Pular para o conteúdo principal

IDE E PREGAI!

“Hoje, não são mais as entranhas
do planeta que se agitam: são as da
Humanidade”
(Allan Kardec – Obras Póstumas)




            Por Jorge Luiz (*)



            Em 1965, a música “Arrastão”, interpretada por Elis Regina foi a grande vencedora do I Festival da Música Popular Brasileira.
            O arrastão é um tipo de pescaria que se opera com redes de arrasto – redes em forma de saco -, através de barco de pesca, que são puxadas a uma velocidade que permite que os pescados fiquem presos nele, sendo muito comum no litoral brasileiro.
            Na década de 1980, o arrastão passou a ser uma prática de crime coletivo, surgida primeiramente na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para depois se disseminar por outros locais do Brasil. O termo vulgarizou-se na linguagem criminal e passou a significar qualquer tipo de roubo em série. O arrastão migrou das praias para os condomínios de luxo, restaurantes, trânsito. Da poesia para o crime. Duas realidades. Duas gerações. Duas formas de interpretar o mundo.

            Recentemente, surgem os “rolezinhos”, definidos por alguns como encontros promovidos por adolescentes ou jovens adultos dentro dos shoppings -  comumente localizados na periferia -, com finalidades específicas banais (“beijar, zoar, curtir a galera, ouvir funk, andar do lado contrário nas escadas rolantes” etc), e apoiados nos simpatizantes do funk ostentação, não deixando de ser, no entanto, uma nova versão do arrastão. O funk ostentação é uma vertente musical que valoriza a posse de certos objetos que atribuem um poder específico, possibilitando a ostentação
            Os “rolezinhos” têm alterado a rotina dos shoppings, bem como o comportamento dos seus clientes e frequentadores, mas segundo especialistas, devem chegar às ruas muito em breve.
            O fenômeno tem sido analisado sob diversos prismas, mas todas as análises acompanhadas o tentam legitimá-lo, seja como fenômeno cultural, político ou social. Vive-se a fase do tudo é permitido; tudo é social; tudo é político; tudo é cultural.
            “Black Blocks”, “arrastões”, “rolezinhos”, e outras permissividades e perversidades, podem ser discutidos nas mais variadas formas, entretanto, a sua gênese, no meu entendimento, está no fenômeno social que Émile Durkheim (1858-1917), pai da sociologia, denominou de anomia, estado que se caracteriza por falta de objetivos e identidade do ser, provocado pelas intensas transformações que ocorrem no mundo social moderno. O processo agônico que acontece com as instituições religiosas, ocasionou uma ruptura radical dos valores tradicionais defendidos por elas, dificultando o estado de harmonia que deve caracterizar a sociedade.
            Em sua obra Suicídio, Durkheim acentua que o corpo social quando anômico funciona de forma patológica sendo um dos geradores de suicídios, o que explica o seu crescimento em nossos dias - de forma consciente e inconsciente (drogas lícitas e ilícitas), na classificação espírita.
            Para Robert K. Merton (1910-2003), sociólogo estadudinense, estudioso da sociologia da ciência e da comunicação de massa, a teoria da anomia propicia condutas para infrações penais e crimes de motivações políticas (terrorismos, saques, ocupações), conduta de rebeliões, bem como comportamentos de evasão alcoolismo e toxicodependência, principalmente para as camadas menos favorecidas da sociedade.
            Na realidade, a anomia reflete a ausência valores morais. Leia-se o que afirma Durkheim:

“Mas, como não há nada no indivíduo que lhes possa fixar um limite, este lhes deve necessariamente vir de alguma força exterior do indivíduo. É preciso que uma força reguladora desempenhe para as necessidades morais o mesmo papel que o organismo para as necessidades físicas. Isso significa que essa força só pode ser moral. É o despertar da consciência que veio romper o estado de equilíbrio no qual o animal dormitava; só a consciência, portanto, pode fornecer os meios de o restabelecer.”

             Portanto, a coerção material, neste caso não surtirá efeito, como não tem surtido. Não são “bombas de efeito moral” e cassetetes que modificam corações. É preciso promover o reencantamento do mundo com valores morais consistentes que revelem ao indivíduo a sua natureza, sua origem e sua destinação, que serão a base para uma nova educação. Somente com esse reencantamento poder-se-á construir bases para relacionamentos saudáveis entre os jovens e adultos como um todo.
            Na questão nº 100 de “O Livro dos Espíritos”, didaticamente, são denominados de Espíritos Neutros, aqueles pertencentes à sétima classe, da Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos, na Escala Espírita. Para Kardec, esses Espíritos nem são bastante bons para fazer o bem, nem bastante maus para fazer o mal; tendem tanto para um como para outro, e não se elevam sobre a condição vulgar da humanidade, quer pela moral ou pela inteligência. Apegam-se às coisas deste mundo, saudosos de suas grosseiras alegrias.
            Allan Kardec, no ensaio “As Aristocracias”, inserido em Obras Póstumas, avança nesta análise, ao se referir à instalação da aristocracia intelecto-moral que vigerá na transição que se opera no mundo, quando ele é categórico em afirmar que dentre os maus, muitos há que apenas o são por arrastamento e que se tornariam bons, se fossem submetidos a uma influência boa. Assim ele esquematiza essa equação: “Admitamos que, em 100 indivíduos, haja 25 bons e 75 maus; destes últimos, 50 se contam que o são por fraqueza e que seriam bons, se observassem bons exemplos e, sobretudo, se tivessem sido bem encaminhados na infância; dos 25 maus, nem todos serão incorrigíveis.”
            Cabe a todos os espíritas atenderem ao apelo do Espírito Erasto, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo – “Missão dos Espíritas”, quando acentua: “(...) ides pregar o dogma novo da reencarnação e da elevação dos Espíritos, segundo o bom e ou mau desempenho de suas missões e a maneira por que suportaram as suas provas terrenas.”
            É óbvio, portanto, que além dos fatores econômicos, políticos e socais, seu aprofundamento está efetivamente na desagregação no núcleo familiar moderno, em decorrências desses fatores exógenos citados, bem como os de ordem endógenas.
            A família que será inaugurada pelos valores imortais do Espírito, assentados em bases reencarnacionistas e na lei do amor, proporcionará a revitalização da vivência do lar, como cadinho onde as criaturas devem unir-se espiritualmente antes que materialmente. O lar é a pedra angular divina para a construção da fraternidade entre os povos.
            Ide e pregai!        





(*) livre-pensador, blogueiro e voluntário do Instituto de Cultura Espírita do Ceará.      
           
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo sociológico. Lisboa: Editorial Presença, 1982. (1ª edição original em 1897).
ELIS REGINA. Arrastão. Composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. CBS: 1963.
KARDEC, Allan. Obras póstumas. São Paulo: FEB, 2003.
___________. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2004.


            

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

FÉ E CONSCIÊNCIA DE CLASSE: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA DA LUTA ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS NOS EVANGELHOS.

    Por Jorge Luiz   Para Além do Chão da Fábrica: A Luta de Classes na Contemporaneidade Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta. Assim, Karl Marx e Friedrich Engels iniciam o desenvolvimento das ideias que comporão o Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels, ebook). As classes determinadas por Marx – burguesia e proletariado – não surgem de um tratado sociológico, são consideradas a partir das relações da reprodução da forma da mercadoria, frente os antagonismos e as contradições entre os opressores e oprimidos, a partir da apropriação do excedente da produç...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

TRÍPLICE ASPECTO: "O TRIÂNGULO DE EMMANUEL"

                Um dos primeiros conceitos que o profitente à fé espírita aprende é o tríplice aspecto do Espiritismo – ciência, filosofia e religião.             Esse conceito não se irá encontrar em nenhuma obra da codificação espírita. O conceito, na realidade, foi ditado pelo Espírito Emannuel, psicografia de Francisco C. Xavier e está na obra Fonte de Paz, em uma mensagem intitulada Sublime Triângulo, que assim se inicia:

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

A PROPÓSITO DO PERISPÍRITO

1. A alma só tem um corpo, e sem órgãos Há, no corpo físico, diversas formas de compactação da matéria: líquida, gasosa, gelatinosa, sólida. Mas disso se conclui que haja corpo ósseo, corpo sanguíneo? Existem partes de um todo; este, sim, o corpo. Por idêntica razão, Kardec se reportou tão só ao “perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao espírito”, [1] o qual, porque “possui certas propriedades da matéria, se une molécula por molécula com o corpo”, [2] a ponto de ser o próprio espírito, no curso de sua evolução, que “modela”, “aperfeiçoa”, “desenvolve”, “completa” e “talha” o corpo humano.[3] O conceito kardeciano da semimaterialidade traz em si, pois, o vislumbre da coexistência de formas distintas de compactação fluídica no corpo espiritual. A porção mais densa do perispírito viabiliza sua união intramolecular com a matéria e sofre mais de perto a compressão imposta pela carne. A porção menos grosseira conserva mais flexibilidade e, d...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

A REBELDIA DOS JOVENS, COMO AGIRMOS?

  Por Alkíndar de Oliveira (*) As atitudes de determinados jovens (nossos filhos ou não) nos estimulam a pensar: o que fazermos com esses jovens rebeldes? Para ilustrar que a rebeldia do jovem é um fato a ser enfrentado, conto a seguir duas histórias reais. A primeira história real: Imagine certo professor que, ao estar ministrando determinada aula, percebe que a atenção dos alunos se dispersa como consequência do procedimento inusitado e inadequado de um deles. Aos olhos do professor este é um aluno problema. E, apesar de inteligente, pela sua displicência ele não se sai bem nas provas. Tem o hábito de falar em momentos errados, adota atitudes estranhas, e nesse dia em especial, colou algodão em seu rosto formando longos bigode e cavanhaque. Com esta expressão ridícula e engraçada, apoiou os queixos com as mãos, formando como que uma forquilha e, muito sério, fingiu estar prestando religiosa atenção à aula. A classe caiu em riso. Esse jovem, depois...