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O ESPÍRITO E A ADMIRÁVEL JORNADA DA VIDA

                     Por Jorge Luiz                      

                     As redes sociais têm se apresentado como oceano fecundo de casos de pais sobre crianças-prodígio, aquelas com talentos artísticos, e outros que relatam lembranças de suas vidas pregressas. Um desses relatos me chamou à atenção pelo seu ineditismo. Trata-se de Mathias (nome fictício), com apenas cinco anos, relatava o momento em que ocorreu a sua concepção. Mathias, em conversa com sua mãe, antes de pegar no sono, relatou que “estava com “papai do céu” lá em cima e se viu na barriga do pai, mas a barriga do pai era escura, tudo preto e cheia de pelos; não gostando, correu muito e escorregou rápido para a barriga da mãe, e sua barriga é rosa, sabia mamãe? ‘Papai do céu’ disse que eu tenho um segredo e não posso contar. A mãe indagou qual era o segredo e ouviu como resposta que aí seria outra página, mas ‘papai do céu’ não deixa.” Bruscamente, virou-se para o outro lado e adormeceu. Dá a impressão de que estava em estado de semivigília, o que explica o rápido adormecimento.

            O relato não deixa de ser curioso, mas Mathias – Espírito – descreve de forma consciente o caminho percorrido do espermatozoide em direção ao óvulo em que se deu sua concepção. Talvez isso possa parecer “imaginação fantasiosa”, no entanto, asseguro que é verossímil. Impossível que uma criança com essa idade, com os pais desconhecendo a reencarnação e os processos que a envolve, em suas múltiplas nuances, trouxesse à lembrança uma ocorrência dessa natureza.

            O fato relatado por Mathias é estudado pela psicologia perinatal, que se apresenta como uma proposta para o futuro da Psicologia fomentando ideias novas, de profundidade crescente, e rico campo de formação da mente no período pré-natal. No Brasil, o principal nome nessas investigações é a psicanalista Dra. Joanna Wilheim. A sua proposta é conjecturada a partir de que o caráter e a personalidade do indivíduo seriam, antes de mais nada, determinados:

a)    pelo registro das experiências pelas quais passou tanto o espermatozoide quanto o óvulo, das quais resultou aquele ser, desde o momento de sua emissão até o momento do seu encontro – concepção;

b)    pela relação que se estabelece entre os dois, antes, na hora e depois que o encontro se dá; (...). (Wilheim, 2003)

Essas instâncias são interessantes para o presente ensaio, pois seria esta a situação básica, matriz triangular, composta por três momentos. Numa primeira instância, o registro dos dois troncos básicos componentes do novo ser: tronco espermatozoide, por um lado; tronco óvulo, por outro. Depois, a junção dos dois, o momento da fecundação: registro da experiência de fusão de núcleos. Concepção. Vida. (Idem)

Wilheim sugere que a mente traz o registro de cada um dos tormentosos momentos dessa angustiante trajetória. E que tais registros, feitos pela memória celular, constituir-se-iam na fantasia (memória e não produto da imaginação) básica referente ao que ocorre com cada um dos nossos dois troncos básicos componentes – espermatozoide e óvulo – antes de se dar a integração.

As conjecturas de Wilheim, ao considerar esses registros, são dadas à “memória celular” sendo reducionistas. É um conceito meramente materialista, esse é o pecado dela. A mente, anteriormente, foi considerada epifenômeno da matéria, conhecido como o princípio do monismo materialista. A antítese do realismo materialista é o idealismo monista. Segundo esta filosofia, a consciência, e não a matéria, é fundamental. A teoria quântica, interpretada de acordo com uma metafísica idealista, está pavimentando a estrada para uma ciência idealista, na qual a consciência (leia-se Espírito) vem em primeiro lugar e a matéria desce para uma apagada importância secundária (Goswami, 1993). O idealismo monista é sustentado pela física quântica e é fortalecido pela compreensão espírita, Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas, ao elemento material, é necessário juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela. (...) (Kardec, 2000, questão 27). Portanto, o Espírito, utilizando-se do fluido cósmico universal, congela a matéria e dá formas ao mundo material que habitamos.

Em que momento a alma se une ao corpo? Kardec indaga:

- A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para tomar determinado corpo a ele se liga por um laço fluídico, que se vai encurtando cada vez mais, até o instante em que a criança vem à luz. (...).” (Kardec, 2000, questão 344). Na medida que laço vai encurtando, ocorre na dimensão do perispírito, o esquecimento das memórias passadas. Na concepção, o Espírito está pleno.

A pena mediúnica de Chico Xavier oferece a dinâmica acima para a reencarnação do Espírito Segismundo, onde destaco: auxiliado pelo concurso magnético do mentor querençoso, passei a observar as minúcias do fenômeno da fecundação. Através dos condutos naturais, corriam os elementos sexuais masculinos, em busca do óvulo, como se estivessem preparados de antemão para uma prova eliminatória, em corrida de três milímetros, aproximadamente, por minuto. Surpreendido, reconheci que o número deles se contava por milhões e que seguiam, em massa, para frente, em impulso instintivo, na sagrada competição (Xavier,1991).

            O Espiritismo, amparado na imortalidade da alma, tem dado contribuição significativa para todas as ciências, notadamente, para a Psicologia, naquilo que se passou a definir como a da transpessoalidade, a partir das evidências das vidas passadas, com destaques para Hellen Wambach, uma das pioneiras, Moris Netherton, Edith Fiore, e o casal Stanislaw e Christina Grof, para não se estender em demasia. A Terapia de Vidas Passadas, inicialmente assim denominada, passou a ser conhecida como Terapia Regressiva de Vivências Passadas (TRVP), logo que se percebeu que as lembranças passavam e iam além da vida intrauterina. Porém, foi Brian Weiss que provocou verdadeiro boom no mundo com a TRVP, com o seu best-seller Muitas Vidas, Muitos Mestres.

            A ideia é que, conforme a ciência empírica invade os segredos mais profundos do mundo físico, ela descobre fatos e dados que exigem um tipo de Inteligência que transcende o domínio material (Wilber, 2006).

            Wambach, em seus casos clínicos estudados, chegou a resultados interessantes para o presente ensaio, pois demonstra o estado de ânimo dos Espíritos no que diz respeito ao seu renascimento.

a)    8% nada sentiram;

b)    11% resistiram e estavam mais ou menos temerosos;

c)    55% mostraram pelo menos alguma hesitação;

d)    23% preparam-se ativamente;

e)    3% foram muito apressados e contra os conselhos. (Tendam,1993)

Por certo, Mathias está entre os 23% pelo nível de consciência que aflorou em sua mente agora, o que demonstra um certo grau de amadurecimento espiritual. Poder-se-ia imaginar, de forma metafórica, um grupo de paraquedistas prontos para realizar seus saltos. Todos esses exemplos são analisados por Wambach, omitidos aqui para não se alongar o texto.

Notável, entretanto, é o relato do psiquiatra sueco Stanislav Grof, quando em uma conferência da Associação de Psicologia Pré e Perinatal, em San Diego, na Califórina, o terapeuta australiano Graham Farrant, durante sua apresentação, exibiu fita de vídeo de sua sessão de terapia prima, da qual revivia a sua concepção.

Para a surpresa de todos, Graham descobriu em sua sessão que, como espermatozoide, ele não atacava e penetrava o óvulo como se ensinava nas faculdades de Medicina na época, mas que o óvulo cooperava, enviando uma extensão de seu citoplasma e o engolfando (Grof, 2006), paradigma hoje reconhecido.

Grof apresenta um excerto, no mesmo evento, de uma sessão com alta dose de LSD de um jovem psiquiatra, na qual descreve sua identificação convincente com o espermatozoide e o óvulo em um nível celular de consciência. Tendo revivido a competição entre os espermatozoides e a fusão das duas células germinais durante a concepção, ele reviveu também as divisões celulares do óvulo fertilizado e todo o desenvolvimento embrionário até tornar-se um feto maduro. Em algum ponto dessa corrida eu também me identifiquei com o óvulo. Minha consciência oscilava e se alternava entre o espermatozoide que rumava para seu destino e a do óvulo como uma expectativa vaga, mas intensa, de um evento altamente desejável e importante. A excitação dessa corrida aumentava a cada segundo e seu ritmo agitado finalmente aumentou em um grau que parecia lembrar o voo de uma nave espacial aproximando-se da velocidade da luz (Grof, 2006).

Observa-se que, mesmo sendo um relato lúdico, a descrição de Mathias guarda características particulares com as narrativas apresentadas, trazidas para autenticar as suas reminiscências.

Todos os Espíritos que mergulham no corpo físico, trazem minudências em seu perispírito, que guardam potencial magnético que contribuem para que o espermatozoide que se sintoniza, vença a admirável jornada da vida, quando aproximadamente 250 milhões de espermatozoides empreenderam uma corrida de aproximadamente 25 cm, a uma velocidade de mais ou menos 2 milímetros por minuto, até um alcançar o destino final – o óvulo.

A vida precede a vida e supera a morte, em um ciclo permanente de renascimentos com o propósito único de crescermos na arte de amar. As crises de ansiedade, depressão, suicídios, guerras e misérias, hoje no mundo, são decorrências de um modelo de sociabilidade que não contempla a imortalidade da alma e as vidas sucessivas. Quando o homem compreender isso, ter-se-á um mundo de harmonia entre os seres.

 

Referências:

GOSWAMI, Amit. O universo autoconsciente. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos, 1993.

GROF, Stanislav. Quando o impossível acontece. São Paulo: Heresis, 2006.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo: Lake, 2000.

TENDAM, Hans. Panorama sobre a reencarnação – vol. 2. São Paulo: Summus, 1993.

WILBER, Ken. A união da alma e dos sentidos. São Paulo: Cultrix, 1998.

WILHEIM, Joanna. A caminho do nascimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

XAVIER, F. Cândido. Missionários da luz. Brasília: FEB, 1991.

 

 

           

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