Pular para o conteúdo principal

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

 

Por Jorge Luiz

“Eu ando pelo mundo divertindo gente/Chorando ao telefone/E vendo doer a fome dos meninos que têm fome/Pela janela do quarto/Pela janela do carro/Pela tela, pela janela/Quem é ela, quem é ela?/Eu vejo tudo enquadrado/Remoto controle/Eu ando pelo mundo/E os automóveis correm para quê?/As crianças correm para onde?”

O paralelismo semântico de Adriana Calcanhoto na poesia Esquadros, da qual pincei os versos acima, é de uma riqueza verbal tamanha que saindo da subjetividade da autora, permite a qualquer curioso moldá-la às múltiplas possibilidades de sentidos, no contexto das crises existenciais do homem nos dias atuais. Quem se permite ao exercício, perceberá os indivíduos submetidos a uma velocidade alucinante, imposta por um sistema que leva esses indivíduos a viverem as próprias contradições desse sistema, que se reproduz em relações baseadas em formas de mercadorias. Eu faço isso, constantemente.

Colapsados por esse sistema, sem saberem quem são, para onde vão, colados um ao outro sequer se falam, ou mesmo ouvem. Enquanto nas redes sociais, são seguidos e seguem centenas sem nenhum sentido que deem significados às vidas de cada um.

Pelas janelas dos carros, o que se vê são semblantes taciturnos, amargurados; peles e olhos sem brilho, que sinalizam a falta de horizontes e significados maiores e necessários na vida. Alguns, das classes mais pobres, apenas subsistem diante das vidas miseráveis as quais são submetidos. O mundo se tornou um palco de miséria para milhares de indivíduos e opulência para uma minoria. Famílias, crianças, adultos, pedintes nos semáforos das grandes cidades, que dormem ao relento, submetidos à chuva e ao sol. Os “boias frias” não são mais privilégio dos cortadores de cana, agora os vemos fazendo suas refeições sob árvores, pilotis das construções. Os direitos universais declarados em 1948 a todos os cidadãos lhes são negados.

Em contrapartida a tudo isso, as riquezas do solo de Gaia são extraídas sob forma de ganância de poucos e já ameaça a sua sustentabilidade. Os bilionários já pensam em fugir para Marte. Faz-me lembrar, décadas passadas, um grande consultor que foi convocado para uma reunião com alguns desses bilionários, os quais já dispunham de bunkers para proteção deles e dos seus, em caso de um colapso do Planeta, que orientação ele daria. O consultor respondeu: compartilhem parte de suas riquezas com os pobres. A reunião foi encerrada, uma vez que a proposição não os interessou. A situação mudou um pouco, é necessário se reconhecer, já há sinalizações a esse respeito.

Apesar de todos os avanços tecnológicos à Inteligência Artificial, a Inteligência Natural ainda não respondeu as questões mais angustiantes e que mudariam os destinos da humanidade, naquilo que o Espiritismo propõe: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Inspiradas na ciência espírita, as ciências já dispõem de material, no mínimo empírico, para ser modesto, para as respostas às questões ensejadas, mas nenhuma atende aos interesses do modelo de reprodução social que as sociedades estão submetidas.

A meritocracia é o brado geral de um fracassado “modelo econômico dominante, que supostamente deveria nos garantir emprego digno, colocar comida e preços acessíveis nas nossas mesas, vestir camisas nas nossas costas, calçar os nossos pés, colocar celulares nas nossas mãos e automóveis nas nossas garagens, ao mesmo tempo que deveria nos oferecer uma gama de serviços coletivos (como saúde, educação, moradia e transporte) para garantir uma qualidade de vida cotidiana razoavelmente satisfatória.” (Harvey, 2024). Nada disso se concretizou e, ainda assim, a ideologia do modo de reprodução capitalista marcou indelevelmente o inconsciente da massa que a faz desesperadamente se debater como mariposas diante da luz, e até mesmo os oprimidos a defenderem os que os oprimem. “Ora, nada nos enreda em maiores males do que o fato de agirmos conforme a voz comum. Julgamos ser melhor o que é aprovado pelo consenso geral e, assim, vivemos a imitação dos inúmeros exemplos apresentados a nós, e não conforme a razão. Daí provém esse amontoado de homens caindo uns sobre os outros.” (Sêneca, 2001).

A indiferença e o pessimismo permeiam as relações entre os indivíduos. A luta de classe foi sufocada pelos conflitos entre nações que geram guerras e genocídios provocando uma legião de refugiados, que, em busca de abrigo, só encontram portas fechadas.

Ao se analisar a questão das desigualdades das riquezas – Livro III-III-IV, em O Livro dos Espíritos (O L. E.) -, é anatemizado aquele que se aproveita da sua situação social para oprimir os fracos em proveito próprio, essa é a ideologia capitalista. Todos podem gozar bem-estar relativo, se todos se entendessem bem. “O equilíbrio existe em tudo e o homem é o que o perturba” (Kardec, 2000).

Há de se compreender que os indivíduos estão submetidos às leis divinas ou morais e, quando esse equilíbrio é rompido, há a necessidade de atitudes para se corrigir essa distorção, sejam individuais ou coletivas, assim é a lei da reciprocidade ou solidariedade (Lei de Causa e Efeito, como se gosta de falar) questão número 633, de O L.E. onde se ler “a lei natural traça para o homem o limite das suas necessidades, quando ele o ultrapassa é punido pelo sofrimento.” (Kardec, 2000).

Nesse considerando, o equilíbrio só será reestabelecido com a superação das iniquidades terrenas presente a recomendação de Jesus na parábola “A vida Eterna e o Castigo Eterno”, que diz “quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste.” (Mt, 25:40).

“Mas sei que uma dor assim pungente/Não há de ser inutilmente/A esperança dança/Na corda bamba de sombrinha/ em cada passo dessa linha/Pode se machucar.” (Aldir Blanc/João Bosco). Ligeiramente, os versos de Blanc e Bosco nos convida à esperança. Essa é a esperança que sustenta, não a esperança da simples espera, mas a esperança da certeza para a realização de um objetivo, pois esse objetivo é o compartilhar das riquezas produzidas para que todos tenham direito ao seu quinhão consoante o seu mérito na produção dessas riquezas, como Jesus compartilhou o pão na Santa Ceia. É a esperança do Reino anunciado por Jesus.

Até aqui, “um certo número de pessoas é privado de esperança e com frequência e por certos períodos de tempo, a cultura da comunidade é sequestrada. Sequestrada por bandidos e pela cultura da bandidagem. Sequestrada por todos os elementos e operadores que se apoderam e até mesmo vivem da perda de esperança. (...) Podemos fazer a livre iniciativa e o capitalismo, finalmente, funcionarem de verdade para os pobres, as classes batalhadoras e os filhos pequeninos de Deus” (Bryant, 2016). A esperança reside na visibilidade da massa invisível criada pelo capitalismo selvagem. Bryant apresenta, em sua obra, uma teoria de inserção dos pobres na distribuição das riquezas que eles mesmos produzem, que na sua visão, salvaria o capitalismo.

“Há uma nova geração que indica esperança, os nascidos depois de 1997, que são muito mais idealistas e progressistas. Sinto-me tão velho (em seus 34 anos!) quando lhes dou aula... Eu nunca pensava nas mudanças climáticas, nos abusos sexuais ou nos maus-tratos de animais quando eu era estudante. Os movimentos de protesto triplicaram desde 2006. Isto, sim, é progresso!” (Bregmam, 2021). Bregmam resgata a concepção rousseauniana de que o homem nasce bom, porém, a propriedade privada o degrada. Que ele esteja certo.

Óbvio que essa esperança não é no sentido usual do termo, mas uma esperança para mudanças, no esperançar segundo Paulo Freire. Para o cristão, a esperança é uma abertura confiante que ele relaciona ao reino de Deus como seu futuro. Mas exige também uma importante afirmação de que se faz já agora: (...) o reino de Deus exige uma mudança fundamental nos homens, a qual, no seu aspecto essencial, constitui a prática da caridade. (...) à mudança que se deve operar em quem opera, a não ser a mudança de não esperar para esperar.(SOBRINO, 1992)

         Na concepção de José, Espírito Protetor, Bordeaux, mensagem de 1862, a esperança que se equilibra com o apoio de sua mãe, a fé, e da irmã, a caridade. “Não é a fé que nos sustenta a esperança de vermos cumpridas as promessas do Senhor; porque, se não tivermos fé, que esperaremos? Não é a fé que nos dá o amor? Pois, se não tiverdes fé, que reconhecimento tereis e, por conseguinte, que amor?” (Kardec, 2007).

 

Referências:

BREGAM, Rutger. Humanidade: uma história otimista do homem. São Paulo: 2021.

BRYANT, John Hope. Como os pobres podem salvar o capitalismo. Porto Alegre: Citadel, 2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

HARVEY, David. Crônicas anticapitalistas. São Paulo: Boitempo, 2024.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Lake, 2007.

_____________. O livro dos espíritos. São Paulo: Lake, 2000.

SÊNECA. Da vida feliz. São Paulo: Martins Fortes, 2001.

SOBRINO, Jon. Espiritualidade da libertação. São Paulo; Loyola, 1992.        

Comentários

  1. Leonardo Ferreira Pinto27 de agosto de 2024 às 11:44

    Que texto magnífico. É para ler e reler , pensar, refletir.

    ResponderExcluir
  2. Olá, meu amigo Léo! Gratidão! Jorge Luiz

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

O CAMBURÃO E A FORMA-MERCADORIA: A ANATOMIA DE UMA EXCLUSÃO ÉTICA

      Por Jorge Luiz   A Estética do Terror O racismo estrutural não é um ato isolado, mas uma relação social que estrutura o Brasil. Quando a sociedade aceita que "bandido bom é bandido morto" , ela está, na verdade, validando que a vida de um homem negro periférico tem menos valor. Pesquisas indicam que, apesar de a maioria dos brasileiros reconhecer o racismo, a aplicação da frase seletiva perpetua desigualdades históricas de raça e classe, com a mídia e o sistema de segurança muitas vezes reforçando essa lógica. Um caso chamou a atenção da sociedade brasileira, vista nos órgãos de imprensa e redes sociais, de D. Jussaara, uma diarista que foi presa e contida de forma violenta pela Polícia Militar na Avenida Paulista, em São Paulo, após ir ao local cobrar diárias de trabalho que não haviam sido pagas por antigos patrões. O caso gerou grande indignação nas redes sociais. A trabalhadora recebeu apoio e foi recebida no Palácio do Planalto após o ocorrido.

ENCANTAMENTO

  Por Doris Gandres Encanta-me o silêncio da Natureza, onde, apesar disso, com atenção, podem-se perceber ruídos sutis e suaves cantos, quase imperceptíveis, das folhas e das aves escondidas. Encanta-me o silencioso correr dos riachos e o ronco contido de pequenas quedas d’água.

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

16.11 - DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.” (Jesus, Mt, 22:34-40)                            John Locke (1632-1704), filósofo inglês, com o propósito de apaziguar católicos e protestantes, escreveu em 1689, Cartas sobre a Tolerância. Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, impactado com o episódio ocorrido em 1562, conhecido como Massacre da Noite de São Bartolomeu , marcado pelos assassinatos de milhares de protestantes, por fiéis católicos, talvez inspirado por Locke, em 1763, escreveu o Tratado sobre a Tolerância.             Por meio da  UNESCO¹, em sua 28ª Conferência Geral, realizada de 25.10 a 16.11.1995, com apoio da Carta das Nações Unidas que “declara a necessidade de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,...a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e...

SILÊNCIO, PODER E RESPONSABILIDADE MORAL: A JUSTIÇA ESPÍRITA E A ÉTICA DA PALAVRA NÃO DITA

  Por Wilson Garcia   Há silêncios que protegem. Há silêncios que ferem. E há silêncios que governam. No senso comum, o ditado “quem se cala consente” traduz uma expectativa moral básica: diante de uma interpelação legítima, o silêncio sugere concordância, incapacidade de resposta ou aceitação tácita. O direito moderno, por sua vez, introduziu uma correção necessária a essa leitura, ao reconhecer o silêncio como garantia individual — ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Trata-se de um avanço civilizatório, pensado para proteger o indivíduo vulnerável frente ao poder punitivo do Estado. O problema começa quando esse direito — concebido para a assimetria frágil — é apropriado por indivíduos ou instituições fortes, que não se encontram em situação de coerção, mas de conforto simbólico. Nesse contexto, o silêncio deixa de ser defesa e passa a ser estratégia. Não responde, não esclarece, não corrige — apenas espera. E, ao esperar, produz efeitos.

EXPRESSÕES QUE DENOTAM CONTRASSENSO NA DENOMINAÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESPÍRITAS

    Representação gráfica de uma sessão na SPEE (créditos: CCDPE-ECM )                                                     Por Jorge Hessen     No movimento espírita brasileiro, um elemento aparentemente periférico vem produzindo efeitos profundos na percepção pública da Doutrina Espírita. Trata-se da escolha dos nomes das instituições.  Longe de constituir mero detalhe administrativo ou expressão cultural inofensiva , a nomenclatura adotada comunica valores, orienta expectativas e, não raro,  induz a equívocos graves quanto à natureza do Espiritismo . À luz da codificação kardequiana, o nome de um centro espírita jamais é neutro; ele é, antes, a primeira  síntese doutrinária oferecida ao público . Desde sua origem, o Espiritismo foi definido por Allan Kardec como uma doutrina de tríplice aspecto...

O OUTRO

A individualidade é a certeza de que ninguém está na mesma posição física ou espiritual de outrem, essa verdade não deve ser esquecida, senão incorreremos em falhas de observação prejudiciais às avaliações que antecedem o relacionamento humano e nos permitem estabelecer convivência saudável, decorrente de identificação adequada da personalidade de nossos pares. O próximo não é mais do que nosso semelhante, só nos é igual na potencialidade recebida e no destino reservado, tem o mesmo conjunto de germes perfectíveis contemplados pelo Alto, porém o desenvolvimento dessa poderosa capacidade justiçosa é trabalho de cada qual com colocação única na caminhada evolutiva, não é diferente da constatação concluída pela ciência humana, dois ou mais corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. 

10.12 - 140 ANOS DE NASCIMENTO DE VIANNA DE CARVALHO

Por Luciano Klein (*) Manoel Vianna de Carvalho (1874-1926) Com entusiasmo e perseverança, há duas décadas, temos procurado rastrear os passos luminosos de Manoel Vianna de Carvalho, alma preexcelsa, exemplo perfeito de inclinação missionária, baluarte de um trabalho incomparável na difusão dos postulados espíritas, por todo o País. Entre os seus pósteros, todavia, bem poucos conhecem a dimensão exata de seu labor inusitado, disseminando os princípios de uma verdade consoladora: a doutrina sistematizada por Allan Kardec.             Não nos passa despercebido, nos dias atuais, o efeito benéfico dos serviços prestados ao Movimento Espírita por Divaldo Pereira Franco. Através desse médium admirável, ao mesmo tempo um tribuno consagrado, Vianna de Carvalho se manifesta com frequência, inspirando-o em suas conferências fenomenais que aglutinam multidões.

A VERDADEIRA HONESTIDADE

                          José Brê faleceu em 1840. Dois anos depois, numa reunião mediúnica, em Bordéus, foi evocado por sua neta, em manifestação registrada no livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec. O diálogo entre ambos é um repositório marcante de ensinamentos que merecem nossa reflexão.             – Caro avô, o senhor pode dizer-me como vos encontrais no mundo dos Espíritos e dar-me quaisquer pormenores úteis ao meu progresso?             – Tudo o que quiser, querida filha. Eu expio a minha descrença, porém grande é a bondade de Deus, que atende às circunstâncias. Sofro, mas não como poderias imaginar. É o desgosto de não ter melhor aproveitado o tempo aí na Terra.           ...