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CORPOS PERDIDOS, ESPÍRITOS OPRIMIDOS: ISSO É FÉ ESPÍRITA?

 


Já ouvimos muitas vezes pessoas falando sobre política. Tema apaixonante na mesma medida em que provoca reações distintas, parecidas com desprezo, nojo, antipatia e leva alguns a descarregarem verbetes plenos de ódio, acreditando que não fazem política e dela não participam.

A polêmica ganha razão de fé no meio espírita brasileiro. Recorte de pessoas de classe média convictas de que para alcançarem o melhoramento individual precisam se desdobrar em fazer caridade, e com isso têm conseguido reduzir a riqueza semântica a um lambe egos autoral, onde é melhor quem oferece mais cestas básicas, sopas, remédios; e quando institucionalizam espaços para educar pobre, se tornam (praticamente) gente santa!

Eis o nicho atraente ao olhar de estudo, com intenção reflexiva, sem a sanha das culpas e punições, buscando compreender o processo de busca aos corpos perdidos na Terra, para assim poder salvar os espíritos (outrora perdidos) dos que hoje salvam (ou acreditam assim fazer).

Parece heresia à primeira vista porque sacralizaram os gestos, os tons das vozes, e alimentaram tabus sobre o tema com a ameaça da obsessão. A maturidade serve para nos livrar desse obstáculo, exorcizando com a ciência e a filosofia as práticas obscurantistas, que sempre foram inimigas da razão.

Fato é que os espíritas fazem política!

Muito intensamente o fazem.

E não há nada de mal nisso, inclusive porque acreditamos que em todas as práticas sociais existe política, portanto, reverbera também nas vivências sociais religiosas.

Religiosas? Como assim?! Diriam alguns, porque acreditam que Espiritismo não é religião, apesar dos ritos de caráter religioso, entre os quais incluímos as preces.

Ritos?! Como assim?! – Replicariam já irados outro tantos que juram pela inexistência de uma ritualística espírita nos centros, apesar de obedecerem rituais sagrados de início, meio e fim, com aplicação de passes e águas.

Fique esclarecido desde aqui que não fazemos a perseguição da religião e muito menos das ritualísticas religiosas, apenas reconhecemos a presença desta prática no meio espírita dito hegemônico no Brasil.

Para nossa análise é muito importante abordar tais temáticas, principalmente pelo desejo intrínseco de compreender as relações de poder estabelecidas neste meio e suas vinculações com outras manifestações de força e coerção.

A quais corpos sua fé espírita persegue?

Você acredita que os exilados do planeta Capela chegaram ao paraíso azul por causa dos excessos no uso das energias genésicas, em arroubos de sensualidade e forte tendência ao uso de drogas?

E para você Deus é um comezinho julgador dos gozos e fugas promovidos pelos espíritos “inferiores”?

 Qual será o timbre de sadismo do amor divino no qual você acredita?

 Por qual tipo de tortura precisa o corpo passar em benefício (futuro) do espírito culpado?

Não precisamos ir além nas indagações, para percebermos que possuímos nosso próprio código de julgamentos e condenações, promovendo uma compreensão desalmada do próprio amor.

Eis a política anti-evolutiva que amarra os passos dos ditos piedosos doutrinadores brasileiros, afinados com as políticas espúrias do promotores de genocídio.

Eis porque nos parecem indiferentes aos sofreres inenarráveis das vítimas da pandemia e seus familiares, com afirmações repugnantes sobre expurgos de maus espíritos e pagamentos de débitos passados. Em falas isentas de calor humano, mas sobejas em juízos de valor na hora própria do clamor fraterno, palestrantes se amarram nas obsessões capitalistas, onde apenas os “maus” são penalizados em corpos pulsantes e desobedientes aos sistemas.

Há um teor político intenso na categorização dos corpos perdidos. Por essa razão, manter o timbre humanitário acima de qualquer animismo ou fascinação de celebridades, é a escolha mais segura. Quando até mesmo a noção de amor foi intencionalmente misturada ao palheiro entre mil agulhas que ferem a dignidade do ser, continuar humanos é a seguridade da espiritualização.

Não é rebeldia, é política.

Porque esta política nos aproxima de Deus, quando o inferno lança suas sombras sobre a razão e causa tumultos nas compreensões necessárias para a superação da dor em horas graves como as que agora vivemos.

Libertar a mentalidade é grande expressão de amor, expansão de amor!

A política da liberdade acolhe as vítimas seculares do salvacionismo religioso ufanista, perseguidor contumaz de corpos, gerador de teorias opressoras.

Quando nos descobrimos ludibriados pela fé, nossas políticas de vida se tornam afetivas expressões de resistência, longe do império do medo e muito aproximadas da ciência e da filosofia.

Espiritismo não persegue corpos. Liberta espíritos!

Comentários

  1. Importante desmistificar essa ideia de que somos seres apolíticos: o simples fato de emitirmos opinião sobre qualquer assunto é uma atitude política - e a omissão também.

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