nacional. Os dados do DIEESE e das universidades UFRJ e Uerj são inequívocos: o custo dessa ‘verdade fabricada’ foi a aniquilação de 4,4 milhões de empregos e uma retração de 3,6% no PIB entre 2014 e 2017. Aqui, a mentira não apenas feriu reputações, como a do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva; ela asfixiou a massa salarial em R$ 85,8 bilhões e subtraiu R$ 172,2 bilhões em investimentos.             Em Freakonomics, Levitt & Dubner consi...