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O INQUIETANTE PROBLEMA DO FUTURO DO SER - PONDERAÇÕES EM TORNO DA OBRA O CÉU E O INFERNO EM SEUS 170 ANOS DE PUBLICAÇÃO!*

 

 

 Por Jerri Almeida

 

O grave problema da continuidade da vida após a morte despede-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.J. Herculano Pires [2]

 

            Preâmbulo

 Na introdução de sua magnífica obra História do medo no Ocidente, o historiador francês Jean Delumeau, conta em depoimento pessoal, que quando tinha dez anos, em uma noite de março, um farmacêutico muito amigo de seus pais morrera de forma súbita. A notícia chegou em sua casa e, naquele momento, ele descobriu o soberano poder da morte. Ela atinge pessoas com boa saúde e de qualquer idade. Sentia-se frágil, ameaçado; um medo visceral instalou-se em sua mente. Ficou doente por três meses, durante os quais foi incapaz de ir à escola.

Dois anos depois, seus pais o transferiram para um colégio de orientação religiosa (salesiano). A manhã da primeira sexta-feira de cada mês era consagrada às “litanias da boa morte”, ou seja, os alunos, na faixa dos doze anos, eram reunidos para a leitura de um texto ou de orações que traduziam inquietações sobre a morte, sempre seguidas da frase: “Misericordioso Jesus, tende piedade de nós”. Essa prática, na essência, refletia uma longa tradição da pedagogia religiosa. No centro dessas frases dramáticas, que as crianças regularmente repetiam, estava a ideia da “culpa”, minando suas consciências, vinculada a uma teologia do medo. Delumeau relata que durante todo mês, num período de dois anos que permaneceu nessa escola, o traumatizante conteúdo religioso fortaleceu ainda mais seu medo, não somente pela morte, mas pelo que viria para muitos após ela: o inferno [3].

O inquietante problema do futuro do Ser, com seus possíveis castigos e punições eternas, ou com sua consagração ao eterno ócio, nada criativo, serviu para formatar uma educação para atemorizar ou tornar cético os indivíduos: “Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura, liga-se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância. O quadro apresentado pela religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador.” [4]

A publicação por Allan Kardec, de O Céu e o Inferno, representou uma verdadeira ruptura epistemológica tanto em relação aos mitos ancestrais das culturas agrárias, como com o discurso culpabilizador das teologias do medo. Kardec tem a coragem do investigador, e a competência do pedagogo para examinar comparativamente os ensinos de alguns sistemas teológicos, com o espiritismo nascente.

Nesse artigo, pretendemos discutir a importância desse livro no conjunto da obra kardequiana e suas contribuições para o debate sobre o futuro do Ser, o que implica, inexoravelmente, numa nova perspectiva de reflexão sobre o significado e funcionamento da Justiça Divina.

 Objetivo e significação

O problema do destino, sob o desvelar da investigação dos fenômenos mediúnicos, descortinava claramente para Kardec, a necessidade de uma incursão mais profunda no exame de alguns sistemas religiosos e filosóficos mais impactantes na mentalidade do Ocidente. Certamente suas inquietações, nesse sentido, foram ao encontro das instruções dos espíritos mais lúcidos que o orientavam. Configurou-se o projeto de escrever uma obra específica sobre o assunto.

Na Revista Espírita de fevereiro de 1865, Kardec publica o texto “Da apreensão da morte” e na edição de março, do mesmo ano, o artigo “Onde é o Céu?”. No final desse último, há uma nota explicativa: “Este artigo, bem como o do número precedente sobre a apreensão da morte, são extraídos da nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente.” Na Revista de setembro, também do mesmo ano de 1865, nas “Notícias bibliográficas” além do livro já aparecer para venda, temos um importante texto de Kardec tecendo considerações sobre os objetivos e a estrutura do novo livro, o que ele chamou de “um resumo do prefácio”.

O título dessa obra indica claramente o seu objetivo. Aí reunimos todos os elementos próprios para esclarecer o homem sobre o seu destino. Como nos nossos outros escritos sobre a doutrina espírita, aí nada introduzimos que seja produto de um sistema preconcebido, ou de uma concepção pessoal, que não teria nenhuma autoridade; tudo aí é deduzido da observação e da concordância dos fatos.

E, continua seus esclarecimentos:

O Livro dos Espíritos contém as bases fundamentais do Espiritismo; é a pedra angular do edifício; todos os princípios da doutrina aí são apresentados, até os que devem constituir o seu coroamento; mas era necessário dar-lhe os desenvolvimentos, deduzir-lhe todas as consequências e todas as aplicações, à medida que se desenrolavam pelo ensino complementar dos Espíritos e por novas observações. Foi o que fizemos no Livro dos Médiuns e no Evangelho Segundo o Espiritismo, em pontos de vista especiais; é o que fazemos nesta obra sob um outro ponto de vista, e é o que faremos sucessivamente nas que nos restam a publicar, e que virão a seu tempo.

Ao trazer para o centro das reflexões, agora com mais amplitude, o problema do destino no plano das concepções existentes, Kardec não o faz por mera especulação pessoal, histórica e muito menos religiosa. Apresenta, no mínimo, cinco critérios nos quais se baseia para fundamentar seus argumentos:

a)         Experimentação: Do método (O Livro dos Médiuns – 1ª. Parte, Cap. 3)

b)        Observação: Há espíritos? (O Livro dos Médiuns – 1ª. Parte, Cap. 1)

c)      Depoimentos: espíritos em diversas situações psicológicas e emocionais. (O Céu e o Inferno, 2ª. Parte, Exemplos)

d)       Concordância universal do ensino (Exame das comunicações mediúnicas que nos enviam. In. Revista Espírita, Maio de 1863)

e)      Critério filosófico da razão e do bom-senso aplicado às informações recebidas. (“Sou um homem positivo, sem entusiasmo, que tudo julgo friamente; raciocínio de acordo com os fatos...” Allan Kardec. Primeira Carta ao Padre Marouzeau, In. Revista Espírita, Julho de 1863))

 Homem aberto ao diálogo, Kardec, por vezes lembrou que: “As ideias falsas, postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica.” [5]  Assinala, ainda, que o critério de análise para a aceitação de um conhecimento, dito espírita, está no controle do ensino universal dos espíritos.

Na prática, significa que nenhuma verdade aparece isoladamente. A análise do conteúdo e significado das manifestações mediúnicas, por exemplo, foram obtidas por ele através de diferentes médiuns em diferentes localidades. Tais manifestações, antes de serem aceitas como verdadeiras, eram submetidas a uma análise comparativa para que se evidenciasse ou não, o consenso e o caráter de universalidade do ensino. Kardec, utilizando-se de diferentes médiuns, propunha-lhes temas pertinentes a certos problemas filosóficos, científicos e morais, com o objetivo de colher esclarecimentos ou ensinamentos compatíveis com a natureza dos assuntos investigados. Por isso, sua ênfase na “observação” e “dedução dos fatos”, submetidos ao critério da “concordância” ou da “universalidade do ensino”, para assim serem aceitos.

Há, naturalmente, uma busca incessante de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não para com ele, nem mesmo o esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto da obra kardequiana, uma importante organicidade e nos convida ao estudo integrado de seus textos, de forma a evitarmos a fragmentação da teoria. 

A primeira parte de O Céu e o Inferno, denominada “Doutrina”, contém o exame comparativo entre diversas crenças sobre a situação da alma no pós-morte, as penas e recompensas futuras, incluindo uma discussão sobre anjos e demônios. O dogma das penas eternas é refutado por argumentos lógicos e experimentais com base na razão e nas leis naturais. A segunda parte, denominada “Exemplos”,  apresenta interessante estudo sobre “o passamento”, ou  transição para a vida espiritual, e o depoimento de diversos espíritos, em variáveis condições psicológicas e emocionais. Essas narrativas adverte Kardec, não são fatos isolados, mas representam exemplos que surgem “em toda parte onde se ocupam das manifestações espíritas de um ponto de vista sério e filosófico”. [6]

Dessa forma, a estrutura do livro, plenamente integrado no conjunto da teoria espírita, já que podemos inferir que ele desdobra a parte IV de O Livro dos Espíritos, se detém no estudo da “vida de além-túmulo”, num vasto panorama de reflexões, onde: “cada um aí exibirá novos motivos de esperança e de consolação e novos suportes para firmar a fé no futuro e na justiça de Deus.” [7]

Trata-se, portanto, de uma obra que irá contrapor aos dogmas fundamentais da teologia cristã e, ao mesmo tempo, ao pensamento da filosofia existencialista e materialista. Com isso, o pensamento espírita, numa perspectiva dialética, rompe com a ideia de “salvação” e com a pedagogia do medo, situando o homem na condição de espírito imortal e pluexistencial. A dinâmica da evolução espiritual do homem transcende ao discurso reducionista do “castigo divino” e do existencialismo vazio.

O Espiritismo, jamais se fechando em dogmas, mas defendendo o direito ao livre exame, propõe o “filtro da evolução”, para bebermos em águas mais límpidas o entendimento da Justiça Divina. Os exemplos estudados por Kardec, de inúmeros indivíduos que desbravaram a fronteira da morte, e que, sim, retornaram para contar o que encontraram, reforça o que o pensamento grego, especialmente de Sócrates e Platão, já havia refletido.

 Conclusão

     Ao refletimos sobre os 150 anos da publicação de O Céu e o Inferno, cumpre-nos revisitar suas páginas e analisar seus conceitos. Os espíritas não devem, sob nenhum argumento, reproduzir os velhos e superados ensinos das teologias do medo. Com o Espiritismo, o inquietante problema do futuro do Ser, deixa de ser tão inquietante! A vida futura se desdobra em múltiplas possibilidades experienciais e educativas.

Desejamos, finalmente, concluir essa reflexão com um belo texto publicado na Revista Espírita, maio de 1863 [8], e assinado por Viennois, que resume bem o conjunto do pensamento espírita sobre a transição para a vida espiritual e o futuro do Ser:

A passagem da vida terrena à espiritual oferece, é certo, um período de confusão e de turbação para a maioria dos que desencarnam. Mas há alguns que, já em vida desprendidos dos bens terrenos, realizam essa transição tão facilmente como uma pomba que se eleva nos ares. É fácil vos dardes conta dessa diferença examinando os hábitos dos viajantes que vão atravessar o oceano. Para alguns a viagem é um prazer; para maior número um sofrimento vulgar, que durará até o desembarque. Então! É, por assim dizer, para viajar da terra ao mundo dos Espíritos. Alguns se desprendem rapidamente, sem sofrimento e sem perturbação, ao passo que outros são submetidos ao mal da travessia etérea. Mas acontece isto: é que assim como os viajantes que tocam à terra, ao sair do navio, recobram o aprumo e  a saúde, também o Espírito que transpõe os obstáculos da morte acaba por se achar, como no ponto de partida, com a consciência limpa e clara de sua individualidade.

  Aí está, portanto, a solução para os mais angustiantes problemas sobre o futuro do Ser. Nem céu, nem inferno, mas vida pujante que se desdobra pelas veredas da evolução. Nesse sentido, compete a cada indivíduo, o esforço natural para viver bem, preparando-se a cada dia, para a  viagem de retorno ao seu mundo de origem, continuando suas experiências de crescimento ético-espiritual. 


NOTAS

[1] Autor dos livros: Kardec e a revolução na fé  e  A Convivência na Casa Espírita.

[2] Nota sobre o livro. In. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Trad. João Teixeira de Paula e J. Herculano Pires. 11ª. ed. São Paulo: Lake, 2004. p.10.

[3] ALMEIDA, Jerri R. Kardec e a Revolução na fé. Porto Alegre: Olsen, 2014. Cap.

[4] KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, Primeira parte, Cap. II, item 6.

[5] KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1865, p. 295

[6] Perguntas e Problemas. Espíritos incrédulos e materialistas. Sociedade Espírita de Paris, 27 de março de 1863.

[7] KARDEC, Allan. Notícias bibliográficas. Revista Espírita, Setembro de 1865. Edicel. p.276.

[8] Idem. p.277.

 

*o artigo foi publicado em junho de 2015, no blog Diálogos Filosóficos, por ocasião das comemorações dos 150 anos da obra o Céu e o Inferno.

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