Pular para o conteúdo principal

METAMORFOSE É RENASCIMENTO

 

 

Por Roberto Caldas

 

            Viver é necessariamente atravessar os ciclos do tempo. A própria progressão dos anos demonstra que, desde o nascimento até o desnudamento do corpo pelo fenômeno da morte, o ser espiritual encarnado processa uma série de mudanças obrigatórias. O fenômeno se expressa em regra compulsória ao detalhar as alterações que se impõem ao corpo físico, à medida do passar dos anos. O enredo biológico atende à programação genética e dessa forma será, para todos os indivíduos.

            No decorrer das mudanças corporais, os fenômenos culturais e educacionais vão pautando a construção de uma mentalidade que vai se esculpindo, dessa vez não obrigatoriamente, mas sendo alimentada por uma permissão interior que faz escolhas enquanto conforma um comportamento que individualiza o processo de transformação. 

            A pessoa se transformar biologicamente é matéria conhecida pela ciência. Como isso acontece na área da subjetividade, ainda é tema de pesquisas ainda muito distante de alcançar veredicto. Importam os fatores externos que incidem nos sentimentos e afetos que paulatinamente vão se assomando enquanto cada pessoa experimenta a convivência com a família e a sociedade. As lacunas dessa pesquisa derivam da forma como cada um reage e age diante de situações que geram estímulos aparentemente iguais.  

            Agir e reagir de forma particularizada torna cada pessoa única. Até mesmo quando se considere as experiências extra corpóreas do Espírito, o despertar para realidades peculiares se constitui num salto que raramente tem explicação simples. Provável que seja resultado de arranjos conscientes e inconscientes que deflagram abertura de portas internas que se abrem quando uma senha é alcançada pelo rearranjo de percepções confluentes e algo passa a fazer um sentido antes desconhecido.

            Transformar-se é efetivamente estabelecer renascimento. Cada vez que a percepção muda, a vida renasce. Essa constatação permite a cada pessoa passar de lagarta a borboleta para outra vez ser lagarta e de novo borboleta, numa metamorfose que destampa muito além da maturidade do corpo, a possibilidade da renovação que não cessa.

            A lógica da passagem do tempo de existência por si só não justifica o amadurecimento da subjetivação. Amadurecer mental e psicologicamente não é simplesmente fruto do passar dos anos. É antes disso, uma decisão solitária do querer conquistar às perolas escondidas no mais lócus mais profundo da mente. E para tanto é necessário aprender a ver, ouvir, tocar, sentir, cheirar, gostar, chorar, sorrir, abraçar, correr, dormir, viver. Assegurar-se o direito e o dever de errar e acertar e conseguir identificar em ambas as possibilidades o milagre diário de consolidar a aventura de aprender continuamente.

            E o milagre diário de consolidar a aventura de aprender continuamente é um desafio que só quem triunfa sobre si mesmo pode se dar como prêmio a cada ano que a existência permite completar nessa jornada sobre a Terra.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

O ESPIRITISMO NO BANCO DOS BONIFRATES DA HIPOCRISIA SOCIAL “CANHOTA”

  Por Jorge Hessen O racismo nunca foi apenas um desvio moral: é um projeto de poder. Ao longo dos séculos, revestiu-se de teologia, de ciência e de política para legitimar privilégios. Contra esse edifício de arrogância, o Espiritismo ergueu, ainda no século XIX, um argumento devastador: a reencarnação. Kardec sentencia que, por ela, “ desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher ” (KARDEC, 2019, p. 214). Se o Espírito muda de corpo como quem troca de roupa, que valor real possui a cor da epiderme?

FORA DA JUSTIÇA SOCIAL NÃO HÁ SALVAÇÃO

Diante dos ininterruptos processos de progresso à que estão submetidos os seres humanos, seria uma visão dicotômica não compreender está ação de forma concomitante! Ou seja, o progresso humano não dar-se-á apenas no campo espiritual, sem a ação do componente social na formação do sujeito espiritual que atua na Terra.

SOBRE AVES, LÍRIOS, CELEIROS E PARTILHA

  Por Jorge Luiz A Dialética da Exploração: A Propriedade como Obstáculo à Providência A pele tisnada pela insolação diária que enfrenta, cujas marcas são percebidas nas rugas precoces que já marcam de forma indelével sua face, descansava, o que permitiu minha aproximação. Sr. Severino enfrenta uma tarefa diária puxando seu carrinho, cuja caçamba é adaptação de velha e enferrujada geladeira que percorre todos os dias algumas ruas de Fortaleza, coletando papelão que comercializa para um depósito.             Indagado sobre a sua rotina, respondeu-me que tem, necessariamente, de retornar ao depósito por volta das onze horas, pela necessidade de comprar os insumos para a alimentação sua e da família. Sr. Severino realçou que quando o dia é favorável a ele, o produto da coleta rende-lhe R$ 50,00, só que o aluguel do carrinho custa R$ 20,00.  

QUANDO A EDUCAÇÃO PERDE A ALMA

  Por Wilson Garcia Neoliberalismo, humanismo e espiritualidade no debate educacional contemporâneo   A educadora e espírita Dora Incontri concedeu recente entrevista ao jornal e à TV Brasil 247 , na qual articula uma crítica consistente ao modelo educacional neoliberal no Brasil contemporâneo. A partir de uma visão humanista e espiritualista da educação, Incontri analisa a transformação da escola em espaço de desempenho, com professores submetidos a lógicas produtivistas e estudantes progressivamente tratados como consumidores. É a partir desse horizonte pedagógico e espiritual que se organizam os comentários e reflexões apresentados a seguir.

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...