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BORJA, O BRASILEIRO QUE CONHECEU KARDEC







Gonçalves Dias (1823-1864)
Em seu excelente resgate histórico, publicado sob o título “Os Intelectuais e o Espiritismo”, o jornalista e pesquisador Ubiratan Machado revela nuanças importantes sobre os primórdios do Espiritismo no Brasil. Ao discorrer sobre as experiências mediúnicas realizadas por Manoel de Araújo Porto Alegre (1806-1879), futuro Barão de Santo Ângelo, o autor menciona que, em 1863, Allan Kardec teria enviado a Araújo Porto Alegre um número da Revista Espírita. Afirma que Porto Alegre, diplomata, exercendo o cargo de cônsul do Brasil na Prússia e Saxônia, pode ter sido apresentado a Allan Kardec, através de um brasileiro chamado Borja, então residente em Paris, resultando daí o seu interesse pelo Espiritismo.
 Ubiratan não atinara com informação alguma sobre esse misterioso personagem. Divulga, entretanto, trecho de uma carta de Borja, datada de 31 de janeiro de 1863, dirigida a Gonçalves Dias, o grande poeta maranhense, na qual comenta sobre uma remessa de livros que havia mandado ao diplomata brasileiro.

Diante desta inusitada informação, tentamos descobrir algo sobre esse enigmático personagem, conhecido apenas como Borja, que tivera o ensejo de conhecer o Codificador e privar, quem sabe, de sua amizade. As dificuldades eram grandes em face da insuficiência de dados. Mas, há alguns meses, acidentalmente desvendamos esse quase insolúvel mistério. Pesquisávamos na biblioteca do Colégio Militar de Fortaleza, onde lecionamos, sobre a Comissão Científica de Exploração do Império que esteve no Ceará entre 1859 e o início da década seguinte. Quando folheávamos um velho livro, coletânea das correspondências dirigidas ao Senador Tomaz Pompeu de Souza Brasil (1818-1877), uma das grandes expressões da cultura cearense, fundador do Liceu do Ceará e professor do jovem Adolfo Bezerra de Menezes, entre 1847 e 1850, deparamo-nos com cinco cartas remetidas a ele por alguém chamado Borja. Esse homem esteve no Ceará estudando-lhe o clima e a geografia, como membro da aludida Comissão Científica, quando se fez amigo do Senador, também cientista. Numa de suas missivas enviada de Paris, esse Borja fala, para nossa estupefação, da amizade que nutria por Manoel de Araújo Porto Alegre e Gonçalves Dias. Descreve, ainda, os encantos de uma das filhas do diplomata, então residente em Dresde, na atual Alemanha, e da ousadia que teve em pedir-lhe a mão em casamento. O matrimônio, porém, não aconteceu, mas os detalhes das demais correspondências eram categóricos e suficientes para dirimir qualquer dúvida de que se tratava do brasileiro que conheceu Kardec. A partir desta novidade, saímos a campo a fim de colher subsídios para compor sua biografia.
 Aproveitando os eflúvios da celebração do sesquicentenário da publicação de O Livro dos Espíritos, publicamos seu perfil biográfico, alicerçando em breves informações que, até o presente momento, conseguimos obter.
Seu nome completo era Agostinho Victor de Borja Castro. Filho do desembargador João Francisco de Borja Pereira, assinava suas cartas usando o nome Victor de Borja ou simplesmente Borja. Cursou, em 1850, o primeiro ano da Academia de Marinha, posteriormente transferindo-se para a Escola Central, onde fez o curso de Matemáticas. Para a obtenção do grau de doutor em Ciências Matemáticas, defendeu, em 1861, a tese intitulada O Princípio das velocidades virtuais no Equilíbrio dos Sistemas. Serviu, por alguns anos, no Corpo de Engenheiros, assentando praça em 1852. Professor do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, a datar de 1872, lecionou a cadeira de Hidráulica. Foi Comendador da Ordem da Rosa, membro do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura e sócio da Seção Zoológica da Associação Brasileira de Aclimatação. Deixou vários trabalhos impressos, entre os quais: o Anuário Industrial, de 1871; o Expositor Técnico, 1892; Relatório sobre as obras da Alfândega do Rio de Janeiro, em 1878, e Tabela para facilitar o cálculo das relações entre diversas circunstâncias do movimento da água nos tubos condutores cilíndricos. Desempenhou importantíssimas comissões particulares e oficiais, em vários ministérios e na célebre Exposição de Londres.
 A ideia da criação da Comissão Científica de Exploração nasceu na Sociedade Palestra Científica e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, merecendo de imediato o apoio de D. Pedro II. Para tanto, foi escolhida uma seleta equipe de engenheiros e naturalistas. O Ceará foi indicado para abrigar os trabalhos iniciais da Comissão, presidida por Francisco Freire Alemão (1797-1874), nomeado pelo Imperador em março de 1857. A Comissão desembarcou em Fortaleza, no dia 4 de fevereiro de 1859, onde se demorou até o mês de agosto, explorando as cercanias da capital da Província e as serras mais próximas. Deixou definitivamente o Ceará em 13 de julho de 1861, quando zarpou o navio que a conduziu de volta ao Rio de Janeiro.
Na ocasião, integrou a Comissão Científica, como chefe da Seção Etnográfica e Narrativa de Viagem, o poeta Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), que acabava de regressar do Velho Mundo, onde fora estudar, a mando do governo brasileiro, o desenvolvimento da instrução pública. Agostinho Victor de Borja Castro, no posto de primeiro tenente, participou como adjunto de Giácomo Raja Gabaglia (1826-1872), chefe da Seção Astronômica e Geográfica.
A Comissão Científica de Exploração, às vezes designada por Imperial Comissão Científica e Comissão Exploradora das Províncias do Norte, nasceu de uma ideia generosa, mas acima da compreensão do governo e desvinculada do povo. As circunstâncias de meio e tempo lhe foram adversas. Pouco demorou e logo se foi quase sem deixar traços de sua existência. Não passou de um belo plano frustrado em suas esperanças.
Na longa e penosa travessia dos sertões, privados das elementares comodidades da vida, quase todos os integrantes da Comissão adoeceram. Gonçalves Dias, de quando em quando, repontava, tornando-se tristonho e apático. Adoentado, Agostinho Victor de Borja Castro seguiu para a cidade de Sobral, passando pela Vila da Imperatriz, retirando-se do Ceará no dia 24 de abril de 1860. Retornou para a Corte a fim de solicitar sua exoneração. Borja recuperou a saúde e deu continuidade aos seus estudos. Passou durante algum tempo a viajar, com certa frequência, à Europa, onde viria a desencarnar três décadas depois.
Segundo o jornal O Paiz, “(...) em virtude de cruel enfermidade, de que veio a falecer, foi jubilado na cadeira do terceiro ano de Engenharia Civil (Hidráulica), (...) retirando-se para a Europa, a fim de se tratar (...)”. Sua desencarnação aconteceu em Paris, no dia 20 de outubro de 1893. Sob o título Conselheiro Borja Castro, o mesmo periódico apresenta a relação de alguns parentes e o convite à celebração de uma missa na matriz da Glória. 
Atendendo gentilmente a nossa solicitação, Ubiratan Machado enviou-nos uma cópia da Carta de Borja a Manoel de Araújo Porto Alegre. Por se tratar de um documento de grande valor histórico, transcrevemo-la a seguir, na íntegra. Nesta reprodução, atualizamos a ortografia, mas preservamos as regras gramaticais vigentes à época:

“Paris, 31 de janeiro de 1863

 Amigo Gonçalves Dias

Tenho passado estes últimos dias bastante inquieto, porque não tenho recebido cartas de Dresde, quando sei que todos estão mais ou menos doentes. O que aconteceu-lhe que faz não escrever-me?
Na segunda-feira da semana passada remeti ao Porto Alegre os livros que encomendou-me; não sei se já chegaram, bem como um número da Revista, que o Allan Kardec informou-me ter enviado no princípio deste mês.
Não sei aonde tinha a cabeça quando li o papel, que V. deu-me ao sair de Dresde, pois estava firmemente persuadido que me recomendava de entregar ao conselheiro Drummond o seu retrato e o livro do Ferdinand Denis.
Escrevo esta só para pedir-te que me dê notícias de Dresde.
Saúde aos doentes e saudades a D. Carlota; não sei se ela esqueceu-se de escrever-me.

Uma braço do seu do coração Borja”.

O teor precioso desta correspondência nos enseja fazer algumas ilações. Ao utilizar o artigo definido “o” antes do pseudônimo do Codificador, presume-se que o missivista privava de certa intimidade com Kardec. Por outro lado, podemos, de igual modo, ponderar a respeito da possível familiaridade que o grande vate maranhense tinha, senão com as ideias espíritas, talvez com o próprio Allan Kardec. Ademais, não seria de estranhar o interesse de Gonçalves Dias pelo assunto, tendo em vista ser ele profundo estudioso de Etnografia e por ter estado na França, mais de uma vez, inclusive com o próprio Borja, na fase preparativa dos trabalhos da Comissão Científica de Exploração, entre 1857 e 1858, com o intuito de comprar, em Paris, instrumentos para equipar a Expedição. E ainda, posteriormente, em Dresde, dividido com Borja o mesmo hotel no qual se estabeleceram por algum tempo.
Quanto ao Barão de Santo Ângelo, não nos resta qualquer sombra de dúvida sobre suas convicções espiritistas. A admiração e a amizade do barão pelo poeta era tamanha que, segundo comentários de Borja em carta remetida de Paris ao Senador Tomás Pompeu, a 5 de janeiro de1863, devido às complicações de seu estado de saúde, Gonçalves Dias estava morando na própria casa de Araújo Porto Alegre, em Dresde. O autor de Y - Juca Pirama, enfermo, seguira para a Europa em 1862, na busca de tratamento para seus males. Dali regressaria ainda doente, no ano de 1864, no navio Ville de Boulogne, em cujo naufrágio desencarnou, quando a embarcação já singrava as águas do Maranhão.
 Durante o ano de 1865, Porto Alegre, sua mulher e filhas realizaram em Dresde várias reuniões com um médium psicógrafo brasileiro chamado Calazans. Em muitas dessas reuniões, o Espírito de Gonçalves Dias teria se manifestado trazendo mensagens de reconforto e gratidão ao amigo querido.
Teria conhecido Gonçalves Dias a Allan Kardec, pessoalmente? Manoel Araújo Porto Alegre, residindo na Europa, com as facilidades da posição que ocupava e as ideias que esposava poderia ter, por mais de uma vez, estado e conversado com o Codificador? E Borja, que remetia livros sob encomenda a amigos brasileiros, não teria ele próprio sido o responsável pela introdução das primeiras obras espíritas no Brasil? Ou, pelo menos, da segunda e definitiva edição de O Livro dos Espíritos, publicada em 1860?
Por enquanto são simples conjecturas que fazemos, mas - quem sabe - com o tempo, possamos obter as respostas definitivas.

Referências:
(1) MACHADO, Ubiratan. Os Intelectuais e o Espiritismo. Ed. Publicações Lachâtre, Niterói, Rio de Janeiro, 2.a. ed, 1996.
(2) CÃMARA, José Aurélio. Correspondência do Senador Pompeu. Ed. Tipografia Minerva, Fortaleza, Ceará, 1960.
(3) O Paiz, 10 de novembro de 1893.
(4) O Paiz, 18 de novembro de 1893.

(5) Anais da Biblioteca Nacional, v. 91, 1971, Rio de Janeiro, 1972, p. 281.


Comentários

  1. Um trabalho de pesquisa desses deve levar um tempinho, exigir muita atenção e argúcia.
    Parabéns e agradecimentos ao pesquisador, pela contribuição à seara espírita.
    Parabenizo também o BLOG CANTEIRO DE IDEIAS, por publicar essa preciosidade.

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  2. O trabalho de pesquisa do confrade Luciano Klein é importantíssimo para a história do Espiritismo no Brasil. A história tem importância não só para as pessoas, mas fundamentalmente para as ideias que as defenderam. Parabéns ao confrade Luciano.

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  3. Parabéns pela pesquisa. O número de pesquisadores espíritas voltou a crescer no Brasil.

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