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A FÉ COMO CONTRAVENÇÃO

 




Por Jorge Luiz

 

            Quem não já ouviu a expressão “fazer uma fezinha”? A expressão já faz parte do vocabulário do brasileiro em todos os rincões. A sua história é simbiótica à história do “jogo do bicho” que surgiu a partir de uma brincadeira criada em 1892, pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador do zoológico do Rio de Janeiro. No início, o zoológico não era muito popular, então o jogo surgiu para incentivar as visitas e evitar que o estabelecimento fechasse as portas. O “incentivo” promovido pelo zoológico deu certo, mas não da maneira que o barão imaginava. Em 1894, já era possível comprar vários bilhetes – motivando o surgimento do bicheiro, que os vendia pela cidade. Assim, o sorteio virou jogo de azar. No ano seguinte, o jogo foi proibido, mas aí já tinha virado febre. Até hoje o “jogo do bicho” é ilegal e considerado contravenção penal.

            Atualmente, as chamadas Bets e o “jogo do tigrinho” ou do “coelhinho” são apostas que vêm causando dificuldades financeiras em muitos lares. O jogo, especialmente jogos de azar e online, pode ser considerado uma dependência que afeta a saúde mental e social. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o jogo patológico como um transtorno mental, portanto, considerado vício. É um transtorno psiquiátrico conhecido como ludopatia ou jogo patológico. Dados do Banco Central, durante a CPI das Apostas Esportivas do Senado, em abril desse ano, afirmaram que os brasileiros gastam entre R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões, por mês, com apostas esportivas (bets), a maior parte dessa soma vai para os donos dos sites de apostas.

            A contravenção nas instituições ditas religiosas está disseminada no Brasil sem que ocorra uma intervenção do Estado para definir os papéis de religião e de seitas. Contudo, não é esse aspecto que interessa para as divagações filosóficas que aqui serão assentadas. A fé contraventora é aquela que o fiel doa ou aposta com esperança em Deus de ver os resultados que ele expecta, sim, no aspecto religioso, a partir do fiel e não do líder religioso.

            Allan Kardec elabora um verdadeiro tratado sobre a fé, quando a dispõe em três dimensões: a fé divina, a humana e a religiosa. Ao estudar o poder da fé, ele assenta o seguinte: No sentido próprio, é certo que a confiança nas suas próprias forças torna o homem capaz de executar coisas materiais, que não consegue fazer quem duvida de si. Aqui, porém, unicamente no sentido moral se devem entender essas palavras. As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má vontade, em suma, com que se depara da parte dos homens, ainda quando se trate das melhores coisas. Os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da humanidade (Kardec, 2007).

            Kardec, sempre racional e objetivo, descreve o aspecto em que a fé se revela contravencional. Realiza-se, pois, uma amálgama das dimensões kardecianas da fé, com resíduos ainda da fase da evolução humana, conhecida como pensamento mágico. São muitos os estudos e as ideias sobre a magia no decurso da evolução do pensamento humano e religioso. Nessa fase, ocorre uma compreensão, vê-se muito nesses dias, nas práticas neopentecostais, o pensamento mágico a partir da possibilidade de coerção direta das forças naturais por parte do homem, quando o líder religioso induz ao fiel acerca da possibilidade de agir de forma mágica, através da “fé contraventora”, de se obter exigindo e obrigando a Divindade a atender as suas demandas materiais. A psicanálise também traz considerações importantes sobre o tema, a partir de manifestações de desejos inconscientes e mecanismos de defesa contra a ansiedade, muitas vezes ligados à necessidade de controlar o acaso e a incerteza. Tenta-se oferecer uma ordem a um mundo tão caótico, e disso se nutrir da esperança. Ora, não é a fé a mãe da esperança e da caridade, como bem assinala José, um Espírito Protetor? (Kardec, 2007).

            A fé se reveste da forma de mercadoria, referência máxima do deus mercado e embalada, a qual necessita dessa mesma forma mercadoria para negociar com O transcendente para a realização do seu desejo. A “fé contraventora” tem seus enganos não realizados por “ter sido pouca”, não suficiente. Contudo, no outro lado, gente como a gente se enriquece, líderes religiosos, influencers etc.

            É fundamental se compreender que a questão da contravenção da fé não se apresenta pelo reconhecimento ou não pelo Estado pela permissibilidade desses jogos, mas ela se define pelas questões morais sobre como Kardec estuda a fé. Quando a “fé contraventora” se esboça no contexto religioso, Kardec a apresenta como raciocinada ou cega. A cegueira da fé sempre leva essa prática à decepção e é frequentemente explicada pelos falsos religiosos como “ser pouca” para a realização daquilo que o profitente espera. Ocorre que no outro lado existem os gestores das igrejas ou casas de apostas. A causa disso tudo está na avareza ou na ganância, vício moral que o catolicismo a reconhece como um dos sete pecados capitais.

            Jesus, não poderia deixar de fazer referência a isso e no diálogo com o rico insensato – Lucas, 12:13-16, e adverte-o: Guardai-vos e acautelai-vos de toda avareza, porque a vida de cada um não consiste na abundância das coisas que possui, que é estudado no Cap. XVI, de O Evangelho Segundo o Espiritismo (Kardec, 2007). Nesse capítulo, Kardec fala da impossibilidade de não se servir a dois senhores – Deus e a Mamom. Mamom simboliza a riqueza, a ganância de se buscar na vida o acúmulo de bens materiais. Jesus direciona o olhar do interlocutor para a aquisição de valores imortais para o Espírito, conforme sugere Kardec quando analisa a Fé Divina.

                       

Referências:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: LAKE, 2007.

           

           

 

           

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA
    O artigo "A Fé Como Contravenção" traça um interessante paralelo entre a ascensão dos jogos de azar no Brasil, desde o "jogo do bicho" até as apostas online atuais, e uma distorção da fé religiosa.

    O autor argumenta que, assim como os jogos de azar se tornaram uma contravenção legal, algumas práticas religiosas, especialmente as neopentecostais, utilizam uma "fé contraventora". Essa fé seria aquela em que o fiel aposta em Deus com a esperança de obter resultados materiais específicos, transformando a fé em uma espécie de moeda de troca para manipular o divino.

    Baseando-se nas ideias de Allan Kardec sobre as três dimensões da fé (divina, humana e religiosa), o texto aponta que a "fé contraventora" se assemelha ao "pensamento mágico" primitivo, onde se acredita na coerção das forças naturais. Essa abordagem, segundo o autor, leva à decepção e beneficia apenas os líderes religiosos ou gestores de casas de apostas, que se enriquecem com a ganância alheia.

    O artigo conclui que a verdadeira fé, como Jesus e Kardec a compreendem, não se relaciona com a acumulação de bens materiais (Mamom), mas sim com a busca por valores imortais e a caridade, afastando-se da avareza e da cegueira da fé.

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