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MORFOGÊNESE DO REINO: O "EN MARCHE!" DE CHOURAQUI E O MANIFESTO DE MYERS

 

Imagens de IA

 

Por Jorge Luiz 

 

 

O VERBO EM MARCHA: A Exegese de Chouraqui e a Morfogênese do Reino

Este capítulo abandona a ideia de Reino como "lugar" e o apresenta como "processo biológico e social".

            A polêmica joanina de que o “Verbo se fez carne” – João 1:1-14 –, que faz parecer, implicitamente, que há uma identificação entre Deus e Jesus, mereceu uma atenção especial de Allan Kardec, embora só tenha se tornada pública após a sua desencarnação.

            Tão controversa que, somente no IV século uma parte da Igreja a adotou. Vê-se que, a decisão foi dos homens e não uma revelação divina, já que não foi o próprio Jesus que a considerou, tão somente, João, o evangelista.

            Carlos Pastorino também a analisou azeitando ainda mais as considerações de Kardec, identificando que ocorreu uma aproximação do versículo 1 com o 14, o que fez a confusão e acreditou-se que o Verbo era o Filho. Conclui Pastorino: Verbo é palavra ativa, ao passo que Filho é palavra passiva. Verbo é o Criador, Filho é o Criado (1987).

            Os Espíritos, na questão nº 625 de O Livro dos Espíritos (LE) o humaniza, definindo-o como modelo e guia mais perfeito oferecido por Deus à humanidade. (2000).

            O Jesus do Espiritismo se ajusta aos estudos contemporâneos da sua historicidade, a partir do que se convencionou chamar de Cristianismo Primitivo.

            Ao longo da história são muitos os autores que nos premiam com revelações da vida e dos ensinos de Jesus que destoam com os Evangelhos Canônicos, escolhidos pela Igreja em detrimento de tantos outros que se têm conhecimento. Discussões à parte sobre o Jesus histórico, Jesus real, Jesus “o mito”; a realidade é que muitos aspectos vem se consolidando e demonstram que houve muitas interpolações e traduções que visaram muito mais legitimar poderes do que se construir a originalidade da mensagem de Jesus. O mito que sofre transformações históricas através dos séculos: a transformação “poética”, através das suas parábolas; a transformação “política” do mito bem definido em Mateus 25:40: “Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram...”.

            André Chouraqui apresenta o Jesus revolucionário, apenas pela correção da tradução do hebraico, conforme ele considera, do Sermão da Montanha. Diz, ele, Mateus, imperturbavelmente fiel às tradições do judaísmo helenístico, traduz a palavra ashréi por makarioi, como “bem-aventurado”; “Felizes, bem-aventurados”. Imagine, diz Chouraqui, Jesus não tem a crueldade de declarar “felizes” a multidão de deserdados, de opositores condenados pelas legiões romanas, por qualquer coisa que digam, ao suplício da cruz ou, na melhor das hipóteses, à escravidão nas galés ou nos bordéis do império.

Ashréi, repete-se 43 vezes na Bíblia hebraica, exclamação que não evoca uma vaga felicidade hedonista, mas implica uma retidão (yashar) do homem marchando na estrada sem obstáculos que leva a Iavé e, aqui em direção ao reino de Iavé (1996). Portanto, a expressão do Sermão da Montanha, não é uma proposta para se resignar diante dos sofrimentos lhes impingidos cuja recompensa virá após à morte. O apelo de Jesus é Em Marcha, ao invés de Bem-Aventurados!

               Desta forma, o Reino de Deus, sob a ótica de Chouraqui, abandona a estática das nuvens para assumir a dinâmica das estradas. Não se “entra” no Reino como quem cruza um portal geográfico; “faz-se” o Reino enquanto se caminha. É a vida em sua expressão máxima de organização — a morfogênese — reagindo à entropia da opressão.

 

         O Manifesto da Resistência: Ched Myers e o Desmonte do "Homem Forte"

 A democracia vista não como sistema de governo, mas como pedagogia da liberdade.

            Para Myers, o Evangelho de Marcos não é uma biografia piedosa, mas um manual de guerrilha ideológica. O cenário da Palestina do primeiro século, com sua tríade de opressão (o braço armado de Roma, a drenagem econômica do campesinato e a legitimação religiosa do Templo), serve de espelho para as nossas próprias estruturas de poder, como de forma paradigmático está em Mc,1:20-39, introduzindo os três palcos da sua ação: a) formação da comunidade; b) cura; c) exorcismo; d) conflito político (2021).

            A trajetória de colisão de Jesus com os chefes judeus se realiza no exorcismo de Cafarnaum, indo à sinagoga, ao expulsar um espírito imundo em um homem possesso (Mc,1:21-23), que também se desenrola com relação ao templo-Estado, que se consolidava fundamentalmente como instituição econômica. Diz Myers, são os interesses e lucros da classe dirigente que controlam os empreendimentos comerciais no mercado do templo que Jesus ataca (2021). A situação não mudou em nada, após passados mais de dois milênios, e na realidade, são essas mesmas instituições que de forma deliberada sufocaram a revolução não violenta de Jesus.

            A partir desse enfrentamento Jesus deixa claro que a “nação inteira” está implicada em “fraudar” Javé por meio da corrupção do sacrifício do templo e do sistema de dízimos (Ml, 3:9), que enriquece os príncipes desobedientes (Os, 9:15). Jesus, decidido e declaradamente formaliza a rejeição ao templo (2021).

"Ninguém pode entrar na casa do homem forte e roubar os seus bens, se primeiro não amarrar o homem forte; e então saqueará a sua casa."

            Com essa parábola, Jesus não só polariza o clima político, mas também promove o rompimento com a família e amigos – está escrito que sua família acha que Jesus foi longe demais e que deve desistir da sua missão (Mc, 3:21). Sua missão, de forma análoga, ele a compara ao ladrão lutando para arrombar a casa do “homem-forte”, que ele pretende amarrar e cujos prisioneiros quer libertar, afirmando que o Espírito Santo é nada mais, nada menos que seu cúmplice (2021).

            De boa lembrança nesse interregno, é que João (1:8) o considera o “mais forte” que pretende derrubar o reino do homem-forte. A cautela dos familiares de Jesus chega tarde demais; os investigadores do governo já tinha vindo da capital e estavam pronto para levantar calúnias e acusações (Mc, 3:22).

            O caráter revolucionário foi sufocado pelos interesses eclesiásticos e os que foram convidados a marcharem, continuam escravizados em nome da própria mensagem de Jesus, como gado para o abate, “marcham” silentes presentes as recompensas no além-túmulo, que nunca as receberão.

            O “homem-forte” de ontem, se impõe ainda nos dias atuais, na mesma dinâmica de relações com os desafortunado convidados à marcha por Jesus. Para a revolução não violenta continuada pelos seus discípulos, Myers convida o que ele denomina de discipulado radical para que necessariamente estude a Bíblia, conservando em mente as questões sociais, políticas e econômicas, e considera dois temas chaves para esse discipulado: a) o arrependimento; b) a resistência. Arrepender-se, diz Myers, para a conversão do coração, mas também do afastamento do império – “homem-forte”, de suas distrações e seduções, de sua maldade e iniquidade. Resistência, que supõe libertar-se da poderosa sedação de uma sociedade que recompensa a ignorância e vulgariza tudo o que é político a fim de discernirmos e assumirmos posições concretas em nosso momento histórico, e de encontrarmos caminhos plenos para “impedir o progresso imperial”. Ambos os temas requerem compromisso com a não-violência, como forma pessoal e interpessoal de vida e como militância e prática revolucionária (2021).

 

         Diálogos Dialógicos: Cosmossociologia e o Vestíbulo Da Democracia (1)

A democracia vista não como sistema de governo, mas como pedagogia da liberdade.

            “Toda vida verdadeira  é encontro”, esse é o cerne da filosofia do diálogo desenvolvida por Buber, quando o homem busca realizar-se em plenitude ele precisa entrar em relação dialógica com o mundo – ele necessita dizer Tu ao outro, e este dizer – Tu só se fez com a totalidade do ser – é o encontro direto – Eu-Tu. A outra é a relação de experiência Eu-Isso. Para Buber, o diálogo não acontece "dentro" de uma pessoa nem "dentro" da outra, mas no espaço entre elas. Esse "entre" é uma realidade ontológica — um terceiro elemento que surge quando duas pessoas se voltam verdadeiramente uma para a outra. É nesse espaço que ocorre a verdadeira vida espiritual e social. Portanto, esse espaço entre o Eu-Tu, dinamiza-se a democracia real, definirei assim. Há a necessidade de diferencia considerando que a democracia liberal se realiza no Eu-Isso, o outro (ou o objeto) é categorizado, analisado e utilizado para um fim. É uma relação necessária para a sobrevivência e a ciência, mas, se o ser humano viver apenas nela, ele se desumaniza.

            Essa relação  Eu-Isso é a grande tragédia da democracia nos tempos atuais. Estudada em suas diversas dimensões, patologizou-se, naquilo que por ter perdido a identidade com o povo – ausência do demos.

            Yannis Stavrakakis retoma o conceito de pós-democracia – interessante conceito -, para se referir a um funcionamento superficial dos mecanismos democráticos, a partir de linha diminuta e real participação dos indivíduos, e uma forte centralidade do Estado e da mídia – Eu-Isso.  Isso foi determinante para o cientista grego a dívida pública e o predomínio das forças do mercado na política transformam as instituições e os laços sociais e substituem a soberania popular pela soberania do mercado.

            Stavrakakis lembra que a questão da dívida foi um instrumento de dominação e exploração, sempre de forma brutal, condicionando a verdadeira democracia ao cancelamento da servidão da dívida. Referindo-se à democracia em Atenas, ele resgata as ideias de Solon de Seisachteia. A Seisachtheia (ou "libertação dos fardos") foi um conjunto de leis instituídas pelo legislador ateniense Sólon em 594 a.C.. Ela cancelou dívidas, proibiu a escravidão por dívidas e libertou atenienses escravizados, visando corrigir a grave crise social e a servidão que ameaçavam Atenas. Foi uma reforma fundamental para prevenir uma guerra civil.

            A democracia é evangélica, diz Maritain. Coincidentemente, Jesus ao estabelecer o reino de Deus foi incisivo da necessidade do perdão das dívidas, a partilha para resolver o problema da fome e a inclusão daqueles considerados impuros pela religião de então, veja o Pai Nosso. A não realização da democracia através dos tempos, diz Maritain, é de ordem espiritual.

            A pós-democracia descrita por Stavrakakis é, portanto, a vitória definitiva do Homem-Forte de Myers: um sistema que 'seda' o demos através da dívida e da mídia, transformando a Polis em um mercado de objetos (Eu-Isso). A Seisachtheia de Sólon, ecoada no perdão das dívidas de Jesus, não é apenas política econômica; é o ato de desobstruir o 'Entre' buberiano. Somente quando o fardo da escravidão financeira é retirado, o Verbo pode voltar a se mover em marcha, transformando o vestíbulo da democracia na morada real da Cosmossociologia.

            Não há da plenitude da democracia em uma sociedade guiada pela ideologia da forma mercadoria.

 

          Diálogos Dialógicos: Sociobiologia do Reino e o Socialismo como Maturidade Ética

O socialismo como a aplicação técnica da Lei de Amor na economia.

A história das ideias muitas vezes nos impôs uma dicotomia estéril: de um lado, um espiritualismo desarnado, que ignora as leis da matéria; de outro, um materialismo vulgar, que reduz a vida a um choque mecânico de átomos. No entanto, ao revisitarmos a obra de Ludwig Büchner, especialmente seu vigoroso Socialismo e Darwinismo, encontramos a fresta necessária para uma síntese superior. Büchner nos ensina que a evolução não é um tribunal de exceção para a barbárie, mas o processo pelo qual a vida se organiza em complexidade e cooperação.

Neste tópico, propomos que o Socialismo não deve ser lido apenas como uma agenda econômica de urgência, mas como a própria Maturidade Ética da espécie humana. Se a sociobiologia do "mundo" justificou a rapina sob o manto da "seleção dos mais aptos", a Sociobiologia do Reino inverte a bússola: o mais apto, no estágio humano de consciência, é aquele que melhor exercita o "Nós".

O Socialismo surge, portanto, como o ecossistema necessário para que a lei do auxílio mútuo deixe de ser um instinto de sobrevivência e se torne uma práxis de libertação. Não há "Reino" sem a base material que sustente a dignidade; e não há "Maturidade" enquanto a arquitetura social for uma fábrica de exclusão. A partir de Büchner, compreendemos que o espírito não flutua sobre as águas da miséria, mas exige uma matéria organizada pela justiça para que o DNA do amanhã possa, finalmente, florescer em comunhão.

            A transição para o socialismo, sob a ótica da Sociobiologia do Reino, deixa de ser uma mera utopia política para revelar-se como a incontornável maturidade ética da espécie. Se Ludwig Büchner nos desvelou que a evolução humana não se estriba na rapina, mas na sofisticação do auxílio mútuo como imperativo biológico, John Stuart Mill oferece a chave institucional ao demonstrar que as leis da distribuição da riqueza são constructos da vontade humana, e não fatalismos da natureza. É neste ponto de mutação que a “fábrica de Lázaros” do capital esbarra no seu limite evolutivo. Para Léon Denis, essa reorganização das estruturas materiais nada mais é do que a exteriorização da Lei do Progresso: o momento em que a individualidade atomizada do 'Eu' dá lugar à consciência coletiva do 'Nós'. O socialismo surge, portanto, como o ecossistema definitivo onde a liberdade de Mill e a biologia de Büchner se fundem na fraternidade de Denis, inaugurando uma arquitetura social que não apenas abriga o espírito, mas o liberta para a sua destinação cósmica (2013).

 

 Diálogos Dialógicos: Comunismo Espiritual e o "Nós" Cosmossociológico

Em marcha (...) deles é o reino de Deus

             Tome-se tento!

            Em vez de Bem-Aventurados (Makariori), segundo o texto grego, orienta todos os tradutores na pista errada (...). Felizes, bem-aventurados, repetem todos os tradutores de todas as línguas e dialetos de todos os séculos (...) (Chouraqui, 1996)

Considere-se:

 

”Em marcha os pobres de espírito, porque deles é o reino de Deus; Em marcha os que choram, porque eles serão consolados; Em marcha os mansos, porque eles herdarão a terra; Em marcha os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos...” (Mt, 5:3-12). (idem)

 

            Essa convocação por parte de Jesus ocorre diante de um país ocupado por Roma há quase um século, desde o ano 63 a.C, portanto, turbulento e cujos habitantes a odiavam, por entendê-la como uma potência idólatra e opressora. A Galiléia, segundo Chouraqui, região montanhosa, de bosques, lugar propício à guerrilha, à organização de resistência e às intervenções de grupos armados, que teimavam destruir as vias de comunicação e o poderio do império (1996).

            Como esse "lugar de guerrilha" na Galileia se torna o laboratório para a maior experiência de comunhão da história (o comunismo dos primeiros cristãos)?

            A renúncia à propriedade privada (Lc 18:22) e a coletivização dos recursos não eram atos de ascese isolada, mas a própria logística da resistência. No laboratório da Galileia, Jesus percebeu que um povo endividado e faminto não marcha; por isso, a Seisachtheia evangélica — o perdão das dívidas e o pão partilhado — era a condição sine qua non para a Morfogênese do 'Nós'. O Comunismo dos primeiros cristãos foi a resposta orgânica de um corpo que descobriu que a única forma de amarrar o Homem-Forte do Império era tornando-se um só organismo, onde ninguém retém o que o outro necessita para seguir em marcha.

            Como rastreado nesta jornada, a Utopia Encarnada revela-se no ponto de confluência, entre as cosmossociologias egípcia e espírita. Aqui, a Maat — a harmonia universal — não é um conceito abstrato, mas o equilíbrio exato da justiça distributiva.

No antigo Tribunal de Osíris, a Confissão Negativa impunha um rigor revolucionário: o espírito não era interpelado sobre seus dogmas, mas sobre seus fatos sociais. Diante das 42 perguntas do julgamento, a alma devia atestar sua retidão na carne:

 

    “Não causei sofrimento a ninguém”;

    “Não deixei ninguém faminto”;

    “Não subtraí as provisões que pertenciam ao comum”.

 

Nessa pesagem metafísica, a salvação espiritual é indissociável da responsabilidade coletiva. Se o coração pesasse mais que a pena da verdade, era porque o egoísmo — essa patologia da posse — havia rompido a harmonia do fluxo vital, tornando a alma densa demais para a luz.

O Espiritismo retoma esse fio de ouro da história. Ao alcançar a plenitude do ser moral, o Espírito desintegra as correntes da “idiossubjetivação” e, gradativamente, liberta-se da “roda palingenésica”. Como bem define Herculano Pires, a vivência plena dos postulados espíritas permite ao homem conquistar o "ponto neutro" da evolução.

Ao amarrar o "Homem-Forte" do egoísmo e participar da Morfogênese do Nós, o Espírito anula a poderosa reação gravitacional da Terra. Leve como a pena de Maat, e em marcha contínua, ele finalmente se desprende da lama do "ter" para elevar-se, soberano e coletivo, à plenitude do Plano Angélico; o reino de Deus, em nós.

 

 

Referências:

BUBER, Martin. Diálogos dialógicos. São Paulo; Perspectiva, 1982.

BÜCHNER, Ludwing. Darwinismo e socialismo. São Paulo; Ipê, 2013.

CHOURAQUI, André. A Bíblia – Matyah. Rio de Janeiro; Imago, 1996.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. São Paulo; Comenius, 2022.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Brasília; FEB, 1987.

_____________ O Livro dos Espíritos. São Paulo; LAKE, 2000.

MAURITAIN, Jacques. Cristianismo e democracia. Rio de Janeiro; Agir, 1949.

MYERS, Ched. O Evangelho de são marcos. São Paulo; Paulus, 2021.

PASTORINO, Carlos T. Sabedoria do Evangelho – volume 1º. Rio de Janeiro; Sabedoria, 1984.

PIRES, Herculano J. O Centro espírita. São Paulo; LAKE, 1990.

_________________Introdução à filosofia espírita. São Paulo; FEESP, 1993.

(1)https://outraspalavras.net/sem-categoria/o-triste-espetaculo-da-democracia-sem-demos/

 

 

Comentários

  1. COMENTÁRIO ELABORADO POR INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - IA (GEMINI)
    ## 1. A Desmitologização e a Dinâmica do Reino ("Em Marcha")

    O maior mérito inicial do texto é resgatar o Jesus histórico e revolucionário através da exegese de André Chouraqui. Ao trocar a tradução tradicional de makarioi ("bem-aventurados") pelo imperativo semítico ashréi ("Em marcha"), o autor desconstrói a teologia da resignação e da passividade. O "Reino de Deus" deixa de ser um prêmio estático no além-túmulo e passa a ser um processo biológico, social e dinâmico — uma morfogênese que se faz no caminhar e na resistência ativa contra a opressão.
    ## 2. O Desmonte do "Homem-Forte" e a Práxis Política

    Utilizando a leitura de Ched Myers sobre o Evangelho de Marcos, o artigo posiciona o Cristianismo Primitivo não como uma religião de piedade isolada, mas como um manual de guerrilha ideológica. O "Homem-Forte" a ser amarrado representa as estruturas de poder opressoras: o Império Romano, o Templo-Estado e, na contemporaneidade, a pós-democracia de mercado (Stavrakakis) que seduz e escraviza o demos através da dívida e do consumo (a relação Eu-Isso de Martin Buber).
    ## 3. A Confluência entre Sociobiologia, Espiritismo e Socialismo

    O texto amarra de forma original a evolução biológica e espiritual. Citando Büchner, John Stuart Mill e Léon Denis, argumenta-se que o socialismo e o comunismo dos primeiros cristãos não são meras utopias econômicas, mas a maturidade ética da espécie. A transição do "Eu" egoísta para o "Nós" coletivo é vista tanto como uma necessidade de sobrevivência biológica (auxílio mútuo) quanto como uma lei de progresso espiritual.
    ## 4. A Conclusão Mística e Universalista: De Maat ao Plano Angélico

    O desfecho do artigo unifica o conceito egípcio de Maat (a justiça distributiva avaliada no Tribunal de Osíris) com a filosofia espírita de Herculano Pires. A salvação ou a libertação da "roda palingenésica" (reencarnatória) deixa de ser um crédito dogmático e passa a ser o resultado direto da responsabilidade coletiva. Só se desprende da gravidade da Terra a alma que, livre do egoísmo do ter, marchou em direção à justiça social.

    Em suma: O artigo é um manifesto contundente contra a domesticação eclesiástica da mensagem de Jesus. Ele reposiciona o Cristo como o propulsor de uma Cosmossociologia libertadora, onde a emancipação política e econômica dos oprimidos na Terra é a condição sine qua non para a própria ascensão espiritual. É uma leitura obrigatória para quem busca conectar espiritualidade com engajamento social crítico.

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