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O NAZISMO ENTRE OS ESPÍRITAS? KARDEC EXPLICA

         


        Guardo na memória as expressões daquele senhor, possivelmente octogenário, sobrevivente do holocausto, da perseguição e do extermínio sistemático, apoiado pelo governo nazista, de cerca de seis milhões de judeus. Entre as vítimas dos nazistas, estiveram judeus, negros, gays, pessoas com deficiência física ou mental, ciganos, comunistas e testemunhas de Jeová. Na realidade, o nazismo prega a eliminação de todo o contingente que poderia contaminar a pureza da chamada raça ariana que ele busca atingir. Numa entrevista em um canal de TV nacional, ele ressaltou que o mundo não estava livre de novos hitleres. Se Hitler surgisse hoje – afirmou ele –, conseguiria tantos seguidores quanto naquela ocasião. Aquilo soara-me estranho. Hoje, vejo que ele tinha razão. 

           

            A Agência Senado traz o artigo de 13.08.2021, em que destaca a confusão entre liberdade de expressão e apologia ao nazismo e como este tem crescido no Brasil desde 2019. A Polícia Federal foi consultada sobre os motivos, porém não ofereceu resposta.

            Na realidade, esse fenômeno no Brasil e no mundo é fruto da ascensão ao poder de alguns governos de ultradireita – eufemismo puro. Ideologias de ultradireita guardam características com a ditadura nazista que era centrada no racismo, no antissemitismo e no nacionalismo e contrária ao comunismo e aos sindicatos. Basta olhar os fundamentos do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) para se entender que o nazismo é de direita. No Brasil é comum, pela existência da palavra socialista na definição do Partido Nacional, se fazer essa confusão, propositadamente. Ora, no que pese, os membros do talibã também se declaram muçulmanos. Na realidade, essa discussão só existe no Brasil devido à ascensão do “bolsonarismo” ao poder. Na Alemanha, o nazismo é de direita e ponto-final.

            Nenhum historiador do cristianismo até agora não consegue estabelecer uma ligação entre nazismo e fé cristã. Muitas são as contradições entre o nazismo e o cristianismo. É difícil explicar as adesões de muitas personalidades que se disseram cristãs, à época, ou, de pelo menos, não lutarem para barrar essa ideologia e que resultaram em muitas acusações à Igreja.

            Essas contradições são muito interessantes ao logo da história da Humanidade em movimentos que fizeram uso da violência em nome de Deus e de Cristo. O próprio Adolph Hitler, em sua biografia, Mein Kampf, mencionou o Senhor cinco vezes e Deus, vinte. Hitler usou da espiritualidade – a exemplo do presidente Bolsonaro – para mobilizar as massas. Depois de defender um ecumenismo de Estado, Hitler também em fervorosa oração se dirigiu a Deus da seguinte forma: “Deus onipotente, abençoe um dia as nossas armas; seja justo como sempre foste; julga agora se merecemos a liberdade; Senhor, abençoe a nossa luta!”.  

O Führer, como Hitler era conhecido, tentou instrumentalizar a fé ao se utilizar da frase “Deus está conosco”, fazendo-a reluzir nas fivelas dos cinturões dos seus soldados. Qualquer semelhança não é mera semelhança.

            Com esse enredo de contradições entre fé cristã e violência nos dias atuais, como explicar a adesão de muitas pessoas – que se declaram cristãs e espíritas – de forma convicta ao “bolsonarismo”, fundamentalismo ideológico que guarda semelhanças vis com o nazismo?

Eis novamente a questão, o que faz lembrar a frase histórica de Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda, como farsa”. O episódio narrado no início do artigo é o exemplo vivo da afirmativa de Marx, o qual o passado foi esquecido e que, como tragédia, ele volta, trazendo impressionantes conexões com o presente. Há muitos elementos conexos entre a história do enredo nazista e o atual momento em que atravessa o Brasil. Infelizmente, há identidades espíritas.

            E em Marx é que se encontram, ainda, explicações para as contradições dos espíritas no cenário político, que não deixam de ser as mesmas incoerências da estrutura do capitalismo no Ocidente. Ele é cirúrgico no diagnóstico, na sua obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, elaborada no alvor da sua juventude, onde ele cita a frase: “a religião é o ópio do povo”, que se universalizou como estigma da religião, em um sentido de narcotização das sociedades.

            Marx afirma:

 

“A religião não faz o homem, mas, ao contrário, o homem faz a religião: este é o fundamento da crítica irreligiosa. A religião é a autoconsciência e o autossentimento do homem que ainda não se encontrou ou que já se perdeu. (...) A religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo.”

 

            Ele vai além:

 

“(...) superada a crença no que está além da verdade, a missão da história consiste em averiguar a verdade daquilo que nos circunda. E, como primeiro objetivo, uma vez que se desmascarou a forma de santidade da autoalienação humana, a missão da filosofia, que está a serviço da história, consiste no desmascaramento da autoalienação em suas formas santificadas. Com isto, a crítica do Céu se converte na crítica da Terra, a crítica da Religião na crítica do Direito, a crítica da Teologia na crítica da Política.”

           

           

            Esse posicionamento inadequado de alguns espíritas não deixa de ser um estado de “alienação” resultado da compreensão equivocada do Espiritismo como religião, assunto já amplamente debatido nesse sítio e que deixou explícito que Allan Kardec não o idealizou como religião, mas como Doutrina Filosófica Moral. Alguns preferem aderir ao Espiritismo para conformá-lo às suas ideias e não se transformam como se espera – pensar, setir e agir.

As constatações de Marx dialogam com o ideal espírita de Allan Kardec por entender que somente uma filosofia moral poderia tirar o homem do catre da alienação, promovendo o “Conhecimento de Si Mesmo”. O Espírito Santo Agostinho, ao recomendar esse caminho – questão nº 919, “a”, de “O Livro dos Espíritos” – para a resistência à atração do mal, ressalta a importância dessa máxima e admite que a dificuldade esteja precisamente em cada um adquirir o autoconhecimento. A ignorância doutrinária é agonizada pelo desconhecimento de si próprio.

Essas questões não passaram desconhecidas por Allan Kardec e no capítulo XVII:4 do Evangelho Segundo o Espiritismo Sede Perfeitos – Os Bons Espíritas – parágrafo posterior ao Homem de Bem, ele esclarece:

 

“Bem compreendido, sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita como o cristão verdadeiro, pois que um é o mesmo que o outro. O Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas facilita aos homens a inteligência e a prática da moral do Cristo, facultando a fé inabalável e esclarecida aos que duvidam ou vacilam.”

           

            No desenvolvimento desse parágrafo, Kardec desenvolve enunciado onde detalha os impedimentos de se compreender a Doutrina Espírita naquilo que ele define em “compreender os princípios da Doutrina, que lhe fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes.”. Em conclusão, em O Livro dos Espíritos, no item VII, Allan Kardec conclui esse enunciado de forma magistral:

 

“O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o dos princípios e da filosofia que delas decorrem e o da aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos:

1º os que creem nas manifestações e se limitam a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência experimental;

2º os que lhe percebem as consequências morais;

3º os que praticam ou se esforçam para praticar essa moral.

 

         Todos esses aspectos, contudo, têm como parâmetro Divino a Lei de Amor, Justiça e Caridade, no que há de mais excelente – O Livro dos Espíritos– Livro Terceiro – capítulo XI – questões nº 873 a 879 (recomenda-se o estudo). Os Reveladores Celestes são enfáticos nesse comento – questão nº 877, falando da necessidade da vida em sociedade:

 

 “Certo, e a primeira de todas, é a de respeitar os direitos de seus semelhantes. Aquele que respeitar esses direitos procederá sempre com justiça. Em vosso mundo, porque a maioria dos homens não pratica a lei de justiça, cada um usa de represálias. Esta é a causa da perturbação e da confusão em que vivem as sociedades humanas. A vida social outorga direitos e impõe deveres recíprocos.” (grifos nossos)

 

            É imperativo considerar em tudo isso a importância dos pensamentos, que são o espelho da vida em todos os seus desdobramentos e em todos os domínios do Universo, pois a influência é recíproca e vibra através da sintonia e da afinidade (1). Léon Denis, na obra No Invisível, a esse respeito ensina:

 

“As vibrações do pensamento se propagam através do espaço e sobre nós atraem pensamentos e vibrações similares. Se compreendêssemos a natureza e a extensão dessa força, não alimentaríamos senão altos e nobres pensamentos. Mas o homem se ignora ainda, como ignora as imensas capacidades desse pensamento criador e fecundo que nele dormita e com o qual poderia renovar o mundo.” (grifos nossos).

           

           

            As classificações ora em análise são didáticas. Considerando que a evolução é em espiral, há de se convir que todos nós temos características individuais das expostas por Kardec, no entanto, uma sobressai sobre as demais. Compreensível assim, que expressões classificadas como nazistas se esbocem nas personalidades atuais, de forma sutis, remanescentes do processo de individualização. (2) É inconcebível, entretanto, que no processo de individuação (3) do Espírito ainda as valide e que assuma o protagonismo na individualidade. A oportunidade e para cada um identificar a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Todos esses conteúdos primitivos, é bom reforçar, provém de realizações e fixações sempre anteriores, que somente as disciplinas do esforço, da concentração, da meditação para a ação, conseguem libertar, lembra o Espírito Joanna de Ângelis.

 

O que surpreende, no entanto, é alguém que se proclame espírita, sob o guante da tolerância e de um conservadorismo alienante, ufanar-se presentes iniciativas que ferem a dignidade humana e os preceitos de amor, justiça e caridade.

           

Lembrando, ainda, que o “bolsonarismo” guarda o espírito de seita política e não ideologia política, o que justifica o Presidente não se encontrar sob guarida de nenhum partido político.

O espírita é alguém em processo permanente de mudanças. Portanto, atente-se, não basta se afirmar espírita, é preciso sê-lo...

 

...Sejamos!

 

Referências:

DENIS, Léon. No invisível. Paris, 1903.

FRANCO, Divaldo. O ser consciente. Salvador. LEAL. 1995;

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo: EME, 2000.

_____________. O livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Domínio Público. E-book.

XAVIER, Francisco C. Pensamento e vida. Brasília. FEB. 2013.

 

SITE:

http://www.ihu.unisinos.br/publicacoes/559252-quando-os-nazistas-disseram-deus-esta-conosco

(1)   Sintonia: Condição da faixa de recepção de onda pensamento que deve oscilar com igual frequência de outra faixa de emissão de outro Espírito (encarnado e desencarnado).

 

Afinidade: Condição fluídica do pensamento com as ideias, gostos e sentimentos característicos (aspectos morais). O Espírito receptor pode anular a mensagem se a ele for contraditória em princípios éticos.

 

(2)      É a jornada que o princípio inteligente realiza trilhando independente na escala animal, aprimorando-se cada vez mais, inclusive família dos primatas, alcançaria, no homem, sua mais expressiva demonstração a expensas da glândula pineal (relógio biológico).

(3)      Jornada dos seres inteligentes da criação – Espíritos – através do conhecimento de si mesmo, construir o Reino de Deus.

Comentários

  1. O livro "Jesus Histórico: uma brevíssima introdução" explica o método utilizado pelos nazistas, demonstrando também a importância desse conhecimento para não haver tantas manipulações - como as que também ocorrem em nosso meio via psicografias sem as devidas correlações históricas.

    Em todo caso, parabéns pela coragem de abordar esse tema e com as devidas bases.

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  2. Olá, Filipe!
    Gratidão pelo comentário.
    Cite o autor da obra.
    Abraços
    Jorge Luiz

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    1. https://klineeditora.com/produto/jesus-historico-uma-brevissima-introducao-edicao-revista-e-ampliada/

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  3. Nem Nazismo, nem Socialismo, nem Fascismo. Qualquer coisa fora disso é alienação. O líder comunista e revolucionário chinês, Mao Tsé-Tung, com seu governo esquerdista provocou a morte em massa de 50 a 80 milhões de pessoas. Fazendo uma média, cerca de 11 vezes o que Hitler provocou.

    Frase de Marx pra quem não é a favor da violência: "O proletariado usará a sua dominação política para arrancar a pouco e pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção na mão do Estado. (PRECISA EXPLICAR ESSE ABSURDO ALTAMENTE PREJUDICIAL PARA UM PAÍS?) Naturalmente isto só pode primeiro acontecer por meio de intervenções despóticas (TIRANIA, OPRESSÃO, DITADURA) no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas."

    A ideologia é a corruptela da ideia. Não adianta criticar o tongo do Bolsonaro e ser a favor de algo ainda pior.

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    1. Concordo plenamente com seu posicionamento. Na atualidade, temos espíritas que comungam de ideais políticos e os colocam acima de quaisquer outras crenças pessoais. Nisso, distorcem uma realidade gritante para que suas ideias prevaleçam. Historiadores espíritas o fazem muito bem, pois antes do Espiritismo, colocam tais posicionamentos acima de tudo e todos! Matéria lamentável! Vivemos o pior momento da política nacional, considerando estarmos em pleno século XXI, e ainda nos deparamos que esses tipos de distorções por parte dos espíritas. Sou mestre na área de Humanas e convivo com espíritas de mesma área de atuação que insistem em propagar esse conceitos absurdos.

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  4. Grato Marcelo pela contribuição.
    A didática é fundamental na pedagogia para a compreensão do pedagogo. A nossa posição é espírita, portanto, progressista. Nazismo, Socialismo, Fascismo. Todos sim, pois são fundamentais para a civilização. A ideologia para Marx, é a forma de entender o mundo e buscar transformá-lo para todos. O espírito de seita é estanque, visa a eliminação daquele que não comunga das mesmas ideias. Jorge Luiz

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  5. Quais semelhancas o brasil tem com no nazismo?

    Olha que atrocidade kkkk e olha que sou anti bolsonaro.
    Mas chamar ele de Nazista? Ou dar a entender que ele compartilha mesmas ideias??

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