Doris Gandres
Essa uma das bem aventuranças proferidas pelo Mestre Jesus em seu Sermão da Montanha, há quase 2 mil anos e da qual bem pouco se fala... Não foi mencionada nem comentada no Evangelho Segundo o Espiritismo por Allan Kardec e os Espíritos que com ele trabalharam, quando tantas outras lhes mereceram a atenção... E de algum tempo me pergunto por que...
Julgaram talvez, Kardec e a equipe espiritual, que ainda não tínhamos capacidade de entender o significado dessa afirmativa de Jesus? Que talvez, famintos e sedentos por justiça como estávamos – e ainda continuamos a estar – para nos saciarmos recorreríamos a métodos separatistas e violentos? Afinal, mesmo assim, mesmo relegando essa bem aventurança a segundo plano, praticamente ao ostracismo, povos e nações de todos os tempos, mesmo após o vinda do Cristo e mesmo ainda após o surgimento da doutrina espírita, recorreram ao domínio pela força de todo tipo com a justificativa de estabelecer e implantar justiça.
Portanto, ao que tudo indica, apesar de tantos séculos de tentativas de todo gênero, essas fome e sede ainda não foram saciadas. E parece que ainda teremos que trabalhar muito, estudar muito acerca das leis naturais e, sobretudo, nos esforçarmos para apreendê-las e mais ainda praticá-las, para que isso aconteça, visto que a nossa ânsia desenfreada de poder e a selvageria com que, ao alcançá-lo, pretendemos mantê-lo, ainda vigem largamente atuantes, mesmo ao custo do cerceamento dos direitos alheios de humanidade, cidadania e respeito.
Em Obras Póstumas, no Capítulo Liberdade, Igualdade e Fraternidade, Kardec argumenta, aliás com muita propriedade, que nessa tríade a primeira condição a ser observada é a fraternidade, pois sem ela não se daria jamais a situação de liberdade e de igualdade entre e para todos. Bastante compreensível essa reflexão ao entendermos que, se não considero as outras criaturas como seres como eu, detentores dos mesmos direitos e deveres que eu, se não tenho para com todos os demais o olhar e o sentimento fraternos, dificilmente poderei consentir liberdade e igualdade a todos...
Enquanto isso, em O Livro dos Espíritos, na questão 812a, os Espíritos asseguram que “os homens se entenderão quando praticarem a justiça”. Resposta clara e assertiva, que não nos deixa nenhuma dúvida quanto à necessidade de desenvolvermos o sentido de justiça, de justiça para todos, quem quer que sejam, onde quer que seja, face a qualquer situação. Justiça humana, firmada na justiça das leis divinas: justiça no nosso cotidiano em relação a tudo e a todos que compõem a nossa vida, mesmo quanto aos menores eventos, às mais triviais atitudes do nosso dia a dia. Justiça a nascer do pensamento e sentimento a fim de que possa resultar em escolhas e posturas justas em profundidade, não somente em aparência.
Entendo que, quando Jesus disse que “aqueles que têm fome e sede de justiça seriam saciados” , referia-se exatamente ao sentimento de justiça inato em todos os Espíritos, disposição essa que se pronunciará quando o senso moral também se desenvolver, visto ser este também uma faculdade inata ao Espírito. Pretender, como pretendemos ainda, que a justiça venha de fora para dentro, do alto para baixo, não poderá jamais saciar a nossa fome e a nossa sede de justiça, pois que não brotou e vingou dentro de nós – e desse modo, sem que vigore e resplandeça na mente de cada um, nenhum decreto, nenhuma lei será capaz de implantar a justiça em sua pureza e abrangência.
A justiça em plenitude, consequentemente, será fruto da observância da lei áurea ensinada, recomendada e vivenciada pelo irmão maior, Jesus de Nazaré: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” e “fazer ao próximo o que desejo ele me faça”. Diríamos: nada mais simples, claro e óbvio. Porém ainda hoje de difícil realização por uma grande parte da humanidade... Contudo, sabemos que Deus nos criou simples e ignorantes, mas perfectíveis mediante nossos esforços para a conquista de condições cada vez mais favoráveis ao nosso progresso espiritual.
REFERÊNCIAS:
- Allan Kardec, Obras Póstumas, cap. Liberdade, Igualdade, Fraternidade
- O Livro dos Espíritos, q.812a

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirO "Silêncio" de Kardec: O artigo levanta uma hipótese instigante sobre o motivo de O Evangelho Segundo o Espiritismo não ter detalhado a bem-aventurança dos "famintos e sedentos de justiça". A ideia de que a humanidade ainda transformaria esse anseio em violência e separatismo (o que historicamente aconteceu) justifica a prudência da Codificação em focar, primeiro, na fraternidade.
A Precedência da Fraternidade: O texto acerta ao resgatar o pensamento de Kardec em Obras Póstumas. A justiça real não se estabelece por decreto; ela depende da fraternidade. Sem enxergar o outro como um irmão legítimo, qualquer tentativa de impor "igualdade" ou "liberdade" se converte em tirania ou nova forma de domínio.
Justiça de Dentro para Fora: O cerne do artigo está na compreensão de que a promessa de Jesus — de que seremos saciados — não se refere a uma justiça social externa, messiânica ou punitiva, mas sim ao despertar do senso moral inato em cada espírito. A fome e a sede de justiça só cessam quando nós passamos a agir com justiça nas mínimas atitudes do cotidiano.
Em suma, o texto é um belo chamado à autorreflexão. Ele nos lembra que a justiça divina e a lei de amor (a regra de ouro de Jesus) são indissociáveis: só mudaremos o mundo quando a justiça deixar de ser uma exigência que fazemos aos outros e passar a ser a lei que governa nossa própria intimidade.
Gostei muito do texto,
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