Por Marcelo Henrique
A carne é fraca, diz o adágio popular, mas o Espírito DEVE ser forte, no sentido de entender, como seres espiritualizados em aprendizado (com a alcunha, momentânea, de sermos espíritas, isto é, com a ventura de termos sido “apresentados” à Filosofia Espírita que redireciona e reinterpreta a nossa ótica sobre a vida e o Universo), temos todas as condições de, sem precisar de prédicas carolas da religião “da hora”, escaparmos das “tentações” do mundo.
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Já escrevi e já palestrei sobre carnaval inúmeras vezes. Considero que, na medida que o tempo passa, também vamos amadurecendo a forma de ver e entender o que se passa conosco na existência terrena.
Minha educação e formação espírita foi sob bases rígidas, no início da década de 80, como um novato (na idade e na ambiência espírita) pertencente a uma instituição espírita tradicional, ortodoxa, vinculada a uma federativa estadual. Para crianças, adolescentes e jovens, vigorava a “Campanha Permanente de Evangelização Espírita Infanto-Juvenil” (1979) da Federação Espírita Brasileira.
Seja para os jovens como para os adultos, a rigidez “doutrinária” não dava qualquer espaço ao livre pensar – e este modelo, infelizmente, ainda prossegue atualmente, sem a necessária oxigenação de ideias que faz com que os agrupamentos humanos sigam progredindo.
Mas é uma fórmula que “dá certo”, principalmente para aqueles que se submetem – piamente, isto é, sem contestações – ao padrão estabelecido. Nele, oradores, dirigentes e escritores, sejam os “da casa” sejam os reconhecidamente ilustres, prescrevem normas de comportamento, muitas das quais “escudadas” em obras (tidas como) mediúnicas.
No padrão tradicional do meio espírita (mainstream), então, temos um padre e uma freira que, durante quase oitenta anos (considerada a data inicial em que as psicografias ditadas por Emmanuel e Joanna de Ângelis, transcritas em livros), ditam a “moral” que deve viger entre os espíritas “religiosos” – isto é, os que aceitam a composição trina, de trindade, de uma “doutrina” que se subdivide em ciência, filosofia e religião.
Para este “modus operandi”, o carnaval se afigura como um momento terrível. Os relatos repetidos à exaustão nas assembleias espíritas e reproduzidos em periódicos (impressos ou digitais) alertam para os “perigos” do carnaval, onde “entidades desencarnadas” tidas como “deletérias”, “do mal”, “obsessores”, das “trevas” irão “capturar” pela influência psíquica os “pobres” encarnados.
Neste sentido, amplia-se ao infinito duas posições: 1) a de indigência moral e de falta de equilíbrio, discernimento e poder de resistência dos encarnados; e, 2) o alto poder de convencimento e persuasão das entidades desencarnadas, que a “tudo observam”, inclusive os nossos mais íntimos pensamentos.
Nesta visão caótica, é essencial que os “homens de bem” se previnam e se protejam com “couraças espirituais” para que não sejam “presas fáceis” das ações vampirizadoras dos obsessores.
Obviamente que não minimizamos a relação simbiótica entre “vivos” e “mortos”, nem a advertência fraternal contida em “O livro dos Espíritos” acerca da “força” da influência dos Espíritos (desencarnados) em relação à humanidade (encarnados).
Mas o que se esquece ou se menospreza, nesta cantilena dogmática e igrejeira é a AUTONOMIA do Espírito, que tudo pode decidir para si mesmo e que possui, como atributos, dentro da gestão espiritual da atual existência física, as “ferramentas” para “resistir” a quaisquer apelos da materialidade (evidentemente, sobre a espiritualidade).
A carne é fraca, diz o adágio popular, mas o Espírito DEVE ser forte, no sentido de entender, como seres espiritualizados em aprendizado (com a alcunha, momentânea, de sermos espíritas, isto é, com a ventura de termos sido “apresentados” à Filosofia Espírita que redireciona e reinterpreta a nossa ótica sobre a vida e o Universo), temos todas as condições de, sem precisar de prédicas carolas da religião “da hora”, escaparmos das “tentações” do mundo.
Aliás, não é outra a ideia que reproduz uma discutível passagem evangélica de que, tendo Yeshua ido “orar” no “deserto”, lá compareceu o “diabo” para oferecer a ele “um outro caminho, uma outra opção”, para que ele “renegasse” a Deus e passasse a seguir o personagem do imaginário religioso, que existe, em essência, desde que o mundo é mundo, porque representa a porção inferior que habita em todos nós.
Portanto, afastando-nos de outra trindade que inspira as ações do mainstream espírita – que, por sinal e por sua vez, se “inspira” na moral judaico-cristã, ainda que tenha recebido uma “roupagem” diferente – composta por Temor, Culpa e Salvação, já passou a hora de pararmos de “defenestrar”, “ojerizar” e “demonizar” a festa que, neste ano, está nos dias iniciais de março do calendário de 2025.
Seja no carnaval, como num estádio de futebol, numa quermesse, numa festividade de bairro, num clube de lazer, numa danceteria, ou em qualquer outro lugar, NÃO É o ambiente que ocupa a posição de primazia. E, tampouco, não são os outros, seus desejos, suas vontades, suas preferências – sejam eles, encarnados ou desencarnados – que importam. Somos nós, o que somos espiritualmente e o que queremos para nós mesmos!
Assim, brinque, cante, dance, se divirta, namore, ame, veja os desfiles, participe dos blocos, destilando alegria e contentamento. Ou, então, que aproveite para passear, descansar, ir à praia ou ao campo, rever amigos ou parentes, escolhendo seus “programas”. Seus atos, assim como suas palavras e pensamentos, são o seu “juiz”.
E que, na quarta “de cinzas” você esteja refeito e pronto para a continuidade do ano e de sua experiência encarnatória. Sem precisar de Manuéis ou Joaninhas para dizer o que você deve fazer ou como deve ser, na vida e na continuidade da imortalidade espiritual.
Bom carnaval!

COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
ResponderExcluirEste artigo apresenta uma perspectiva crítica e reformista em relação à visão tradicional do Espiritismo sobre o Carnaval, deslocando o foco do "perigo externo" para a autonomia do espírito.
O autor questiona o que chama de mainstream espírita — caracterizado por uma estrutura dogmática e rígida — e propõe uma transição da "moral do medo" para a "moral da responsabilidade".
Pontos Centrais do Comentário:
Crítica ao Dogmatismo: O texto aponta que o movimento espírita absorveu uma roupagem "igrejeira", pautada no trinômio Temor, Culpa e Salvação, muitas vezes baseada em prescrições mediúnicas que limitam o livre-pensar.
Desmistificação do Ambiente: Ao contrário da visão clássica que "demoniza" o Carnaval como um campo de obsessão e vampirização, o autor argumenta que o ambiente em si é neutro. A primazia reside na atitude individual, seja em um bloco de rua ou em um estádio de futebol.
Protagonismo do Espírito: O artigo reforça que o indivíduo possui as ferramentas necessárias para resistir a apelos negativos sem precisar de "fórmulas prontas". A frase "a carne é fraca, mas o Espírito deve ser forte" sintetiza o apelo ao amadurecimento espiritual.
Emancipação Mental: Há um convite explícito para que o espírita deixe de ser um "indigente moral" dependente de orientações tutelares (citando de forma provocativa figuras como Emmanuel e Joanna de Ângelis) para se tornar o juiz de seus próprios atos.
Conclusão: O artigo é um manifesto pela laicização do pensamento espírita, defendendo que a alegria e o lazer são compatíveis com a espiritualidade, desde que vivenciados com consciência e sem as "couraças" do medo religioso.