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A RELIGIÃO DO CAPITAL: O ENRIQUECIMENTO DOS PASTORES E A ESTERILIDADE DA FÉ INSTITUCIONAL.

 

 


 Por Jorge Luiz

 

A “Teocracia do Capital”: A Ascensão das Organizações Religiosas no Brasil Moderno

            Os números denunciam. Segundo o Censo de 2022, o Brasil tem mais estabelecimentos religiosos que superam a soma de hospitais e escolas. O número de organizações religiosas criadas por dia no Brasil varia de 17 a 25. Essas mesmas instituições movimentam mais de R$ 21 bilhões por ano, riqueza cujo retorno social institucionalizado é questionável. Esse montante, contudo, carece de um vetor social direto, uma vez que goza de imunidade tributária e não se reverte em investimentos em saúde ou educação. Tamanha pujança econômica permitiu, inclusive, que diversos pastores brasileiros figurassem na revista Forbes como detentores de fortunas bilionárias.

            Em contrapartida a isso tudo, o Brasil vive uma anomia moral. Os escândalos de toda a ordem explodem todos os dias. A reconhecida “bancada da bíblia”, composta predominantemente por pastores, integra ala do Congresso responsável pelos maiores desvios de verbas orçamentárias do Brasil. Representativo, também, o universo carcerário brasileiro é de significativa parcela de detentos declarados cristãos e o Judiciário classista condena prioritariamente os pobres, os negros e as mulheres.

            As instituições religiosas estão cheias, mas para a obtenção de favores divinos, como adverte David Hume; nenhuma delas, entretanto, declara expressamente que apenas a moralidade pode garantir o merecimento divino. Esses eclesiásticos e suas instituições não estão ali para inculcar nos fiéis, através dos seus sermões, não para buscarem o caminho das virtudes e dos bens morais, únicas coisas favoráveis a um ser perfeito, senão práticas frívolas, por um zelo imoderado, por êxtases violentos ou pela crença em opiniões misteriosas e absurdas (Hume, 2005).

            As pesquisas de Annie Besant e C. W. Leadbeater oferecem testemunhos notáveis acerca dessa realidade, pois assentam que nas igrejas foram percebidas formas-pensamento disformes de cor azul-opaca que pairam sobre os fiéis, refletindo a indefinição e a natureza egoísta ou temerosa de seus pensamentos. Em vez de devoção, surgem formas astrais de objetos e cenas mundanas como chapéus, joias, roupas luxuosas, carruagens, cavalos, bebidas, banquetes e até cálculos. Isso evidencia que, durante o culto, homens e mulheres estão focados em negócios, prazeres e preocupações terrenas, ignorando o propósito espiritual (Besant & Leadbeater, 1969).

            Assim, a ‘Teocracia do Capital’ se consolida não pela elevação do espírito, mas pela institucionalização do desejo terreno. O que se observa no Brasil moderno não é um avivamento da ética, mas a expansão de um mercado onde o sagrado é o meio, e o capital — material ou político — é o fim último.

            

O Diagnóstico Crítico: Medo, Superstição e Neurose

O cenário religioso brasileiro é caótico. As seitas evangélicas se multiplicam como células malsãs, sem guardar nenhuma afinidade com a mensagem ética dos Evangelhos. Centradas no Antigo Testamento(A.T.) por propósitos essencialmente dizimistas, têm sido instrumentalizadas por interesses políticos e criminosos. Suas práticas de cultos encontram alicerces psíquicos nas concepções marxista de “ópio do povo”, bem como a freudiana de “neurose obsessiva” e na perspectiva nietzschiana de uma “moral de escravos”. Os cultos são mais direcionados para curas e exorcismos sob atuação satânica.

A crítica de Bertrand Russel ressoa atualíssima ao considera a religião uma doença nascida do medo e como uma fonte de indizível sofrimento humano (Russel, 1972). No mesmo sentido, Hume oferece um diagnóstico preciso: a prática da moralidade é mais difícil que a da superstição, sendo, por isso, rejeitada, em favor desta última – que é sempre odiosa e opressiva (Hume, 2005). O resultado desse cenário de horror é uma massa amorfa de fiéis movida por um desamparo quase infantil que se deixa guiar por líderes inescrupulosos de toda a sorte.

 

As Consequências Sociais e o Futuro da Laicidade

            Inexistente na legislação brasileira, uma definição jurídica que diferencie “religião” de “seita” deixa o Estado vulnerável. Ambas são tratadas como organizações religiosas sob o mesmo manto constitucional. Em contraste, países como a França monitoram “movimentos sectários” que representam potenciais perigos à ordem pública e aos direitos humanos. Tal distinção é vital: enquanto a religião, na acepção agostiniana de religare, busca reconectar o humano ao divino através de uma ética universal; a seita frequentemente opera como uma facção de interesses restritos.

Nessa distinção conceitual, enxergam-se os princípios que comprometem a laicidade. Quando o conceito de “cidadania” é substituído pelo de “rebanho”, o Estado Laico deixa de ser um árbitro neutro para se tornar um balcão de negócios teocráticos, impulsionado pela relação promíscua entre seitas e a política partidária. Essa proliferação sinaliza o processo agônico das religiões de ortodoxia, que abandonam a autoridade espiritual para se fixarem como poderes puramente econômicos e sociais. O problema aqui exposto restringe-se à religião enquanto fenômeno social — nas perspectivas de Weber e Durkheim — e não à religiosidade intrínseca ao ser humano.

Esse cenário de retrocesso ganha contornos dramáticos no recrudescimento da violência contra a mulher. Estudos sociológicos apontam o patriarcado rígido das seitas neopentecostais como um dos vetores desse fenômeno. Ao sacralizar a submissão feminina sob a retórica da “preservação da família”, essas instituições oferecem uma blindagem moral ao agressor. A teologia do domínio invade o espaço doméstico, onde o “pastor-pai” e o “marido-senhor” se confundem, transformando o lar em um território de controle absoluto e de silenciamento, legitimado pelo púlpito.

 

            O Templo Vivo: A Prática do Bem como Única Via de Religiosidade

            O Censo 2022 do IBGE confirmou, também, o crescimento dos "desigrejados" — um grupo que não se identifica com instituições religiosas e já representa cerca de 9,3% da população. Este dado é sintomático e atesta o processo de agonia das religiões formais. Há pouco mais de uma década, Adjiedj Bakas e Minne Buwalda já sinalizavam a individualização da crença e a tendência à pluralidade, onde o indivíduo pode até manter sua fé, mas torna-se neutro frente às organizações, compartilhando opiniões éticas de matrizes distintas. Para os autores, o Humanismo seria o novo pilar da ordem mundial (Bakas & Buwalda, 2011), sendo a proliferação das seitas no Brasil o sinal evidente desse declínio institucional.

Nesse contexto, a filosofia de Henri Bergson torna-se essencial. Ao distinguir a religião estática da dinâmica, ele nos mostra que a moral dinâmica é um impulso vital, suprarracional e criador, que não se limita à pressão social (Bergson, 2019). Diante disso, ressoa a advertência de Jesus na Parábola da Figueira Estéril e sua profecia sobre a destruição do Templo: “não ficará pedra sobre pedra”. Essa visão ressurge com o Espiritismo, assentada na Lei de Adoração, que revela a religiosidade como patrimônio do Espírito e sentimento inato da Divindade (Kardec, 2000; Q. 650).

Essa ruína institucional é a resposta lógica ao que Walter Benjamin definiu como o capitalismo como religião: um culto puramente ornamental e sem tréguas, onde o consumo é a liturgia e os shopping centers são os verdadeiros templos da modernidade. Neles, a mercadoria é a divindade exposta e o crédito é a nova indulgência, materializando a impossibilidade apontada por Jesus de 'servir a dois senhores'. Ao trocar o fruto pelo brilho das folhas, essas instituições emulam a Figueira Estéril: ostentam poder econômico, mas secam por dentro por absoluta vacuidade ética.

Com o Espiritismo, a adoração passa a ser, enfim, 'em Espírito e Verdade'. Superamos, assim, a ‘moral fechada’ das seitas — exclusiva e punitiva — em direção a uma ‘moral aberta’, a qual reconhece o Templo Vivo em cada ser humano. O futuro da laicidade e da própria religiosidade depende dessa secularização ética, onde a prática do bem se torna a única liturgia possível.

 

Então, você, espírita, ainda mantém o entendimento de que a Doutrina Espírita é uma religião?"

        

           

 

 

Referências:

BAKAS, Adjiedj & BUWALDA, Minne. O futuro de Deus. São Paulo: A Girafa, 2011.

BENJAMIM, Wlater. O Capitalismo como religião. São Paulo; Boitempo, 2013.

BERGSON, Henri. As duas fontes da moral e da religião. Portugal: Edições 70, 2019.

BESANT & LEADBEATER, Anne e C. W. Formas de pensamento. São Paulo: Pensamento, 1969.

HUME, David. História natural da religião. São Paulo: Unesp, 2005.

RUSSEL, Bertrand. Por que não sou cristão. São Paulo: Exposição do Livro, 1972.

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    O artigo apresenta uma crítica contundente à 'Teocracia do Capital' no Brasil, onde o sagrado foi convertido em mercadoria. Ao cruzar o desmonte da economia real com o crescimento vertiginoso das fortunas de líderes religiosos, o texto expõe a anatomia de uma fé que, em vez de libertar, aprisiona o indivíduo em um ciclo de consumo espiritual. Utilizando Walter Benjamin e a simbologia da Figueira Estéril, o autor nos provoca: enquanto os novos templos se erguem como shoppings de luxo, a verdadeira religiosidade seca sob o peso do institucionalismo. É um convite necessário ao despertar da consciência contra a capitalização da mentira

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  2. Leonardo Ferreira Pinto14 de março de 2026 às 12:05

    Artigo como sempre bem fundamentado e articulado. Interessante saber que na legislação brasileira não há distinção entre religião e seita

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