Pular para o conteúdo principal

O DÓLMEN DE KARDEC










31 de março de 1869
 Allan Kardec ultimava as providências de mudança de endereço. A partir de 01 de abril de 1869, o escritório de expedição e assinatura da Revista Espírita seria transferido para a sede da Livraria Espírita, à rua de Lille, nº 7, onde também, provisoriamente, funcionaria a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Na mesma data, os escritórios da redação e o domicílio pessoal de Allan Kardec seriam transferidos para a Avenue et Vila Ségur, nº 39, onde Kardec tinha casa de sua propriedade desde 1860.
Entremeando onze e doze horas, quando atendia um caixeiro de livraria, caiu pesadamente ao solo, fulminado pela ruptura de um aneurisma. Aos 65 anos incompletos, desencarnava em Paris, Allan Kardec.
            Sr. Muller, amigo de Kardec, um dos primeiros a chegar à sua residência, assim descreve em trecho de telegrama enviado: “Tudo isto era triste, e, entretanto, um sentimento de doce quietude penetrava-nos a alma; tudo na casa era desordem, caos, morte, mas tudo aí parecia calmo, risonho e doce, e, diante daqueles restos, forçosamente meditamos no futuro.”
            “Deu-se com ele o que se dá com todas as almas de forte têmpera: a lâmina gastou a bainha.” Assim consta em sua biografia na Revista Espírita, maio de 1869, transcrita em Obras Póstumas. Sofria alguns anos de uma enfermidade do coração que exigia total repouso intelectual e pouca atividade física.
            Foi sepultado no dia 02 de abril de 1869, no Cemitério Montmartre, o mais antigo de Paris.

            Na primeira sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, após o sepultamento, os membros presentes, unanimemente, entenderam que deveriam homenageá-lo. Para tanto, seria erigido monumento em reconhecimento e simpatia, da parte de todos os espíritas. A iniciativa contou com o entusiasmo e adesão de espíritas franceses e estrangeiros.
            Em comum acordo com Madame Allan Kardec, decidiu-se que seria um dólmen, que no fundo, figurava simplicidade, universalidade e eternidade. Sob o aval de Madame Allan Kardec, uma comissão ficou responsável das providências afins.
            Concluídos os trabalhos, que consumiram cerca de 30 toneladas de pedras, no dia 29 de março, foram exumados os despojos materiais de Allan Kardec e realizada a transferência. No dia 31 de março de 1870, por volta das quatorze horas, os espíritas inauguraram o monumento dolmênico em sua memória, no Cemitério do Père-Lachaise.
            Alguns companheiros espíritas discordam da homenagem, fundamentados é claro, na cultura espírita. Na questão 324 de “O Livro dos Espíritos”, os Reveladores Celestes afirmam que os desencarnados são menos sensíveis às honras que lhes tributam do que às lembranças, no que diz respeito às homenagens a eles patenteadas através de estátuas ou monumentos.
            O Espírito Allan Kardec paira sobre essas questiúnculas terrestres. Render-lhes as justas e devidas homenagens é honrar e sublimar o verdadeiro dólmen da imortalidade que ele edificou: A Doutrina dos Espíritos. Deveremos zelar por este dólmen, erigido sobre três esteios graníticos: filosófico, científico e moral, tendo a estrutura do seu chapéu de cobertura a Lei Natural. A sua argamassa é traçada na unversalidade dos ensinos dos Espíritos e na fé raciocinada.
            Quando o Sr. Muller expressou em seu telegrama que: “forçosamente meditamos no futuro”; meditava sobre o agora; forçosamente meditava sobre esta geração de espíritas. Portanto, para que possamos gravar o nome de Kardec no panteão da História, cabe a cada espírita individual e coletivamente, a responsabilidade hoje de meditarmos sobre o futuro, para legar o dólmen da imortalidade para as gerações seguintes, incólume, sob o risco de comprometermos a marcha do progresso do Espiritismo, consequentemente, o progresso da Humanidade.
            Homenageamos hoje (31) o homem e o Espírito Allan Kardec. “Já não existe o homem,(...). Entretanto, Allan Kardec é imortal em sua memória, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sempre fazer respeitado”, assim é a conclusão de seus dados biográficos em Obras Póstumas; assim também é a nossa conclusão.





       
(*) livre-pensador e voluntário do Instituto de Cultura Espírita.
.

Comentários

  1. Bela e oportuna homenagem, meu caro. Feliz pascoa ! Aline Loiola.

    ResponderExcluir
  2. Francisco Castro de Sousa31 de março de 2013 às 15:53

    MEU CARO JORGE,
    EXCELENTE TEXTO E OPORTUNA A HOMENAGEM. KARDEC E SEU LEGADO MERECEM ESSE TIPO DE REFERÊNCIA. REPERCUTIREMOS SEU TEXTO NO PROGRAMA ANTENA ESPÍRITA DE HOJE, 31.03.2013 - 144 ANOS DEPOIS!
    CASTRO

    ResponderExcluir
  3. Caríssimo Castro!
    Fico feliz pela iniciativa, principalmente por nascer de você.
    Obrigado!

    ResponderExcluir
  4. Ligiane Neves - Casa do Caminho de Aquiraz31 de março de 2013 às 23:31

    Bela homenagem a esse homem que em tudo foi zeloso com a doutrina espírita!
    Parabéns pelo belo texto!
    Gratos estamos pelo trabalho de todos que contribuem com o blog.
    Muita paz, amor e sucesso a todos!

    ResponderExcluir
  5. Parabéns Jorge Luiz pela brilhante homenagem! "(...)Allan Kardec é imortal em sua memória..." Lindo texto!

    ResponderExcluir
  6. Parabéns caro amigo Jorge, belo texto! (Gardênia Carlos)

    ResponderExcluir
  7. Obrigada Jorge.
    Já postamos no blog do Bezerra.
    Abraço fraterno.
    Luíza

    ResponderExcluir
  8. Francisco Castro de Sousa31 de março de 2016 às 16:01

    Jorge Luiz, Hoje lhe parabeniso por ter reprisado esse texto, mais uma vez no dia 31 de março de 2016, quando são completados 147 anos que o Mestre Lionês deixou o corpo para retornar à Pátria Espiritual com a missão cumprida!

    ResponderExcluir
  9. Bela e oportuna lembrança!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O COTIDIANO DO TRATAMENTO DO HOSPITAL ESPÍRITA ANDRÉ LUIZ - HEAL

O presente trabalho apresenta a realidade da assistência numa instituição psiquiátrica que se utiliza também dos recursos terapêuticos espíritas no tratamento dos seus pacientes, quando estes solicitam os mesmos. Primeiramente, há um breve histórico do Hospital Espírita André Luiz (HEAL), acompanhado da descrição dos recursos terapêuticos espíritas, seguido, posteriormente, do atendimento bio-psico-sócio-espiritual, dando ênfase neste último aspecto.         Histórico     O HEAL foi fundado em 25/12/1949, por um grupo de idealistas espíritas, sob orientação direta dos espíritos, em reuniões de materialização, preocupados com a assistência psiquiátrica aos mais carentes daquela região, além de oferecer o tratamento espiritual para os atendidos, por acreditarem na conjunção das patologias psiquiátricas com os processos obsessivos (ação maléfica dos espíritos).     O serviço de internação foi inaugura...

FRONTEIRAS ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO

  Por Jerri Almeida                A produção literária, desde a Grécia Antiga, vem moldando seus enredos e suas tramas utilizando-se de contextos e fatos históricos. Os romances épicos, que em muitos casos terminam virando, contemporaneamente, filmes ou novelas de grandes sucessos, exploram os aspectos de época, muitas vezes, adicionando elementos mentais e culturais de nosso tempo. Essa é uma questão perigosa, pois pode gerar os famosos anacronismos históricos. Seria algo como um romance que se passa no Egito, na época de um faraó qualquer, falar em “burguesia egípcia”. Ora, “burguesia” é um conceito que começa a ser construído por volta dos séculos XII-XIII, no Ocidente Medieval. Portanto, romances onde conceitos ou ideias são usados fora de seu contexto histórico, tornam-se anacrônicos.

SER HUMANO: ZONA DE INTERESSES – DA COISIFICAÇÃO DA VIDA AO NEGÓCIO DA MORTE

    Por Jorge Luiz O Sujeito como Território de Caça  Thomas Hobbes, em sua festejadíssima obra Leviatã (1651), sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Para ele, a ausência de uma autoridade central condenaria a humanidade a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”. O remédio hobbesiano é o Contrato Social de submissão: a entrega irreversível do poder ao Soberano (Estado) em troca de segurança. Hobbes rompe com o pensamento puramente religioso ao defender o Erastismo — a subordinação da Igreja ao poder civil —, sob a premissa de que não pode haver dois senhores disputando a obediência do súdito. Contudo, o Leviatã de Hobbes não anteviu a mutação do Estado-Nação sob o capitalismo. O sistema, consolidado entre os séculos XVIII e XIX, transitou do mercantilismo para o liberalismo industrial, onde o Estado parece diminuir sua intervenção, mas se agiganta na construção das subjetividades. Como propõe Louis Althusser , o Estado realiza-se através de s...

CIVILIZAÇÃO

  Por Doris Gandres A mim me admira como a filosofia espiritista ainda hoje, passados cerca de 160 anos de seu lançamento a público como corpo de doutrina organizada com base na pesquisa e no bom senso, se aplica a situações e condições contemporâneas. Ao afirmar que nos julgamos “civilizados” devido a grandes descobertas e invenções, por estarmos melhor instalados e vestidos e alimentados do que há alguns séculos, milênios até – o que hoje sabemos estar restrito a uma minoria dentro da humanidade – percebemos o quanto de verdade encerra essa afirmativa ao nos chamar a atenção de como estamos iludidos.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O ESTUDO DA GLÂNDULA PINEAL NA OBRA MEDIÙNICA DE ANDRÉ LUIZ¹

Alvo de especulações filosóficas e considerada um “órgão sem função” pela Medicina até a década de 1960, a glândula pineal está presente – e com grande riqueza de detalhes – em seis dos treze livros da coleção A Vida no Mundo Espiritual(1), ditada pelo Espírito André Luiz e psicografada por Francisco Cândido Xavier. Dentre os livros, destaque para a obra Missionários da Luz, lançado em 1945, e que traz 16 páginas com informações sobre a glândula pineal que possibilitam correlações com o conhecimento científico, inclusive antecipando algumas descobertas do meio acadêmico. Tal conteúdo mereceu atenção dos pesquisadores Giancarlo Lucchetti, Jorge Cecílio Daher Júnior, Décio Iandoli Júnior, Juliane P. B. Gonçalves e Alessandra L. G. Lucchetti, autores do artigo científico Historical and cultural aspects of the pineal gland: comparison between the theories provided by Spiritism in the 1940s and the current scientific evidence (tradução: “Aspectos históricos e culturais da glândula ...

OS GÊMEOS ANTE O AFETO E A HOSTILIDADE NA FAMÍLIA

  A gestação de um novo filho na família é a possibilidade do reencontro de seres de vivências passadas no contexto do lar. Reencontro que se inicia no programa pré-existencial reencarnatório, planejado nos departamentos do além-túmulo. Nessa conjuntura há uma união tão intensa entre pais e reencarnante que o nascituro sabe, antes mesmo de renascer, se será acolhido ou rejeitado. No caso de filhos gêmeos, são situações especiais que sempre despertam a atenção, tanto de cientistas como de espiritualistas. Várias teorias já foram sugeridas a fim de explicar os mecanismos determinantes da gemelaridade. Fatores ambientais e genéticos foram descritos como predisponentes a essa circunstância obstétrica. Todavia existem causas mais transcendes.

DEPRESSÃO

  1 – Fala-se que a depressão é o mal do século. Estamos diante de um distúrbio próprio dos tempos atuais, uma síndrome da modernidade? Mais apropriado considerar que é um mal antigo com nome novo. Se falarmos em melancolia, perceberemos que ela sempre esteve presente na vida humana. Os melancólicos de ontem são os deprimidos de hoje. Hipócrates (460 a.C-370 a.C.) definia assim a melancolia: Uma afecção sem febre, na qual o Espírito, triste, permanece sem razão fixado em uma mesma ideia, constantemente abatido. É mais ou menos isso o que sente o indivíduo em depressão, com a impressão de que a vida perdeu a graça.

OPINIÕES PESSOAIS APRESENTADAS COMO VERDADES ABSOLUTAS

  Por Orson P. Carrara                Sim, os Espíritos nem tudo podem revelar. Seja por não saberem, seja por não terem permissão. As expectativas que se formam tentando obter informações espirituais são muito danosas para o bom entendimento doutrinário e vivência plena dos ensinos espíritas.             É extraordinário o que Kardec traz no item 300 de O Livro dos Médiuns, no capítulo XXVII – Das contradições e das mistificações . O Codificador inicia o item referindo-se ao critério da preferência de aceitação que se deve dar às informações trazidas por encarnados e desencarnados, desde que dentro dos parâmetros da clareza, do discernimento e do bom senso e especialmente daquelas desprovidas de paixões, que deturpam sempre.